A taipa aparece onde o mercado imobiliário costuma colocar porcelanato importado. No extremo sul da Bahia, a Casa Manaíba inverte a lógica que associa casa de praia de alto padrão a volumes brancos, vidro generoso e acabamentos industrializados. Aqui, quem dá o tom é a materialidade artesanal, onde a madeira maciça, bambu, palha, pedra bruta e fibras naturais são trabalhadas por mãos locais.
O projeto é assinado pelo escritório HOMEREGI Arquitetura e Interiores, sob responsabilidade da arquiteta Regi Marinho, e organiza a casa em torno de um princípio simples de enunciar e difícil de executar bem: a construção deve se comportar como extensão da paisagem, não como um objeto pousado sobre ela. A seguir, entenda como essa escolha se traduz em volumetria, revestimentos e no percurso que liga a casa ao oceano.
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Uma volumetria contida que abre espaço para a materialidade
A Casa Manaíba parte de volumes puros e tons claros, quase neutros, o que costuma indicar um projeto genérico à primeira vista. O efeito aqui é o oposto. Essa base enxuta funciona como moldura para que a seleção de materiais assuma o protagonismo visual, e é justamente aí que a casa ganha identidade.

Madeira em diferentes tratamentos, bambu trançado, palha, pedra natural e paredes de taipa compõem uma paleta tátil que ancora a construção no território onde ela está inserida.
Cada um desses materiais carrega uma textura própria, e a combinação entre eles evita o risco comum em projetos com muitos elementos naturais, como a sensação de excesso ou de decoração rústica aplicada sem critério.

A taipa, em especial, exige mão de obra especializada e um entendimento preciso de umidade e ventilação para manter desempenho ao longo dos anos, o que reforça o caráter artesanal do projeto.
Design de interiores como continuidade da identidade cultural
No interior, a mesma lógica se repete em outra escala. Tramas de bambu estruturam luminárias e painéis, enquanto peças de arte nacional ocupam lugares estratégicos na composição, carregando memória afetiva e cultural para dentro dos ambientes sociais.

O design de interiores da Casa Manaíba não busca contraste com a arquitetura, e sim aprofundar o mesmo discurso, onde valorizar o que é produzido localmente e dar a esses objetos o protagonismo que normalmente cabe a peças importadas ou assinadas por grandes marcas internacionais.
Essa escolha também altera a forma como o morador se relaciona com a casa no dia a dia. Luminárias artesanais exigem manutenção e cuidado diferentes de peças industrializadas, e essa é uma das trocas conscientes de um projeto que prioriza identidade sobre praticidade padronizada.
A passarela que transforma deslocamento em experiência

Entre a casa e a praia, uma passarela atravessa a vegetação nativa e conduz o morador até o mar. O gesto parece simples, mas reorganiza a experiência de uso do terreno: em vez de um acesso direto e funcional, a Casa Manaíba propõe um percurso que atravessa a mata antes de chegar à areia, transformando o deslocamento cotidiano em uma sequência sensorial.
Esse tipo de solução é cada vez mais recorrente em projetos de paisagismo litorâneo que buscam preservar a vegetação nativa em vez de removê-la para abrir vista.

A passarela elevada protege as raízes e o solo da erosão provocada pelo pisoteio constante, além de manter intacta a barreira natural que a vegetação de restinga oferece contra vento e salinidade.
Luz natural como material de construção
Nos ambientes sociais, a casa se abre generosamente para o jardim e para o oceano, e a luz natural assume papel equivalente ao da madeira ou da pedra na composição dos espaços. Ela permeia os cômodos ao longo do dia, evidencia a textura rústica das paredes de taipa e cria cenários que mudam de hora em hora, algo que um acabamento liso e uniforme jamais produziria.

Aberturas zenitais e jardins internos pontuais reforçam essa presença da luz e do verde no cotidiano da casa, consolidando uma atmosfera que os próprios autores do projeto descrevem como despretensiosa. Essa escolha de iluminação também tem consequência prática: paredes de taipa expostas à luz rasante ganham relevo e profundidade visual que desaparecem sob iluminação artificial zenital uniforme, o tipo de detalhe que separa um projeto pensado para a luz do sul da Bahia de um projeto replicado sem considerar a orientação solar do terreno.
A Casa Manaíba mostra que uma casa de praia de alto padrão não precisa recorrer ao repertório de vidro e concreto para comunicar sofisticação. Taipa, bambu, palha e pedra, combinados com precisão técnica e respeito ao entorno, produzem uma arquitetura que conversa com o lugar em vez de ignorá-lo.
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