Há casas que nascem para impressionar. Outras, para acolher. Esta residência de 369 m², implantada às margens de um lago em Paulínia, no interior de São Paulo, pertence claramente ao segundo grupo. Pensada como um refúgio para desacelerar, ela traduz o desejo de um casal que buscava transformar a rotina intensa em uma experiência cotidiana de tranquilidade, conforto e conexão com a natureza.
A proposta vai além da estética. O projeto equilibra arquitetura contemporânea, materiais em estado bruto e integração plena com a paisagem, criando uma atmosfera em que robustez construtiva e acolhimento caminham lado a lado. O resultado é uma casa que não se impõe ao entorno, mas dialoga com ele — sobretudo por meio da luz natural abundante, da ventilação cruzada e da escolha criteriosa de materiais.
Integração como ponto de partida
Desde o início, o projeto partiu da arquitetura existente, estruturada em aço, que passou por uma revisão minuciosa para compatibilização estrutural, hidráulica e construtiva. Entretanto, mais do que ajustes técnicos, o grande desafio foi transformar essa base em um espaço que respirasse autenticidade.

“Desde o início, ficou claro que o projeto precisava ser verdadeiro, com materiais em sua forma mais pura e espaços que dialogassem com a paisagem”, afirma o arquiteto Diogo Mendes, do escritório João de Barro Arquitetura.
No pavimento térreo, a integração é protagonista. O hall conduz ao living, onde a parede de pedra moledo imprime textura e caráter. As grandes esquadrias de alumínio e vidro estabelecem conexão direta com o jardim e a piscina, enquanto o forro de madeira aquece visualmente o ambiente, equilibrando a frieza do aço estrutural e do cimento queimado presente no piso.

Dessa forma, a casa articula volumes contemporâneos com uma atmosfera rústica cuidadosamente construída.
Madeira, concreto e uma paleta que acolhe
A linguagem do projeto se apoia em uma paleta sóbria, composta por cinzas do concreto, marrons profundos e tons areia. Esses elementos formam uma base neutra que valoriza a materialidade e permite que pontos estratégicos de verde, azul e terracota surjam em objetos decorativos e peças do acervo pessoal do casal.
Aliás, essa curadoria afetiva é um dos diferenciais do projeto. “Essas peças trazem memória e identidade, funcionando como contraponto sensível à materialidade mais bruta da arquitetura”, observa Diogo.

Na área social, a integração entre cozinha, sala de jantar e adega reforça o conceito de convivência. A marcenaria em sucupira de reflorestamento, o forro de lambri em cumaru e as bancadas que combinam concreto polido antigo com ardósia grafite criam unidade visual e continuidade entre os ambientes.

Assim, o uso recorrente da madeira não é apenas estético, mas estratégico. “A escolha da madeira em diferentes aplicações foi essencial para trazer aconchego e reforçar a identidade rústica do projeto”, destaca o arquiteto.
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Adega com tijolos centenários: o coração da casa
Entre todos os espaços, a adega com tijolos centenários é, sem dúvida, o elemento mais emblemático da residência. Revestida internamente com tijolinhos antigos — sugestão do paisagista Alexandre Furcolin —, ela acrescenta uma camada histórica à composição e estabelece uma conexão simbólica com o passado.

Os tijolos, com suas marcas do tempo, dialogam com o conceito de rusticidade contemporânea e criam uma ambiência intimista, ideal para encontros e momentos de contemplação. Além disso, a textura irregular do material contribui para a sensação térmica e acústica do ambiente, reforçando o caráter acolhedor do espaço.
A adega, integrada à sala de jantar e à varanda gourmet, assume papel central na dinâmica social da casa, conectando interior e exterior de maneira fluida.
Integração com a mata e ventilação cruzada
Se por dentro a casa valoriza materiais naturais, por fora ela se abre generosamente à paisagem. A varanda, com assentos confortáveis e fire pit, tem como pano de fundo o paisagismo assinado por Alexandre Furcolin, com espécies como strelitzia, guaimbê e xanadu, que reforçam a atmosfera tropical sem excessos.

As esquadrias piso-teto, especialmente no pavimento superior, garantem ventilação cruzada eficiente e iluminação natural abundante. Dessa maneira, a residência reduz a necessidade de climatização artificial e fortalece sua relação com o entorno.
A integração com a mata não é apenas visual, mas sensorial. A luz filtrada, o movimento das folhas e a presença constante do verde criam um cenário que convida à desaceleração — exatamente o propósito inicial do projeto.
Área íntima: serenidade e continuidade
No pavimento superior, três suítes, closet e escritório mantêm a linguagem contemporânea e serena. O concreto aparente nas paredes dialoga com o piso em madeira copaíba, criando continuidade estética com o restante da casa.

A escolha por tons neutros também aqui permite flexibilidade ao longo do tempo, algo essencial em projetos que priorizam longevidade. Assim, o casal pode atualizar objetos e obras sem comprometer a harmonia geral.
Rusticidade contemporânea como identidade
Mais do que uma casa no interior paulista, esta residência representa um exercício preciso de rusticidade contemporânea. Materiais brutos convivem com linhas retas e volumetria limpa, enquanto a natureza deixa de ser pano de fundo para se tornar parte ativa da experiência espacial.
A combinação entre adega com tijolos centenários, madeira natural, concreto aparente e integração com a mata revela que sofisticação não está necessariamente ligada ao excesso, mas à coerência entre conceito, materialidade e estilo de vida.
Aliás, é justamente essa coerência que transforma a casa em algo maior do que um projeto arquitetônico: ela se torna cenário de convivência, memória e permanência.





