Existe um tipo de casa, vista como “chique”, que você já viu mais vezes do que consegue contar! Certamente na casa de um vizinho, de um familiar ou num perfil no Instagram com milhares de curtidas, que sempre vem carregada com um porcelanato marmorizado que cobre o chão inteiro, um ripado de madeira que aparece na parede da sala sem nenhuma razão funcional, ou ainda várias fitas de LED contornando cada sanca, cada nicho, cada rodapé.
Para completar, abuso de metais escovados e os inox brilhantes, aparecendo em torneiras, puxadores, detalhes de móveis. E tudo isso, tudo junto, tudo ao mesmo tempo, chegando a sobrecarregar os ambientes. Pois bem, esse conjunto ficou conhecido, informalmente, como o “surto da casa chique”, e ele se espalhou com uma velocidade que nenhuma tendência de decoração séria conseguiria explicar.
O problema não é o material, é o excesso sem propósito
O grande erro aqui não está nos materiais em si. O porcelanato, por exemplo, é um revestimento tecnicamente superior ao azulejo em quase todos os aspectos: mais denso, menos poroso, mais resistente. Já o ripado tem origem no design escandinavo e japonês, onde cumpre uma função estética e até acústica. E, o LED embutido por sua vez, é uma solução de iluminação legítima quando bem aplicada.

O problema está na forma como esses elementos são usados juntos, sem critério, sem projeto, sem identidade. Geralmente são peças compradas num único dia, numa única loja, pelo mesmo vendedor que garantiu que “fica lindo com tudo”. E aí, o resultado é sempre o mesmo: uma casa que parece um showroom e não um lar, com aconchego.
E, cá entre nós: Showroom não é elogio, é exatamente o oposto do que uma casa deveria ser.
Por que essa estética tomou conta do Brasil?
A resposta mais honesta é: pressa e falta de repertório. Quando alguém decide reformar sem o apoio de um arquiteto ou designer de interiores, o caminho natural é ir até a loja de materiais de construção e confiar no que está exposto. E o que está exposto, em geral, são os itens que mais vendem — não os que mais combinam com cada projeto.

Aliás, as redes sociais aceleraram esse processo de uma forma preocupante. Um perfil mostra uma casa com porcelanato brilhante, outro replica, um terceiro replica do segundo, e em pouco tempo aquele padrão vira referência de “casa bonita” para milhares de pessoas que nunca pararam para perguntar: isso combina comigo? Isso faz sentido para o meu espaço? Isso vai envelhecer bem?
A resposta, na maioria dos casos, é não.
O que realmente faz uma casa ser chique
“Casa chique não é casa que impressiona. É casa que acolhe.”
Essa distinção pode parecer simples, mas muda completamente a forma de pensar cada escolha de revestimento, de mobiliário, de iluminação. Uma casa elegante de verdade tem leveza. Ela não precisa gritar o tempo todo que é bonita, ela simplesmente é, e quem entra sente isso antes mesmo de perceber por quê.
Os materiais que criam essa sensação são, em geral, os mais simples: madeira natural, tecidos como linho e algodão, pedras com acabamento fosco ou acetinado, iluminação indireta e dimerizável, plantas, superfícies que aceitam o toque sem parecer vitrines de loja.
Cuidado com o excesso de superfícies brilhantes: elas refletem a luz de forma intensa e criam um ambiente visualmente agitado, o oposto do que qualquer espaço de descanso precisa. Um porcelanato acetinado ou natural entrega o mesmo padrão técnico do brilhante com muito mais sofisticação — e envelhece melhor ao longo dos anos.
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O ripado na parede: quando vira vício
O painel ripado é, talvez, o maior símbolo desse fenômeno. Ele surgiu como um recurso de design com propósito claro: criar textura, suavizar uma parede lisa, trazer referência à marcenaria escandinava. Quando bem aplicado, em tamanho compatível com o ambiente, na altura correta, com acabamento cuidadoso, ele funciona e fica

O que não funciona é colocá-lo em todas as paredes, em todos os cômodos, sem critério de escala ou paleta. Notamos que, nos projetos onde o ripado aparece de forma excessiva, ele deixa de ser elemento decorativo e passa a ser ruído visual, fazendo a parede perder protagonismo e o respiro.
Iluminação: o maior erro da casa genérica
A fita de LED contornando cada superfície da casa virou marca registrada dessa estética, e aqui o erro é duplo: técnico e estético. Do ponto de vista técnico, a iluminação de uma casa bem projetada deve ter circuitos independentes, com possibilidade de regular a intensidade conforme a atividade — uma leitura antes de dormir pede uma temperatura e intensidade completamente diferentes de um jantar com amigos. Fitas de LED aplicadas de forma decorativa sem planejamento elétrico e sem dimmer não cumprem essa função.
Do ponto de vista estético, o excesso de LED cria uma casa que parece estar sempre “ligada”, sem descanso visual. A iluminação de qualidade é aquela que você sente, mas não necessariamente vê a fonte. Arandelas, pendentes bem posicionados, abajures e luminárias de piso criam camadas de luz que transformam o ambiente e esse é o padrão das casas que realmente envelhecem bem.
Dica de ouro: antes de definir qualquer ponto de luz, observe como o sol entra em cada cômodo nos diferentes horários do dia. Um ambiente com boa entrada de luz natural pela manhã precisa de uma iluminação artificial completamente diferente de um cômodo voltado para o poente. Esse detalhe, que parece pequeno, muda completamente o resultado final.
Casa com identidade é diferente de casa na moda
O ponto mais profundo dessa discussão não é sobre materiais, é sobre propósito. Uma casa com identidade reflete quem mora nela, com personalidade e afeto, com as viagens que esse morador fez, os livros que ele lê, as cores que o deixam bem, os tecidos que ele gosta de sentir.
Já a casa genérica não tem nada disso, ela tem o que o vendedor disse que era bonito, o que o vizinho tinha, o que apareceu no Instagram na semana passada. Ou seja, ela é feita para ser fotografada, não para ser habitada.
E esse é o ponto central: uma casa existe para quem mora nela, não para quem passa na frente, e quando essa premissa é esquecida, o resultado é um espaço frio, impessoal, desconfortável — por mais brilhante que seja o porcelanato no chão.
A casa aconchegante não tem fórmula, mas tem princípios. Materiais que aceitam o tempo sem envelhecer mal. Iluminação que cria atmosfera, não apenas claridade. Mobiliário com escala correta para o espaço. Paleta cromática coerente. E, acima de tudo, elementos que fazem sentido para quem vive ali — não para quem vai ver a foto.





