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Bancadas de Quartzo são investigadas por silicose em trabalhadores — e o debate chegou ao Congresso americano

O material preferido nas cozinhas contemporâneas libera poeira de sílica durante o corte e tem sido associado a silicose — doença pulmonar sem cura. O The New York Times revelou os bastidores de uma disputa que já chegou ao Congresso americano.

Escrito por: Cláudio Filla
30 de março de 2026
em Noticias e lançamentos
Bancadas de Quartzo são investigadas por silicose em trabalhadores — e o debate chegou ao Congresso americano

O quartzo engineered, uma pedra artificial que dominou o mercado de bancadas de cozinha na última década, concorrendo com o mármore e o granito pela preferência de arquitetos e consumidores, está no centro de um debate que mistura saúde ocupacional, responsabilidade industrial e disputa judicial. Uma reportagem do jornal The New York Times trouxe à tona algo que médicos, trabalhadores e advogados americanos já vinham discutindo nos bastidores: a poeira gerada no corte dessas placas pode ser perigosa o suficiente para matar.

As bancadas de quartzo são compostas por fragmentos minerais aglutinados com resinas e pigmentos, o que resulta em superfícies com altíssimo teor de sílica cristalina, um mineral presente em areia, granito e pedra-sabão, mas concentrado de forma muito mais intensa na versão industrializada. É exatamente essa concentração que torna a poeira gerada durante o processamento potencialmente mais agressiva do que a de rochas naturais.

O que acontece com o pulmão de quem corta quartzo

Antes de chegar ao showroom ou à obra, uma placa de quartzo precisa passar por oficinas especializadas. É lá que serras, lixadeiras e rebolos moldam o material para criar recortes para pias, cantos arredondados e acabamentos personalizados. Durante esse processo, partículas microscópicas de sílica são lançadas no ar. Quando inaladas de forma repetida, elas se depositam nos pulmões e desencadeiam uma resposta inflamatória progressiva que cicatriza o tecido pulmonar, processo conhecido como silicose.

Infelizmente, a doença não tem cura e ela avança de forma silenciosa por anos, reduzindo gradualmente a capacidade respiratória até comprometer a funcionalidade do paciente. Em alguns casos mais graves, eles evoluem para transplante de pulmão ou morte.

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A pneumologista Jane C. Fazio, do Olive View-UCLA Medical Center, relatou ao The New York Times que começou a identificar um padrão inquietante entre os pacientes atendidos no pronto-socorro. “Todos deram a mesma resposta. Eles trabalham com bancadas”, disse ela ao jornal. Dados do departamento de saúde pública da Califórnia, citados na reportagem, registram 512 casos de silicose ligados à pedra artificial e 29 mortes desde 2019 apenas no estado.

Trabalhadores que pagaram o preço com a saúde

Jeff Rose, de 55 anos, passou anos esculpindo bancadas de quartzo em Georgetown, no Kentucky. Era um trabalho manual que exigia precisão e criatividade — qualidades que ele valorizava. Hoje, convive com a silicose. “Adoro ser criativo com as minhas mãos. Não consigo mais fazer isso”, disse ao The New York Times. O filho, Skyler, de 30 anos, que seguiu a mesma profissão, também foi diagnosticado com a doença.

Wade Hanicker, de 39 anos, começou a cortar pedra artificial na Flórida há cerca de quinze anos. Trabalhou em oficinas pequenas, de perfil familiar, onde a poeira tomava o ambiente com frequência. “Muitas vezes cortávamos a seco”, relatou ao jornal, referindo-se ao processo sem água — método que potencializa a dispersão das partículas no ar. Hoje, a silicose reduziu sua capacidade física e trouxe outras complicações.

Esses não são casos isolados. Segundo levantamento citado pelo The New York Times, centenas de trabalhadores da indústria de pedra desenvolveram a doença nos Estados Unidos. E médicos ouvidos pelo jornal alertam que o número tende a crescer, já que a silicose pode levar anos para se manifestar clinicamente após a exposição.

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A disputa que chegou ao Congresso

Com o aumento dos diagnósticos, cresceram também os processos judiciais. Em 2024, um júri em Los Angeles determinou o pagamento de US$ 52,4 milhões a um ex-trabalhador que processou empresas do setor de pedra artificial. O caso não foi exceção — é parte de uma onda de ações que colocou fabricantes e distribuidores de quartzo na defensiva.

A indústria reageu buscando proteção legislativa. Um projeto em análise no Congresso americano propõe colocar o quartzo engineered na mesma categoria jurídica de produtos como vacinas e armas de fogo, que contam com proteção federal contra determinados tipos de processo por danos. Pela proposta, a responsabilidade pela segurança recairia sobre as oficinas que cortam as placas e sobre os órgãos reguladores do trabalho — não sobre os fabricantes.

Rebecca Shult, diretora jurídica da fabricante Cambria, sintetizou a posição da indústria em depoimento ao Congresso citado pelo jornal: “O problema está no processo, não no produto.”

O epidemiologista David Michaels, que chefiou a Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA (OSHA) entre 2009 e 2017, discorda da leitura. Em depoimento ao Congresso, ele afirmou que os padrões atuais de exposição à sílica cristalina podem estar desatualizados e que a indústria deveria considerar alternativas mais seguras, como materiais compostos por vidro reciclado, com menor concentração do mineral.

O que isso muda para o mercado de interiores

O debate tem chegado com mais força ao universo da arquitetura de interiores e do design de ambientes. O quartzo engineered se consolidou como material de referência para bancadas de cozinha justamente por reunir resistência, variedade de cores e facilidade de manutenção — atributos que o mármore e o granito naturais nem sempre garantem com o mesmo custo-benefício.

O grande erro aqui não está em usar o material. Está em ignorar que a cadeia produtiva por trás de uma bancada envolve trabalhadores expostos a riscos que, até pouco tempo atrás, eram pouco discutidos no Brasil e no mundo. Para o consumidor, isso significa começar a perguntar sobre procedência e condições de processamento. Para profissionais de arquitetura e design, significa considerar esse contexto na especificação de materiais.

Além disso, o debate abre espaço para alternativas de revestimento que já circulam no mercado brasileiro — como o porcelanato técnico, superfícies de vidro temperado, Dekton e Neolith, materiais que passam por processos de fabricação diferentes e têm composições distintas em relação ao teor de sílica.

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    Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor/Redator do Enfeite Decora
    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
    👉 Biografia completa do autor.

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E-mail: [email protected]
Via: G1, The New York Times
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