Arte contemporânea em edifício de luxo nos Jardins: artista do MoMA assina obra em prédio residencial em São Paulo

Com apenas 15 unidades e VGV de R$ 250 milhões, o empreendimento Clara integra uma instalação de Tomás Saraceno ao hall de pé-direito duplo — e rediscute o papel da arte dentro da arquitetura residencial

Arte contemporânea em edifício de luxo nos Jardins: artista do MoMA assina obra em prédio residencial em São Paulo

Integrar arte e arquitetura não é novidade na história da construção. Mas quando o nome escolhido para assinar uma obra em um edifício residencial está presente nos acervos do MoMA, em Nova York, e da Tate Modern, em Londres, o gesto deixa de ser apenas estético e passa a dizer algo mais profundo sobre o rumo do mercado imobiliário de alto padrão no Brasil.

É esse o movimento que o empreendimento Clara, nos Jardins, em São Paulo, representa. O argentino Tomás Saraceno, um dos artistas contemporâneos de maior reconhecimento internacional, assina pela primeira vez uma instalação em um prédio residencial no país. A obra será instalada no hall principal do edifício, projetado com pé-direito duplo justamente para amplificar o impacto visual e simbólico dessa integração.

O projeto é da incorporadora Liv Inc – Kopstein e está localizado na esquina da rua Consolação com a alameda Lorena, endereço que já carrega peso simbólico dentro da cidade. Com valor geral de vendas (VGV) de R$ 250 milhões, o Clara terá apenas 15 unidades, distribuídas em uma torre única de 18 pavimentos. As plantas variam entre 305 m² e 517 m², seguindo a lógica que define o segmento de ultra alto padrão: baixíssima densidade e alto nível de personalização.

O que Tomás Saraceno representa para a arquitetura

Saraceno não é um artista decorativo. Sua obra transita entre arte, ciência e sustentabilidade, com instalações que exploram estruturas geométricas, teias e relações entre ecossistemas. Suas peças costumam ocupar espaços institucionais, seja em museus, galerias ou bienais internacionais e desafiam a percepção do ambiente ao redor.

Trazer esse repertório para dentro de um espaço residencial privado exige que a arquitetura esteja à altura do diálogo. No Clara, a responsabilidade arquitetônica é de Thiago Bernardes, cujo escritório é reconhecido pela capacidade de equilibrar rigor construtivo com sensibilidade espacial. A instalação de Saraceno foi concebida para dialogar diretamente com essa arquitetura, e não para competir com ela. O hall de pé-direito duplo funciona como cenário intencional, uma decisão de projeto que antecipa a presença da obra e cria a escala necessária para que ela respire.

O grande erro em projetos que tentam unir arte e arquitetura é tratar a obra como objeto decorativo inserido no final da obra. Aqui, a lógica é inversa: a instalação nasce junto com o partido arquitetônico.

Arte como estratégia de posicionamento — e como cultura

A escolha de Saraceno não é aleatória. Segundo João Pedro Camargo, sócio da Liv Inc – Kopstein, a decisão está conectada a uma visão mais ampla sobre o que significa construir no segmento de luxo em 2025.

“A ideia é criar um projeto autoral que dialogue com a cidade e resgate a tradição modernista de integração entre arte e arquitetura”, afirma Camargo.

Essa tradição a que ele se refere tem raízes profundas na história da arquitetura brasileira. Nos anos 1950 e 1960, a integração entre artes plásticas e espaços construídos era quase um manifesto: azulejos de Portinari no Ministério da Educação, painéis de Volpi em edifícios residenciais, relevos de Alfredo Ceschiatti em Brasília. O Clara retoma esse princípio, mas o leva para o vocabulário do mercado imobiliário contemporâneo.

Essa postura também aparece no estande de vendas do empreendimento. Em parceria com a consultoria Azcune e a galeria Almeida & Dale, o espaço funciona como uma extensão cultural, com obras de Mira Schendel, León Ferrari, Luiz Sacilotto, Judith Lauand e Amilcar de Castro — nomes que formam um recorte preciso da história da arte construtivista e concreta no Brasil e na América Latina. Não é acaso. É curadoria com intenção.

Baixa densidade, alta identidade

O modelo de edifício com poucas unidades tem crescido no mercado de luxo paulistano por razões práticas e simbólicas ao mesmo tempo. Do ponto de vista prático, menos moradores significam mais silêncio, menos pressão sobre as áreas comuns e maior controle sobre a identidade do condomínio. Do ponto de vista simbólico, um edifício com 15 apartamentos carrega uma exclusividade que nenhum número de amenities consegue replicar.

No Clara, essa escala reduzida reforça a coerência do projeto. Uma instalação de Tomás Saraceno num hall coletivo de um prédio com 200 unidades geraria um ruído visual diferente. Num edifício de 15 famílias, ela se torna parte da identidade cotidiana de quem mora ali, um elemento que se transforma com a luz, com as estações e com o olhar de quem passa.

Aliás, esse é um ponto que raramente aparece nas discussões sobre arte em arquitetura residencial: a obra não precisa ser impactante o tempo todo. Ela precisa ter camadas. E as instalações de Saraceno, justamente por trabalharem com leveza, geometria e a relação entre cheio e vazio, funcionam bem nessa dinâmica de convivência prolongada.

Um novo padrão para o alto padrão

O mercado imobiliário de luxo em São Paulo tem buscado, nos últimos anos, formas de diferenciação que vão além do metro quadrado e da lista de acabamentos. Fachadas assinadas por arquitetos reconhecidos, programas de arte integrada e parcerias com galerias são movimentos que aparecem com mais frequência nos lançamentos de alto padrão da cidade, especialmente nos bairros Jardins, Higienópolis e Itaim Bibi.

O Clara, contudo, não trata a arte como um item a mais no memorial descritivo. Ela está no centro da proposta. Essa distinção importa, tanto para quem compra quanto para quem projeta.

A previsão de entrega é 2029, com obras em andamento e o empreendimento em fase de lançamento. O endereço, na Consolação com Lorena, já diz muito sobre a camada urbana em que esse projeto quer se inserir: um dos eixos mais densos em termos de história cultural, arquitetura moderna e vida pública de São Paulo.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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