Poucas marcas chegam ao Salão do Móvel de Milão carregando o peso e a coerência que a Cassina sustenta a cada edição. Em 2026, a presença da empresa italiana na Via Durini vai além de uma coleção nova: é o prelúdio de um centenário que se aproxima, programado para 2027, e que já começa a tomar forma nos projetos, nos materiais e até nas parcerias escolhidas.
A filosofia que orienta tudo isso tem nome: The Cassina Perspective. Trata-se de uma abordagem projetual que propõe a convivência harmônica entre o design contemporâneo e as peças históricas que compõem o acervo da marca.
“Nosso objetivo é fazer com que, em um mesmo espaço, convivam de maneira harmônica criações do arquivo histórico e coleções recentes”, afirma o CEO Luca Fuso. Essa diretriz atravessa cada escolha da coleção de 2026, desde os colaboradores até a paleta cromática.
Oliva, amaranto e formas que acolhem
Sob a direção criativa de Patricia Urquiola, os tons de oliva e amaranto funcionam como o eixo cromático da edição deste ano. Não é uma escolha aleatória: as duas cores estabelecem uma ponte visual entre os novos lançamentos e as peças da linha Cassina iMaestri, o arquivo histórico que reúne ícones assinados por Le Corbusier, Charlotte Perriand, Franco Albini e Gerrit Rietveld, entre outros nomes que definiram o design de interiores do século XX.
Na parte superior do showroom da Via Durini, esse diálogo entre passado e presente ganha forma em uma galeria antecipada do centenário, onde peças emblemáticas surgem revestidas nessas mesmas tonalidades. “Mais que uma homenagem, é uma antecipação do que está por vir”, diz Fuso, ao mencionar a possível inauguração de um museu da marca no próximo ano.
As formas da coleção seguem uma das tendências mais evidentes do Salone del Mobile 2026: volumes suaves, generosos e acolhedores, que dialogam diretamente com um momento em que o design residencial prioriza o conforto como valor estético, e não apenas funcional.
Ardys: o sistema modular que veste o sofá de arquitetura
Entre os destaques da coleção está o sistema modular Ardys, assinado pela própria Patricia Urquiola. As costuras profundas e os volumes amplos remetem às jaquetas puffer — uma referência que pode parecer inusitada no universo da decoração de interiores, mas que funciona com precisão técnica: o estofamento combina poliuretano expandido com uma porcentagem de polióis reciclados e uma camada interna de manta de poliéster reutilizado.
A linha inclui sofás modulares, poltronas, pufes e módulos adicionais que permitem composições variadas, adaptando-se tanto a projetos residenciais quanto a ambientes de hospitalidade. As mesas de concreto com acabamento laqueado brilhante completam o conjunto e reforçam o caráter arquitetônico da proposta. O grande diferencial do Ardys está exatamente nisso: a modularidade não compromete a coesão visual, e cada peça funciona bem de forma isolada ou integrada a um sistema maior.
Novas vozes e releituras precisas
A edição de 2026 reúne colaboradores com perfis bastante distintos, o que confere à coleção uma diversidade real de referências. Chiara Andreatti, presente pelo segundo ano consecutivo, assina a poltrona Plintea — uma peça de perfil envolvente, com estrutura acolchoada apoiada sobre base cilíndrica que garante leveza visual mesmo com o volume generoso do estofamento. Disponível em tecidos ou couros da coleção e também em versão giratória, ela atende bem a projetos que transitam entre o residencial e o corporativo.
Philippe Starck apresenta a poltrona Hotte, cuja origem remete à gerla, o cesto artesanal das tradições agrícolas alpinas da Suíça e da Itália. A estrutura de base circular é leve, e a trama em salgueiro valoriza o trabalho manual de forma direta, sem romantizar a referência. É um móvel de design autoral que faz sentido dentro da narrativa da Cassina justamente por equilibrar rigor construtivo e poética cultural.
Já a linha Karakter x Cassina resulta da incorporação da marca dinamarquesa Karakter ao portfólio da italiana, ocorrida em 2019. O lançamento traz a releitura da cadeira CH66, originalmente assinada pelo grego Nicos Zographos. A estrutura em tubos de aço inoxidável, com cromado ou pintura preta, preserva as curvaturas precisas e os parafusos aparentes do projeto original. O assento e o encosto em couro tensionado por molas metálicas traduzem um refinamento construtivo que raramente aparece em peças com esse perfil.
Outdoor como linguagem, não como categoria
A coleção Oasis of Now é o capítulo outdoor da Cassina para 2026 e representa um momento claro de maturidade da marca nesse segmento. A proposta não trata o espaço externo como apêndice da decoração de ambientes internos: pelo contrário, aposta em uma atmosfera íntima e envolvente que posiciona áreas abertas como extensões reais da vida doméstica.

Os materiais seguem essa lógica: metal, mármore e madeira dialogam com tons naturais em composições que equilibram contraste e coesão. Patricia Urquiola assina a linha Vidalenta, voltada para estar e jantar ao ar livre, com sofás, espreguiçadeiras, mesas e cadeiras que combinam sobriedade estrutural e leveza formal.
Do arquivo da marca, emergem releituras adaptadas ao uso externo. A poltrona Dalila, criada por Gaetano Pesce em 1980, retorna em poliuretano expandido flexível com revestimento elastomérico colorido — uma solução que amplia a resistência da peça sem comprometer o conforto. A Novetrenta Outdoor, de Vico Magistretti, ressurge em madeira iroko, adequada às intempéries, e também em versão laqueada com assento em corda de polipropileno trançada, evocando o original em palha dos anos 1960 com um vocabulário contemporâneo.
O grande acerto dessa linha está em não tentar imitar o interior: os móveis para área externa da Oasis of Now têm personalidade própria e se sustentam esteticamente mesmo quando o entorno não é controlado como um projeto de interiores.
Persol x Cassina: dois centenários, uma bandeja de couro reciclado
A colaboração com a Persol é, talvez, o gesto mais simbólico da temporada. Os dois ícones do Made in Italy — que celebram, respectivamente, 100 e 110 anos em 2027 — se encontram em uma coleção de óculos que incorpora o logotipo da Cassina na parte interna das hastes, além de detalhes no estojo e na embalagem. O modelo inaugural surge nas cores preta e havana, com uma edição limitada de 500 unidades em azul degradê, tonalidade emblemática da Persol.
O objeto mais revelador da parceria, contudo, é o svuotatasche desenhado por Patricia Urquiola: uma bandeja porta-objetos de forma orgânica, produzida a partir de fragmentos de couro reciclado da Cassina e acetato descartado pela Persol, com base em cimento de nova geração obtido por minerais reaproveitados. Em termos de design sustentável, é um exercício preciso: dois resíduos industriais transformados em um objeto com acabamento e propósito.
Esse tipo de colaboração entre design de mobiliário e moda não é exatamente novo no calendário milanês, mas a Cassina e a Persol encontraram um ponto de encontro que vai além da co-assinatura. Há uma lógica material e histórica conectando as duas marcas, e isso aparece com clareza no produto final.
A contagem regressiva para 2027
O centenário da Cassina em 2027 já começou a ser construído agora. A galeria montada no showroom da Via Durini, os tons que conectam arquivo e novidade, a possível inauguração de um museu e a parceria com a Persol formam um conjunto coerente de movimentos preparatórios. Não é nostalgia, é estratégia.
A coleção de 2026 é, nesse sentido, uma declaração de intenções: a marca sabe de onde veio e tem clareza sobre o que quer dizer com cem anos de história. Cada peça lançada neste Salone del Mobile carrega esse peso, não como fardo, mas como argumento de autoridade dentro do design italiano contemporâneo.






