A escolha de Brasília como sede não é só geográfica. A cidade funciona como amostra viva de quase tudo que a arquitetura latino-americana discute hoje: planejamento em larga escala, relação com a topografia, espaços verdes que nasceram desenhados e não espontâneos.
É esse arranjo que a XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo (BIAU) usa como pano de fundo entre os dias 3 e 6 de novembro, com entrada gratuita em todos os espaços.
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A programação ocupa pontos bem distintos da capital — o SESI Lab, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, a Universidade de Brasília, o Cine Brasília, a Galeria Index e a Embaixada de Portugal — e reúne debates, exposições, lançamentos de livros, sessões de cinema e visitas guiadas. O lema da edição, “Cuidar da Vida”, orienta as quatro frentes de discussão: água, vegetação, habitação e comunidades.
Abertura marca o tom da Bienal
A cerimônia de abertura acontece na terça-feira (3/11), às 15h, no SESI Lab. Nela, recebe o Prêmio Trajetória a arquiteta brasileira Ermínia Maricato, ao lado do português Gonçalo Byrne e do peruano Frederick Cooper Llosa — um reconhecimento que já define o tom internacional do evento.
Às 16h30, abre a exposição oficial da XIV BIAU, e às 18h30 a Galeria Index, no Setor Comercial Sul, recebe as mostras dedicadas a Lúcio Costa e Zanine Caldas. Um dos curadores da exposição oficial, Matheus Seco, explica por que a escolha da cidade pesa tanto na proposta curatorial.
“Acreditamos que Brasília é um palco muito especial para a realização dos debates e das demais atividades, pois é uma cidade que foi planejada com todas as potencialidades e contradições de várias outras cidades brasileiras. Podemos aprender muito com Brasília, com a implantação da cidade na topografia, a relação dela com a natureza, com as potencialidades que ela tem”, afirma.
Debates cruzam arquitetura e questões sociais
Na quarta-feira (4/11), a programação se divide entre o SESI Lab e a UnB. No primeiro, às 14h30, o debate trata da relação entre água e transformação dos territórios; às 16h30, o foco passa para habitação e seus desafios contemporâneos.
Na universidade, as mesas abordam vegetação, com a relação entre natureza, paisagem e território, e comunidades, com práticas coletivas de diferentes países ibero-americanos.
À noite, a Embaixada de Portugal recebe conferência do arquiteto Gonçalo Byrne, seguida da exposição “Portugal em Arquitetura” e de um Porto de Honra. Entre os nomes confirmados para o conjunto de atividades estão Angelo Bucci, Fernando Pérez Oyarzún, David Barragán, Marta Maccaglia, Inês Lobo, Solano Benítez, Loreta Castro, Marcelo Rosenbaum e representantes do escritório equatoriano Al Borde — um time que cruza gerações e escolas de pensamento distintas dentro da arquitetura latino-americana.
Mostra Cinema Urbana projeta a cidade na tela
Na quinta-feira (5/11), o Cine Brasília recebe a Mostra Cinema Urbana, com curadoria da arquiteta, urbanista e pesquisadora Liz Sandoval. A primeira sessão, às 15h30, reúne dois olhares sobre a capital: “Brasília, segundo roteiro de Alberto Cavalcanti”, de Antonio Carlos da Fontoura, que propõe um ensaio visual sobre a arquitetura brasileira anterior e posterior ao projeto de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer; e “Crônicas de uma Cidade Inventada”, vencedor de Melhor Filme pelo Júri Popular no 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Na sequência, às 16h30, um debate reúne o arquiteto paraguaio Solano Benítez, André Corrêa do Lago, Hervé Chandès e Alejandro Aravena. Às 18h30, é a vez do documentário “Hacer Mucho con Poco”, que acompanha arquitetos latino-americanos voltados às necessidades sociais de suas comunidades. A noite termina com festa aberta ao público no SESI Lab, a partir das 19h30, com discotecagem do DJ Chicco Aquino.
Encerramento reúne premiação e orquestra
O fechamento acontece na sexta-feira (6/11), no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Pela manhã, a equipe de curadoria apresenta um panorama da Bienal, seguido de conferências com Inês Lobo e Solano Benítez. À tarde, falam Loreta Castro, representantes do Al Borde e Marcelo Rosenbaum.
Às 16h, é entregue o Prêmio para Obras e Publicações da XIV BIAU, reconhecimento que premia contribuições para a arquitetura, o urbanismo e a produção editorial ibero-americana. O encerramento oficial, às 16h45, conta com apresentação da Orquestra Sinfônica de Brasília.
Rotas guiadas revelam o traçado urbano de Brasília
Para quem quer ver de perto o que sustenta os debates, a Bienal organiza três rotas de arquitetura, todas com saída do Edifício Morro Vermelho, no Setor Comercial Sul. A prioridade é dos inscritos pelo link geral do evento.
Na terça-feira, das 9h às 12h, a rota passa pelo Eixo Monumental e pela arquitetura cívica: Praça dos Cristais, Quartel-General do Exército, Catedral Metropolitana, Museu Nacional da República, Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Itamaraty. Algumas visitas são só externas; a Catedral e o Museu Nacional permitem acesso interno.
Na quarta-feira, o percurso a pé explora a Unidade de Vizinhança Modelo, na Asa Sul — um conceito urbanístico que organiza moradia, escola e lazer em escala de bairro, com paradas no Cine Brasília, nas quadras 107 e 308 Sul, na Igrejinha, na Escola Parque e na Escola Classe. Já na quinta-feira, a rota percorre o campus Darcy Ribeiro da UnB, com passagem pelo Memorial Darcy Ribeiro, pela Reitoria, pelo Instituto Central de Ciências (ICC) e pelo Instituto de Artes.
Essas visitas guiadas funcionam como complemento prático aos debates teóricos: ver de perto como a arquitetura cívica de Brasília dialoga com seu entorno natural ajuda a entender, na prática, os próprios eixos temáticos — água, vegetação, habitação — que a Bienal propõe discutir nas mesas.
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