Pilares piramidais de concreto impresso em 3D, interiores ocos para passagem de tubulação e cobogó feito a partir da reciclagem de garrafas PET. Essa não é a descrição de um experimento em laboratório, mas sim de uma casa habitável, erguida no estacionamento ao lado do Pavilhão das Culturas Brasileiras, o Pacubra, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O projeto é assinatura do escritório Superlimão e integra a programação da primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, aberta ao público até o dia 30 de abril.
A construção chama atenção antes mesmo de se entrar nela. Os pilares têm forma piramidal e foram inspirados na estrutura do caule das folhas de bananeira, referência botânica que não é apenas estética. “Esse trabalho faz com que seja uma forma muito rígida, forte e com pouco material”, explica o arquiteto Lula Gouveia, do Superlimão, ao descrever a lógica estrutural da cobertura, armada a partir de vigas apoiadas umas às outras em cadeia. O resultado é um sistema de grande eficiência construtiva, onde a resistência nasce da geometria, não do acúmulo de material.
Tecnologia e reaproveitamento lado a lado
O que diferencia a casa do Superlimão de outros experimentos com impressão 3D em concreto é a combinação intencional entre o que há de mais recente na construção e o que há de mais antigo na arquitetura popular brasileira. O arquiteto chama esse cruzamento de técnicas vernaculares com tecnologias recentes, e o resultado aparece em cada detalhe do projeto.

O cobogó maleável, por exemplo, é um dos elementos mais chamados a atenção nas laterais da edificação. O material foi desenvolvido a partir da reciclagem de garrafas PET e cumpre uma função dupla: filtra a luz natural e garante ventilação cruzada. “Ele é muito leve e muito resistente”, afirma Gouveia, descrevendo uma solução que ressignifica o resíduo plástico sem abrir mão do desempenho técnico.
A vegetação também é tratada como componente construtivo, não como ornamento. Canteiros foram distribuídos tanto nas áreas internas quanto externas da casa, com uma função climática bem definida. “Traz uma brisa fresca, umidificando aqui dentro, ajudando a manter a temperatura”, completa o arquiteto. Essa integração entre paisagismo e conforto térmico é, aliás, uma das marcas mais fortes da proposta, que rejeita o ar-condicionado como solução principal e aposta na arquitetura bioclimática para regular o ambiente.
Os biomas brasileiros como ponto de partida para os pavilhões
A casa do Superlimão divide o espaço da Bienal com outros projetos igualmente provocadores, todos com uma premissa em comum: traduzir a identidade regional brasileira em linguagem contemporânea de design de interiores e arquitetura.
O Pavilhão Maranhão, assinado pelos arquitetos Guilherme Abreu e Larissa Catossi, traz como peça central uma escultura suspensa sobre a sala de estar, inspirada nas matracas, instrumentos musicais tradicionais feitos de madeira. “Quisemos trazer essa materialidade e ancestralidade do Maranhão em contraste com elementos mais contemporâneos”, disse Larissa, resumindo a tensão criativa que guiou o projeto.
Já a Casa Adélia Prado, que representa Minas Gerais, tem projeto de Marina Reis e é marcada pelo uso de pedra sabão nas peças principais e texturas aplicadas nas paredes do quarto e nos revestimentos do banheiro, com referências às fazendas mineiras traduzidas para um modo de vida mais atual. O Pavilhão Pará, de responsabilidade da arquiteta Tuane Costa, do Studio Tuca, parte de um ponto de partida inusitado para definir seu layout: o mapa hidrográfico do estado. O curso dos rios amazônicos orientou a planta da casa, numa forma de abraçar a complexidade e diversidade do território paraense.
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A Bienal como laboratório do habitar
O que a primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira apresenta, ao reunir projetos tão distintos em um único espaço, é menos uma vitrine de tendências e mais um laboratório de perguntas. Como construir com menos? Como a identidade de um bioma pode informar os materiais e a forma de uma casa? De que maneira a arquitetura sustentável dialoga com o conforto real de quem mora?
A casa do Superlimão, com seus pilares de concreto 3D inspirados na natureza e seu cobogó de PET reciclado, não responde a todas essas perguntas, mas coloca o debate no centro do espaço expositivo, literalmente ao ar livre, acessível a qualquer visitante do Ibirapuera.
A Bienal de Arquitetura Brasileira segue aberta até 30 de abril, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, na Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n, Vila Mariana. O horário de visitação é das 12h às 21h, todos os dias. Os ingressos custam R$ 100 (inteira) nos fins de semana e R$ 80 durante a semana.






