Uma piscina de 50 m² raramente ocupa o centro exato de uma planta doméstica. Na Casa Berimbau, ela ocupa. E não como elemento decorativo posicionado depois que a casa já estava resolvida, mas como o eixo que organizou todo o desenho antes mesmo da primeira parede ser lançada no papel.
A residência fica no Condomínio Outeiro das Brisas, entre Trancoso e Caraíva, na Bahia, num terreno de 5 mil m². O projeto é assinado pelo escritório W.A.M.V. Arquitetura, dos arquitetos João Marcelo Barbosa e Matheos Schnyder, que receberam da cliente um programa claro: menos de 199 m² de área interna, três suítes (sendo uma master) e uma casa pensada para receber gente. Muita gente, com frequência, em clima de celebração.
Acompanhe as novidades no Google
Uma piscina que organiza a casa inteira
A planta em U resolve esse programa sem recorrer a corredores ou setores isolados. Os três braços da construção envolvem a piscina como se ela fosse mais um cômodo, e não uma área externa apartada. O efeito é intencional: ao caminhar pela sala, a água aparece simultaneamente dentro e fora do campo de visão, borrando a linha que normalmente separa ambiente social de área molhada.

Esse tipo de solução exige precisão no posicionamento das aberturas, porque um erro de alguns centímetros no recuo da piscina em relação à sala compromete o efeito de continuidade. Aqui, o resultado funciona porque a piscina central não foi tratada como paisagismo complementar, mas como peça estrutural do partido arquitetônico, a decisão que veio antes de qualquer outra.
Na entrada, duas grandes portas de correr em madeira peroba se recolhem por completo dentro das paredes. Não ficam encostadas, não ocupam vão nenhum: desaparecem. Essa é a diferença entre uma integração de verdade e uma integração de fachada.

Quando a porta some dentro da alvenaria, a sala, o lavabo e a cozinha técnica passam a funcionar como um único espaço contínuo, sem o ressalto visual que uma porta de correr convencional sempre deixa.
Materiais que respondem ao clima baiano
O revestimento externo é feito em reboco baiano carregado, espesso, rugoso, com tonalidade que varia porque a mistura é feita in loco. É um material que exige mão de obra experiente e a textura final depende diretamente da técnica de aplicação, não de um produto industrializado padronizado. O ganho está no acabamento: paredes que absorvem luz de forma irregular, sem o aspecto liso e repetitivo de rebocos convencionais.

A pedra moledo e o concreto aparente completam a paleta de superfícies, e o piso de toda a casa recebe ladrilhões de barro queimado, produzidos em olaria artesanal.
É uma escolha que privilegia durabilidade e conforto térmico em detrimento de uniformidade — cada peça carrega pequenas variações de cor e textura, o que é esperado e desejável nesse tipo de material.

No teto, o forro de reguado em cedrinho traz aconchego a um ambiente que, de outra forma, correria o risco de parecer excessivamente mineral. Já no pergolado, as esteiras de palha de dendê filtram a luz baixa do fim de tarde, funcionando como brise natural sem depender de estruturas metálicas ou vidros especiais.
Três suítes, um só gesto
Planejar três suítes, incluindo uma master, dentro de 199 m² sem comprometer a sensação de amplitude é um dos pontos mais delicados do projeto. A solução foi distribuir os dormitórios nos braços da planta em U, garantindo privacidade em relação à área social sem exigir circulações longas ou corredores de conexão.

O erro comum nesse tipo de programa é multiplicar acessos e criar uma sequência de portas que fragmenta a experiência de quem visita a casa. A Casa Berimbau evita essa armadilha ao manter a piscina como referência visual constante: de qualquer ponto da residência, a água continua no campo de visão, o que reforça a sensação de unidade mesmo com os quartos fisicamente distribuídos em alas separadas.
O conjunto de materiais, como o reboco espesso, madeira peroba, barro queimado e palha de dendê, funciona porque nenhum deles foi escolhido isoladamente. Cada superfície responde ao clima de Trancoso e Caraíva, à luz forte do litoral sul baiano e à vontade da cliente de ter uma casa que funcione como ponto de encontro. É esse alinhamento entre programa, clima e material que sustenta o projeto como um exemplo de arquitetura tropical bem resolvida, sem depender de gestos formais chamativos para se justificar.
| Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso X (Twitter), Instagram e Facebook,
inscreva-se no nosso canal no Pinterest,
no Google e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores. E-mail: [email protected] |





