Terrenos com topografia acentuada costumam assustar na hora do projeto. O desnível exige soluções de contenção, movimentação de terra, implantação criteriosa. O custo sobe. O prazo aumenta. Mas há arquitetos que enxergam nesses desafios uma oportunidade de criar algo que um terreno plano jamais permitiria. Foi exatamente o que aconteceu com a Casa do Vale, localizada no Condomínio Nascentes, em Nova Lima, Minas Gerais.
Com 1408 m² de área construída e uma diferença de nível de 27 metros entre a rua e o ponto mais baixo do lote, o projeto foi desenvolvido pelo escritório Flat27 Arquitetura, dos sócios Gabriel Nardelli e Isabela Lopes. A implantação inteligente garantiu três resultados que definem a qualidade do projeto: acessos totalmente planos, privacidade em relação à via pública e uma vista monumental para as montanhas e o skyline de Belo Horizonte. O que seria um empecilho tornou-se o argumento mais forte do projeto.
Dois níveis, dois modos de viver
A setorização da casa respeita uma lógica clara e muito bem resolvida. No nível da rua, estão a garagem para nove veículos e as suítes, posicionadas de maneira a garantir silêncio, afastamento do movimento e enquadramento direto para o horizonte.
A escolha de colocar os dormitórios neste pavimento não é casual: trata-se de uma decisão técnica que separa o programa íntimo do programa social sem criar hierarquias desnecessárias entre os andares.
No nível inferior, a lógica se inverte e o espaço se abre. A área social foi concebida para se dissolver na paisagem, com esquadrias generosas que apagam o limite entre interior e exterior. As salas não têm a sensação de “estar dentro de casa”. Funcionam como grandes varandas cobertas, onde a mata e as montanhas entram pela esquadria e compõem a decoração de forma permanente.
Essa estratégia de desenhar o pavimento social no nível mais baixo do terreno é uma das decisões mais acertadas do projeto. A vista se abre de forma natural, sem esforço, e a integração com a paisagem de Nova Lima acontece em todos os ângulos.
O complexo de lazer como coração da casa
Poucos projetos residenciais conseguem criar um complexo de lazer com a sofisticação e a coerência técnica da Casa do Vale. A residência conta com duas piscinas de funções complementares. A piscina externa com borda infinita foi orientada para o norte, decisão técnica que garante máximo aproveitamento solar ao longo do dia e durante todo o ano.
A posição norte é, na prática, a mais valorizada em projetos de lazer no hemisfério sul: o sol incide diretamente sobre a lâmina d’água durante as horas de maior temperatura, tornando o uso muito mais confortável. A borda infinita, por sua vez, cria a famosa fusão visual entre a água e o horizonte das montanhas ao fundo.
Já a piscina interna resolve uma questão que muitas residências de alto padrão ignoram: o que fazer nos dias frios ou chuvosos? Com pé-direito duplo e cobertura de vidro, esse segundo espelho d’água funciona em qualquer clima, mantendo a luz natural mesmo quando o uso ao ar livre não é possível.
A cobertura translúcida não é apenas funcional, ela cria um ambiente de spa, com aquela luz difusa e envolvente que transforma o banho em experiência sensorial.
Sustentabilidade integrada ao projeto, não como acessório
Um dos aspectos mais relevantes da Casa do Vale é a forma como a sustentabilidade foi incorporada ao projeto de arquitetura, e não tratada como um pacote de soluções adicionadas ao final da obra. As claraboias elevadas distribuídas pela casa promovem dois benefícios simultâneos: iluminação natural profunda nos ambientes internos e ventilação cruzada permanente.
Esse tipo de solução reduz a dependência de iluminação artificial durante o dia e diminui significativamente a carga térmica dos ambientes, sem necessidade de equipamentos mecânicos. Além disso, a residência conta com sistema de energia fotovoltaica, aquecimento solar e reaproveitamento de água da chuva. São três sistemas que trabalham de forma integrada e que, juntos, reduzem consideravelmente o consumo de recursos naturais e o custo operacional da edificação ao longo do tempo. Em uma casa de 1408 m², essa economia não é marginal, é estrutural.
A quinta fachada que ninguém vê de perto, mas todo mundo percebe
Existe um conceito na arquitetura contemporânea que chama de “quinta fachada” a cobertura do edifício, aquela superfície que, em projetos tradicionais, fica esquecida com telhas, caixas d’água e condensadores de ar-condicionado. Na Casa do Vale, essa laje foi transformada em algo completamente diferente: uma praça viva com pomar.
A escolha transforma a cobertura em um espaço de contemplação e uso ativo, integrando a residência à vegetação nativa da região do Condomínio Nascentes. O pomar na laje não é decorativo. Produz, cria sombra, regula temperatura, recebe fauna local e estabelece uma relação de continuidade entre o projeto construído e a paisagem natural que o cerca. É uma decisão que demonstra maturidade projetual: a casa não termina nas paredes, ela se dissolve no território.
Conforto como conceito estrutural
O conceito que orientou todo o programa da Casa do Vale foi a ideia de transformar o cotidiano em uma experiência de “fim de semana constante”. Essa premissa, definida pelos arquitetos Gabriel Nardelli e Isabela Lopes desde o início do projeto, atravessa cada decisão: a orientação solar das piscinas, a integração das salas com a paisagem, as claraboias que trazem luz sem calor excessivo, o pomar na cobertura que convida à pausa.
O resultado é uma residência que não exige esforço para proporcionar bem-estar. O conforto está embutido na arquitetura, nas proporções, na escolha dos materiais, na relação de cada ambiente com a luz natural e com a vista. Projetos assim não precisam de muita decoração para causar impacto. A própria estrutura já é, em si, a decoração.