Um terreno de 943 m² em condomínio fechado, com desnível considerável, costuma ser tratado como obstáculo. Nesta casa de praia em Búzios, ele virou o ponto de partida do projeto. A arquiteta Simone Jazbik aproveitou justamente essa diferença de nível para organizar os 348 m² construídos sem recorrer a grandes movimentações de terra, o que já diz muito sobre a lógica por trás da obra: nada aqui foi resolvido por força bruta.
A residência é a quarta assinada pelo escritório para a mesma família, um casal de advogados com duas filhas que, de início, imaginava a casa apenas para fins de semana e temporadas de locação. Com o tempo, a rotina mudou. Hoje os moradores dividem os dias entre Búzios e o Rio de Janeiro, e a casa deixou de ser um destino esporádico para se tornar extensão do cotidiano. Esse tipo de mudança de uso é mais comum do que parece em projetos de litoral, e normalmente é aí que residências mal planejadas mostram suas fragilidades. Aqui não foi o caso, porque a arquitetura já previa flexibilidade desde o desenho original.
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Estrutura metálica e implantação: decisões que aceleram a obra
No térreo, estar, jantar, home, cozinha, churrasqueira e varanda foram integrados em um único fluxo, favorecendo luz natural e convivência. É uma escolha de projeto residencial que só funciona bem quando o desenho da planta baixa realmente elimina barreiras visuais, e não apenas remove paredes por remover.

No pavimento superior ficam as três suítes, incluindo a do casal, além de escritório e copa de apoio, uma distribuição que separa com clareza os momentos de uso coletivo dos momentos de privacidade.
A opção pela estrutura metálica também merece destaque técnico. Em terrenos com desnível como este, ela reduz o tempo de execução da obra e facilita a implantação em níveis diferentes sem exigir fundações excessivamente complexas.

No nível principal, a arquiteta posicionou piscina e jardins. Já na parte mais baixa do lote, um lago artificial com deck realizou um desejo antigo dos moradores, algo que só foi viável porque o projeto trabalhou a favor da topografia, e não contra ela.
Referências à arquitetura tradicional de Búzios
O grande acerto deste projeto está no equilíbrio entre memória local e atualização estética. As telhas cerâmicas coloniais, os pergolados de biriba, os tijolos aparentes e o emboço arenoso remetem diretamente às casas tradicionais da região, aquele tipo de construção que dialoga com o clima e a luz de Búzios há décadas. Ao mesmo tempo, as esquadrias azuis quebram qualquer risco de nostalgia excessiva e trazem um traço contemporâneo que evita o efeito réplica.

Esse é um cuidado que muita decoração de casa de praia ignora: repetir elementos regionais sem atualizar nenhum deles resulta em projetos que parecem datados assim que saem do papel. Aqui, o vocabulário tradicional aparece, mas comparece de forma comedida, distribuído em pontos estratégicos da fachada e do paisagismo.
Base neutra por dentro, personalidade nos detalhes
No interior, o porcelanato cinza com aparência de cimento queimado e os painéis de freijó formam uma base neutra que sustenta o restante da decoração sem competir com ela. É uma estratégia inteligente para casas de praia, onde a luz natural muda de intensidade o dia inteiro e superfícies muito carregadas tendem a cansar rápido.

Nos dormitórios, o mobiliário foi totalmente renovado, enquanto as áreas sociais incorporaram peças que vieram do antigo apartamento da família no Rio de Janeiro, substituído por um imóvel menor quando os moradores decidiram dividir a rotina entre as duas cidades. Entre as peças de design autoral brasileiro, aparecem a poltrona Mole e o banco Mucki, de Sergio Rodrigues, além da mesa de jantar Dinn e da mesa de centro Bank, assinadas por Jader Almeida. Misturar mobiliário histórico com peças mais recentes, em vez de trocar tudo, é o tipo de decisão que dá densidade emocional ao projeto e evita aquele ar de casa recém mobiliada que nunca foi realmente habitada.
Paisagismo e execução como parte do resultado final
O paisagismo, assinado por Heloisa Dantas, teve papel direto na relação entre piscina, jardins e o lago artificial na cota mais baixa do terreno, reforçando a integração entre os diferentes níveis da implantação. Já a execução da obra ficou a cargo de José Alvariz, responsável por viabilizar tecnicamente as soluções desenhadas por Simone Jazbik, incluindo o aproveitamento do desnível e a montagem da estrutura metálica.

O resultado é uma casa que não depende de metragem para impressionar. O que sustenta o projeto é a leitura correta do terreno, a escolha de materiais coerentes com o clima de Búzios e a decisão de manter viva a história da família através dos móveis que atravessaram duas casas diferentes.
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