Foz do Iguaçu já era conhecida como destino obrigatório pelas Cataratas, reconhecidas como uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo pela Unesco. Agora, a cidade ocidental do Paraná se prepara para um novo capítulo: receber o Centre Pompidou Paraná, a primeira unidade satélite do famoso museu francês nas Américas. Os contratos de cooperação técnica e cultural entre o Governo do Paraná e a instituição francesa foram formalizados recentemente, com publicação no Diário Oficial do Estado, e a previsão é que o museu seja inaugurado em dezembro de 2028.
O investimento total previsto é de R$ 183 milhões, estruturado para cobrir desde a fase atual de pré-operacionalização até os primeiros anos de funcionamento da unidade. Mais do que um aporte financeiro, o projeto representa a chegada ao Brasil de uma das mais importantes referências culturais do mundo, ao lado de nomes como o Louvre Abu Dhabi e o Museu Guggenheim Bilbao.
Um museu que nasce da terra de Foz
O projeto arquitetônico é assinado pelo paraguaio Solano Benítez, vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2016, um dos prêmios mais relevantes da arquitetura contemporânea. A proposta é construir um espaço de 24 mil metros quadrados ao lado do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, em um terreno cedido pela CCR Aeroportos, a cerca de 10 minutos do Parque Nacional do Iguaçu.
O que torna essa concepção diferente das unidades convencionais do Pompidou é a relação deliberada com o território. Benítez propõe o uso de tijolos produzidos com a terra de Foz do Iguaçu, possivelmente extraída do próprio terreno onde o museu será construído. A ideia não é apenas estética: é uma declaração sobre pertencimento. Usar o mesmo material que se encontra nas casas comuns da cidade é uma forma de aproximar a obra da população local. Além disso, o projeto integra a mata nativa que nasce espontaneamente no terreno ao percurso interno do museu, sem uma delimitação rígida entre o dentro e o fora do edifício.
O resultado esperado é um espaço com acessos imersivos, grandes salões maleáveis para exposições e uma área central que funcionará como ponto de encontro e observação, conectada visualmente à paisagem natural ao redor.
O que a parceria realmente contempla
A contratação publicada vai muito além do licenciamento da marca. Durante oito anos, os instrumentos da parceria incluem consultoria técnica especializada, transferência de conhecimento, formação e treinamento de equipes, missões técnicas com acompanhamento presencial de especialistas franceses, desenvolvimento de programas museológicos e curatoriais, além de acesso ao acervo e às exposições da instituição parisiense.
“Os contratos envolvem transferência de conhecimento, consultoria especializada, formação de equipes, acompanhamento técnico, intercâmbios e acesso ao conteúdo artístico e museológico do Centre Pompidou. Esse conjunto de ações é fundamental para garantir que o Paraná implante um equipamento cultural alinhado aos mais elevados padrões internacionais de gestão, programação e experiência de público”, afirma Débora Mateus, diretora de Implantação do Centre Pompidou Paraná.
Fiel ao espírito do Pompidou de Paris, inaugurado em 1977, a unidade paranaense terá programação multidisciplinar: exposições de arte moderna e contemporânea, festivais, ciclos de cinema, apresentações cênicas, conferências e residências artísticas. A curadoria será desenvolvida em conjunto com a equipe francesa, com foco especial na produção artística latino-americana e da Tríplice Fronteira, região de encontro entre Brasil, Argentina e Paraguai.
O acervo do Centre Pompidou reúne aproximadamente 140 mil obras de arte moderna e contemporânea, tornando-o um dos mais significativos do mundo. Parte desse patrimônio chegará ao Brasil através de mostras itinerantes programadas para a unidade paranaense.
O “efeito Bilbao” que o Paraná busca replicar
A aposta em grandes equipamentos culturais como motores de desenvolvimento econômico não é nova. O caso mais estudado é o do Museu Guggenheim Bilbao, inaugurado em 1997. A cidade, que enfrentava declínio industrial, transformou-se em um dos principais destinos turísticos da Europa em menos de uma década. O museu passou a atrair investimentos, ampliar o fluxo de visitantes e impulsionar toda a cadeia de serviços local.
Outro precedente relevante é o Louvre Abu Dhabi, aberto em 2017. Em apenas dois anos de funcionamento, ultrapassou a marca de 2 milhões de visitantes e consolidou Abu Dhabi como destino cultural global no Oriente Médio, diversificando uma economia que dependia quase exclusivamente do petróleo.
Foz do Iguaçu já parte de uma posição favorável: é um destino reconhecido mundialmente, com fluxo turístico consolidado durante o ano inteiro. A projeção é que o Centre Pompidou Paraná receba cerca de 800 mil visitantes por ano, atraindo novos públicos, ampliando o tempo médio de permanência dos visitantes na região e gerando oportunidades para hotéis, restaurantes, serviços e a cadeia criativa local.
“Os grandes museus contemporâneos são muito mais do que espaços expositivos. Eles funcionam como plataformas de inovação, educação, turismo, produção de conhecimento e desenvolvimento econômico. O que observamos em experiências internacionais é que investimentos estruturados em cultura geram impactos que se estendem para toda a cidade e para toda a região”, pontua Débora Mateus.
A primeira das Américas, em território brasileiro
O Centre Pompidou mantém unidades satélite em cidades como Málaga (Espanha), Bruxelas (Bélgica), Xangai (China) e AlUla (Arábia Saudita), além de uma futura unidade em Seul (Coreia do Sul). Foz do Iguaçu entra nessa lista como a primeira cidade das Américas e do hemisfério sul a integrar essa rede internacional.
A parceria entre o Governo do Paraná e a instituição francesa teve início em 2022. A formalização definitiva dos contratos de cooperação ocorreu em Paris, com a assinatura do governador Carlos Massa Ratinho Junior e do presidente do Pompidou, Laurent Le Bon. A iniciativa integra também a Temporada França-Brasil 2025, que celebra os 200 anos dos laços diplomáticos e culturais entre os dois países.
A construção do museu está prevista para ter início no primeiro semestre de 2026, com a licitação das obras publicada ainda em 2025. O projeto de Solano Benítez, que propõe uma arquitetura que conecta arte e natureza com materiais regionais, tem o potencial de se tornar, por si só, um atrativo arquitetônico relevante no cenário brasileiro, assim como o próprio edifício do Pompidou em Paris, com sua estrutura “high tech” e instalações expostas, tornou-se ícone da capital francesa desde sua inauguração.
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