Projetar uma casa de praia vai muito além de escolher móveis de palha e deixar a areia entrar pela soleira. Quando o terreno é alagadiço, o lençol freático está raso e a umidade impõe suas próprias regras desde a fundação, as decisões de projeto precisam vir antes de qualquer escolha decorativa.
Foi exatamente esse o ponto de partida do escritório Célia Orlandi Arquitetura & Design ao desenhar esta residência no litoral baiano, em uma região marcada por intensa incidência de sol, chuvas generosas e um microclima que dita o ritmo de cada detalhe construtivo. O resultado é uma casa de praia que, ao invés de lutar contra as condições locais, as incorpora como matéria-prima de projeto.
A resposta veio das casas de pescadores
A inspiração não veio de referências internacionais de design costeiro nem de catálogos de arquitetura contemporânea. Veio da observação direta das casas simples de pescadores da região, construções que acumulam décadas de saber empírico sobre como viver bem sob aquele sol e aquela brisa. São construções que entendem o fluxo do ar como aliado, não como problema a ser vedado.
“Uma casa que respira, acompanhando o fluxo da atmosfera local”, define o próprio escritório ao descrever o conceito central do projeto. Essa frase não é poética por acidente. Ela é, na prática, uma decisão técnica: criar um sistema de ventilação natural integrado à estrutura, à cobertura e aos fechamentos, de modo que a temperatura interna se autorregule sem depender de climatização artificial.
Essa abordagem tem nome no vocabulário da arquitetura bioclimática: ventilação cruzada combinada a efeito chaminé, onde o ar quente sobe e escapa por aberturas superiores enquanto o ar fresco entra pelos vãos laterais. O projeto o executa com elegância construtiva.
O telhado em quatro águas como elemento central
A cobertura em telhado de quatro águas é uma das escolhas mais significativas do projeto, e não apenas por razões estéticas. A estrutura recebeu uma abertura central e outras laterais estrategicamente posicionadas para criar um fluxo de ar constante no interior da casa. O movimento do telhado gera diferentes alturas de pé-direito ao longo dos ambientes, produzindo uma variação espacial que sensibiliza quem caminha pelos cômodos, mesmo sem perceber conscientemente o porquê.
Esse recurso é particularmente eficaz em climas úmidos: ao permitir que o ar quente acumulado nas zonas mais altas encontre saída, o projeto evita o desconforto térmico que costuma tornar muitas casas de praia sufocantes nos meses mais quentes. A telha plana de concreto cobre a estrutura, escolha que favorece a durabilidade em ambientes com alta exposição à umidade e à maresia.
Estacas de eucalipto nos vãos: ventilação como linguagem visual
Os vãos abertos da fachada e dos ambientes internos foram solucionados com estacas finas de eucalipto posicionadas com espaçamento calculado. A decisão resolve dois problemas ao mesmo tempo: garante a ventilação permanente sem abrir mão de uma delimitação visual entre os espaços, e cria uma textura natural que dialoga diretamente com a vegetação e a paisagem do entorno.
O grande erro em projetos litorâneos é tentar selar os ambientes com esquadrias pesadas para controlar o clima. Aqui, a lógica é inversa: os fechamentos são permeáveis por definição, e a ventilação é parte estrutural do conforto oferecido pela casa. O resultado é um espaço onde o interior e o exterior se convertem quase em coisa única, como descreve o próprio escritório responsável pelo projeto.
Madeira à vontade: do estrutural ao decorativo
A madeira aparece em todo o projeto sem moderação. Nos pilares, nas vigas, nos decks externos, nos fechamentos e nas aberturas, o material é usado tanto em funções estruturais quanto como acabamento de superfície. Essa repetição não é excesso, é coerência. Em um projeto de arquitetura litorânea que busca vocabulário vernacular, a madeira funciona como fio condutor entre a construção e o território.
Aliás, essa é uma das lições mais importantes que projetos como este ensinam: a madeira em ambientes de praia exige tratamento adequado contra umidade, maresia e insetos, mas, quando bem especificada, entrega uma durabilidade que justifica plenamente o investimento. Eucalipto tratado, cumaru e ipê são escolhas recorrentes no litoral por exatamente esse motivo.
Cimento queimado e ladrilho hidráulico
Os revestimentos internos da casa seguem a mesma lógica de sobriedade e identidade regional. O cimento queimado cobre a maior parte das superfícies, conferindo aquele tom mineral e contínuo que favorece a limpeza, resiste à umidade e entrega uma estética contemporânea sem disputar atenção com os elementos naturais ao redor. Não há juntas aparentes, não há grout para acumular mofo, não há manutenção complicada. Para uma casa de praia, é uma escolha tecnicamente coerente.
Os detalhes sutis de ladrilho hidráulico surgem como pontuações visuais, sem dominar o espaço. Essa combinação entre cimento queimado e ladrilho é uma das mais usadas em projetos de design de interiores litorâneo no Brasil, especialmente no Nordeste, por reunir referência cultural e praticidade em igual medida.
- Veja também: Apartamento de 53 m² no Leblon une design autoral brasileiro, azul e memória afetiva em projeto integrado
Implantação em terreno alagadiço: o que o projeto resolve antes das fotos
Antes de qualquer decisão estética, o projeto enfrentou uma condição técnica que define tudo em regiões como a Costa do Cacau: o lençol freático alto. Terrenos alagadiços exigem soluções de implantação que elevem a edificação do solo, garantam drenagem eficiente e evitem que a umidade ascendente comprometa estrutura e revestimentos ao longo do tempo.
A escolha por pilares de madeira como suporte estrutural resolve parcialmente essa questão, já que elevam a construção e permitem circulação de ar sob o piso. Essa estratégia é visível em casas tradicionais de palafita ao longo do litoral brasileiro e tem fundamento técnico sólido: afastar o assoalho do contato direto com o solo úmido prolonga a vida útil da estrutura e melhora o desempenho térmico do ambiente.
