O Brasil tem um patrimônio técnico de arquitetura moderna que poucos países conseguem rivalizar. Brises metálicos independentes da fachada, cobogós para ventilação cruzada, lajes nervuradas, concreto pré-moldado com precisão estrutural, plantas livres que anteciparam décadas de debate sobre flexibilidade espacial. Boa parte dessas soluções, contudo, ficou dispersa em acervos privados, teses acadêmicas ou simplesmente deixou de circular entre as novas gerações de profissionais.
É exatamente essa lacuna que o Banco de Soluções Projetuais busca preencher. Lançado pelo Instituto Arthur Casas de Arquitetura e Inovação (IACAI), a plataforma é gratuita e reúne projetos, sistemas construtivos e estratégias arquitetônicas organizados como ferramentas de consulta direta para estudantes, arquitetos e engenheiros.
“É uma plataforma para quem quiser consultar, pesquisar, construir repertório e contribuir para a industrialização da construção civil no Brasil, um passo necessário para o setor”, afirma o arquiteto Arthur Casas, fundador do instituto.
Um acervo que conecta diferentes gerações da arquitetura brasileira
O repertório disponível na plataforma é bastante representativo da arquitetura moderna brasileira, cobrindo desde o pioneirismo modernista dos anos 1930 e 1940 até as experiências mais consolidadas da Escola Paulista. Entre as obras catalogadas estão o Conjunto Residencial da USP (CRUSP), o Edifício Prudência e Capitalização de Rino Levi, o Edifício Seguradoras dos Irmãos Roberto, o Edifício Caixa d’Água de Luiz Nunes, o Edifício Fiandeiras de Abrahão Sanovicz e a Casa Gerassi de Paulo Mendes da Rocha, entre outros.
Cada projeto não entra no banco apenas como referência histórica. A proposta é diferente: as obras são desmembradas em suas soluções técnicas específicas, tornando possível pesquisar por concreto pré-moldado, conforto ambiental, laje nervurada, brises móveis, cobogós e venezianas de madeira, entre outros sistemas.
O Edifício Seguradoras, por exemplo, é reconhecido como uma das experiências mais sofisticadas de proteção solar da arquitetura moderna do país. Seus brises metálicos independentes da fachada, um recurso que hoje reaparece em projetos contemporâneos com roupagem atualizada, estão catalogados e acessíveis para consulta direta. Já o Edifício Caixa d’Água, de Luiz Nunes e Fernando Saturnino de Brito, é pioneiro no uso de cobogós para ventilação e sombreamento, solução que atravessou décadas e segue atual em projetos residenciais e comerciais pelo Brasil.
Técnica e história no mesmo lugar
O grande mérito da ferramenta está em articular tempos distintos sem tratar o passado como museu. A plataforma questiona ativamente por que certas soluções deixaram de ser utilizadas e se ainda fazem sentido para os desafios construtivos de hoje. Essa postura investigativa é o que diferencia o banco de um simples repositório de imagens.
“Ao articular diferentes tempos, contextos e abordagens em uma mesma base, o banco amplia o repertório técnico e crítico de arquitetos, engenheiros e estudantes, aproximando teoria e prática e incentivando a adoção de soluções mais eficientes, sustentáveis e viáveis”, destaca o IACAI em sua apresentação.
Além dos projetos executados, o acervo reúne croquis, esboços e estudos preliminares que ajudam a compreender os processos de criação em arquitetura — material raro de encontrar organizado e acessível de forma gratuita. Para estudantes de arquitetura e urbanismo, esse tipo de documentação tem um valor técnico e pedagógico considerável, já que evidencia como grandes arquitetos desenvolviam suas ideias antes de chegar à solução final.
Por que uma plataforma assim é relevante agora
A industrialização da construção civil segue como um dos principais gargalos do setor no Brasil. A falta de padronização, o desperdício de materiais e a baixa produtividade em obra são problemas discutidos há décadas e o que o Banco de Soluções Projetuais propõe é mostrar que o repertório técnico para enfrentar parte dessas questões já existe, desenvolvido e testado por gerações anteriores de arquitetos e engenheiros brasileiros.
O recorte feito pelo IACAI não é nostálgico. É estratégico. Sistemas construtivos como a estrutura independente, o pré-moldado e as estratégias passivas de conforto ambiental, tão presentes nos projetos catalogados, respondem a demandas que seguem pertinentes: eficiência energética, adaptabilidade dos espaços e racionalização do processo construtivo.
Para profissionais em atividade, a ferramenta funciona como um atalho de repertório. Para estudantes, como um ponto de partida mais sólido do que uma busca genérica na internet. E para o campo da arquitetura e urbanismo como um todo, representa um esforço concreto de preservação do conhecimento técnico nacional, tornando-o circulável e aplicável.
A plataforma está disponível gratuitamente para acesso pelo site do Instituto Arthur Casas de Arquitetura e Inovação.
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