Há elementos que decoram. Outros resolvem problemas. O cobogó, por sua vez, faz as duas coisas com elegância. Ícone da arquitetura brasileira, ele nasceu da engenhosidade de três engenheiros pernambucanos — Coimbra, Boeckmann e Góis — e, desde a década de 1920, tornou-se símbolo da inteligência construtiva adaptada ao nosso clima tropical.
Seu desenho vazado não é apenas um recurso estético. Ao permitir a ventilação natural e controlar a incidência da luz natural, o cobogó cria ambientes mais frescos, sombreados e visualmente dinâmicos. A luz que atravessa suas aberturas projeta padrões no piso e nas paredes, desenhando sombras que mudam ao longo do dia. É arquitetura em movimento.
Origem modernista e identidade nacional
O surgimento do cobogó está diretamente ligado ao desejo de criar soluções adequadas ao calor intenso do Nordeste. Entretanto, foi durante o movimento modernista que ele ganhou protagonismo, especialmente em projetos que buscavam integrar forma, função e clima.

Ao ser incorporado em fachadas, varandas e circulações, o elemento passou a representar uma arquitetura que respira. Diferente de paredes maciças, o cobogó estabelece uma transição entre interior e exterior, mantendo privacidade sem bloquear completamente o entorno.
Para a arquiteta Vanessa Paiva, do escritório Paiva e Passarini, “o cobogó é uma resposta inteligente à nossa realidade climática. Ele permite ventilação cruzada e iluminação difusa, reduzindo a necessidade de climatização artificial”. Assim, seu uso não é apenas estético — é estratégico.
Luz filtrada: poesia e desempenho térmico
Quando falamos em design de interiores e conforto ambiental, é impossível ignorar o papel da iluminação. O cobogó na decoração atua como um filtro natural, suavizando a luz intensa e evitando ofuscamentos. Ao mesmo tempo, cria efeitos gráficos que enriquecem o ambiente sem recorrer a excessos decorativos.
Dessa forma, o elemento contribui para o chamado conforto lumínico. Ambientes com cobogós tendem a ser mais agradáveis visualmente, pois a luz não incide de forma direta e agressiva. Além disso, o sombreamento parcial ajuda no controle térmico, fator essencial em regiões de clima quente.
Claudia Passarini, também do escritório Paiva e Passarini, observa que “quando bem posicionado, o cobogó substitui a parede opaca e se torna protagonista do projeto, criando identidade sem comprometer a funcionalidade”. Ou seja, ele não é mero adorno: é arquitetura ativa.
Do concreto à cerâmica: versatilidade contemporânea
Embora tenha surgido tradicionalmente em concreto, hoje o cobogó moderno aparece em cerâmica, argila, porcelanato e até versões metálicas. Essa diversidade amplia suas possibilidades dentro da arquitetura contemporânea.

Em interiores, ele pode delimitar ambientes integrados — como sala e cozinha — sem perder a fluidez espacial. Em áreas externas, atua como brise permanente, protegendo fachadas da incidência solar direta. Já em halls e varandas, injeta textura e ritmo visual.
Aliás, seu uso estratégico pode valorizar a entrada de casa, criando uma primeira impressão marcante e ao mesmo tempo acolhedora. O jogo de luz e sombra transmite movimento, enquanto a ventilação constante melhora a sensação térmica logo no acesso.
Cobogó como elemento de transição
Na prática projetual, o cobogó funciona como mediador entre cheio e vazio. Ele organiza o espaço sem enclausurar. Em apartamentos, pode separar o home office da sala; em casas térreas, delimitar o jardim do estar social. Contudo, seu uso exige cuidado. É fundamental avaliar orientação solar, incidência de ventos e proporção das peças.

Um excesso de vazios pode comprometer privacidade; já um desenho muito fechado reduz a eficiência da ventilação. Nesse sentido, o cobogó reforça uma característica central da arquitetura brasileira: a capacidade de dialogar com o clima e com a paisagem.
Atual, sustentável e atemporal
Em tempos de busca por soluções mais sustentáveis, o retorno do cobogó não é apenas uma tendência estética. Ele representa uma arquitetura passiva, que prioriza estratégias naturais antes de recorrer a equipamentos mecânicos.
Assim, ao incorporar esse clássico nos projetos atuais, arquitetos resgatam um saber construtivo que sempre esteve alinhado ao nosso território. Não se trata de nostalgia, mas de inteligência projetual. Usar o cobogó é celebrar história, ventilação, luz e identidade. É permitir que a arquitetura respire — literalmente.





