O impulso mais comum quando o frio chega é ir às compras. Mais mantas, mais almofadas, mais tapetes. Esses elementos funcionam, mas nenhum deles resolve o problema principal se as frestas nas janelas continuam roubando o calor da sala e o ar-condicionado nunca recebeu manutenção. O conforto térmico começa na estrutura, não na decoração.
“Vale a pena corrigir frestas em janelas e portas e sempre permitir a entrada de sol nos horários mais quentes. Além disso, fazer a manutenção do ar-condicionado garante que ele funcione bem no modo aquecedor”, reforça o arquiteto Alexandre Pasquotto, à frente da Meneghisso & Pasquotto Arquitetura.
Sobre o especialista
Paula Passos, é arquiteta e cofundadora do renomado escritório Dantas & Passos Arquitetura, sediado em São Paulo.
Alexandre Pasquotto, é arquiteta e sócio-fundador do renomado escritório Meneghisso & Pasquotto Arquitetura.
O inimigo invisível do inverno: o ar seco
A umidade do ar cai junto com as temperaturas, e esse é um dado que a decoração precisa considerar. A arquiteta Mariana Meneghisso recomenda plantas de folhas largas dispostas nos ambientes como recurso natural de umidificação.

“Vasos com água, toalhas molhadas penduradas em locais estratégicos, esses recursos simples equilibram a qualidade do ar sem custo adicional”, explica.
As plantas aqui não são apenas décor. Espécies como a costela-de-adão, o filodendro e a begônia têm folhas com grande superfície de transpiração, o que contribui para o equilíbrio da umidade relativa do ambiente. Estética e função, nesse caso, andam juntas.
Cortinas encorpadas, lareira portátil e o que fazer quando não se tem nenhuma das duas
A arquiteta Paula Passos, da Dantas & Passos Arquitetura, aponta um elemento frequentemente subestimado nas adaptações de inverno. “Cortinas mais encorpadas ajudam a manter o calor e ainda decoram. Para quem tem lareira, chegou a hora de usá-las ou realizar a manutenção. Quem não as tem, as versões portáteis são uma boa pedida e não exigem instalação”, diz.
As cortinas com forro térmico reduzem significativamente a perda de calor pelas esquadrias de vidro, especialmente em apartamentos com grandes painéis. O detalhe técnico que faz diferença é o posicionamento: precisam chegar até o chão e cobrir toda a abertura com folga lateral, não apenas o vão da janela.
O que os aromas fazem que a decoração sozinha não consegue
Há uma dimensão do design sensorial do lar que a maioria das pessoas ignora quando prepara a casa para o frio: o olfato. Aromas quentes e envolventes alteram a percepção do ambiente de forma imediata. Canela, baunilha, cedro e sândalo são os mais eficazes nesse papel.

“Eles podem estar em velas, difusores de varetas, incensos ou sachês em gavetas. Uma forma mais simples ainda é ferver cascas de laranja com cravo, ou raspas de limão com paus de canela em fogo baixo. O aroma que se espalha pela casa é completamente característico dessa estação”, sugere Mariana Meneghisso.
Esse tipo de recurso tem impacto direto na atmosfera do lar sem alterar nenhum elemento estrutural do projeto, e por um custo muito menor do que qualquer peça decorativa.
A natureza de inverno não é verde: é terrosa
A tendência que a arquiteta Danielle Dantas, da Dantas & Passos Arquitetura, destaca para esta temporada muda o referencial estético habitual. “A temporada do frio promete ser marcada pelo olhar para a natureza e pelas composições entre o clássico e o contemporâneo, com forte influência de passado revisitado e memórias afetivas”, explica.

A natureza de que ela fala, são as folhagens secas, os galhos, as pinhas e os gradientes fechados que chegam aos ambientes em arranjos de vasos. Uma paleta mais sombreada, que aquece os sentidos sem precisar de cor saturada.
Essa abordagem conversa diretamente com o Mocha Mousse, cor Pantone 2025, e com o mostarda, ambos recomendados pela dupla de arquitetas para mantas, almofadas, tapetes, cortinas e objetos decorativos. O critério é claro: essas cores precisam respeitar o conceito original do décor, não substituí-lo.
Paleta de inverno: o perigo de fechar demais o ambiente
Aqui está o alerta que poucos textos sobre decoração de inverno costumam dar. Os arquitetos Mariana Meneghisso e Alexandre Pasquotto são diretos: não feche demais o ambiente. Tons como verde escurecido, terracota profundo e marrom funcionam muito bem quando equilibrados com bege, off-white e cinzas quentes, aqueles com fundo amarronzado e suave, não os cinzas frios e azulados.

O grande erro é substituir toda a paleta do ambiente por tons de inverno. O resultado é um espaço visualmente pesado, sem respiração. A movimentação sazonal deve acontecer em camadas, com objetos, têxteis e iluminação.
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Texturas que o olho já aquece antes do toque
Veludo, lã, tricô, couro natural, camurça e moletom, a escolha dos tecidos no inverno vai além do conforto físico. Texturas mais densas criam uma percepção visual de calor antes mesmo do toque, e é por isso que um tapete de pelo alto muda a leitura de uma sala inteira.
Materiais como madeira, pedras naturais, palha, cerâmicas artesanais e tecidos em tear reforçam essa lógica. Superfícies com irregularidades e profundidade visual transmitem calor. Superfícies lisas e brilhantes, como o porcelanato polido, fazem o oposto — e esse é um detalhe que raramente aparece nas listas de dicas de inverno.
Os dois ambientes que merecem atenção prioritária
“Quartos e salas de estar e de TV são os locais onde mais passamos tempo e que pedem adaptações sazonais”, pontua Danielle Dantas.
No quarto, roupas de cama em camadas são mais eficientes do que um único edredom pesado: manta sobre colcha, almofadas de diferentes tamanhos e tecidos retêm o calor com mais controle. Na sala, a combinação de manta no sofá com tapete felpudo entrega resultado visual e funcional ao mesmo tempo.

“A temperatura correta da lâmpada faz toda a diferença. A luz branca quente e difusa é perfeita para o final de tarde. Também gostamos da presença de luminárias de piso e abajures, que entregam uma luz indireta bastante propícia”, finalizam Mariana Meneghisso e Alexandre Pasquotto.
Tapetes de inverno e acessórios encontrados em feiras ou brechós entram no décor sem investimento alto. Essa foi a observação que vai mais diretamente contra o impulso de comprar tudo novo quando o frio chega e provavelmente é a mais útil de todas.
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