Uma mesa de alumínio com mais de dez metros, posicionada como se flutuasse no centro de uma loja, não existe por acaso. Ela é resposta a um problema concreto do varejo de luxo: qualquer peça pode ser comprada em segundos, sem que o cliente saia de casa. Diante disso, grifes ao redor do mundo passaram a tratar o próprio edifício como argumento de venda, encomendando projetos a arquitetos premiados fora do universo da moda.
O resultado é um repertório valioso para quem estuda arquitetura comercial e design de interiores, muito além da vitrine. Volumes translúcidos, superfícies contínuas, ladrilhos artesanais e mobiliário escultórico aparecem lado a lado em endereços de Tóquio, Seul e Paris, cada um resolvendo à sua maneira a mesma questão: como fazer alguém atravessar a cidade só para entrar num espaço físico.
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A mesa que vira peça de arquitetura
No novo flagship da BAO BAO ISSEY MIYAKE, em Aoyama, o designer Tokujin Yoshioka concentrou toda a força do projeto em um único elemento: a já citada mesa de alumínio, que ocupa o centro do salão e dialoga com a geometria triangular das bolsas da marca. Aqui está uma lição de composição minimalista que vale para qualquer ambiente, residencial ou comercial: quando a peça central é forte o suficiente, o restante do espaço pode (e deve) recuar.

Notamos que esse tipo de escolha exige coragem estrutural. Uma mesa daquele comprimento, em alumínio aparente, precisa de cálculo estrutural preciso e de acabamento impecável, sem emendas visíveis que quebrem o efeito de continuidade. É o tipo de detalhe que separa um móvel bonito de uma instalação arquitetônica.
Biofilia, robótica e o edifício como parque temático
Em Seul, a Gentle Monster foi na direção oposta à sobriedade japonesa. A HAUS DOSAN ocupa cinco andares e mistura óculos, cosméticos e confeitaria num mesmo endereço, com direito a um robô de seis pernas exposto como peça de cenografia. O andar de cosméticos reúne instalações artísticas assinadas por criadores locais, enquanto o subsolo é dominado por uma mesa longa que expõe as criações da confeitaria da casa.

O que interessa aqui, para além do espetáculo, é a lógica de zoneamento vertical: cada piso tem identidade própria, mas o projeto mantém uma linguagem visual que costura o conjunto. É um raciocínio perfeitamente aplicável a sobrados ou apartamentos duplex, onde cada andar cumpre uma função distinta sem perder unidade estética.
Quando a loja vira casa
A Lemaire escolheu o caminho inverso ao monumental. No flagship parisiense da rua Élzevir, aberto em 2023, a própria equipe interna da marca projetou um espaço de 340 metros quadrados sem assinatura de escritório externo. Ladrilhos artesanais bejmat, tapetes de fibra de abacá e móveis de madeira dividem o ambiente com cerâmicas do estúdio catalão Apparatu.

O grande acerto está em recusar o óbvio da monumentalidade. Em vez de impressionar pelo volume, o projeto aposta em textura e em materiais que envelhecem bem, como pedra natural e madeira maciça. O resultado lembra mais uma casa habitada há anos do que uma boutique recém-inaugurada, e é justamente essa sensação de tempo acumulado que costuma faltar em projetos residenciais recém-entregues, ainda “engessados” pela decoração de mostruário.
Volumes translúcidos como pele arquitetônica
Já a Alaïa recorreu à dupla Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, do escritório japonês SANAA, vencedor do Pritzker em 2010, para seu terceiro endereço parisiense. O térreo é organizado em quatro volumes tubulares translúcidos, em tom rosado, inspirados na ideia de segunda pele que orienta as modelagens da grife.

Aliás, esse é um dos pontos mais replicáveis do texto inteiro. O uso de superfícies translúcidas como divisória, no lugar de paredes opacas, permite manter a privacidade sem interromper a passagem de luz natural. Funciona em banheiros, em closets e em ambientes de trabalho que precisam de alguma separação sem virar caixa fechada. O erro comum, nesses casos, é escolher um material translúcido barato demais, que amarela ou risca com facilidade e acaba comprometendo o efeito depois de poucos anos de uso.
O edifício próprio como estratégia de longo prazo
A Dior foi pioneira nesse movimento. A House of Dior em Cheongdam-dong, Seul, existe desde 2015 e foi projetada pelo francês Christian de Portzamparc, vencedor do Pritzker em 1994. O edifício de seis andares é revestido por painéis curvos de resina e fibra de vidro que remetem à modelagem de tecidos da alta-costura, com interiores assinados por Peter Marino.
Dez anos depois de inaugurado, o prédio continua funcionando como referência de fachada esculpida, prova de que um projeto bem resolvido em termos de material e proporção não perde relevância com o tempo. É diferente do que costuma acontecer com fachadas que seguem apenas a tendência do momento e envelhecem mal em poucas temporadas.
O que esses projetos ensinam fora do varejo de luxo?
Colocando os cinco casos lado a lado, fica claro que não existe uma fórmula única. Contudo, alguns princípios se repetem e podem ser adaptados para projetos bem menores, sejam eles residenciais ou comerciais:
- Escolher um elemento central forte e deixar o restante do espaço em segundo plano, em vez de distribuir protagonismo igualmente entre vários pontos.
- Investir em materiais que envelhecem bem, como pedra, madeira maciça e ladrilhos artesanais, no lugar de acabamentos que exigem substituição frequente.
- Usar translucidez com critério, priorizando materiais de qualidade que sustentem o efeito de leveza sem comprometer durabilidade.
- Pensar o edifício como parte da experiência, não como pano de fundo neutro para o que está exposto dentro dele.
O que essas grifes perceberam, cada uma à sua maneira, é que a arquitetura deixou de ser cenário e passou a ser o próprio produto oferecido ao visitante. Vale a pena observar esse raciocínio na hora de planejar qualquer projeto que precise atrair alguém fisicamente, seja uma loja de bairro, um showroom ou até a fachada de uma casa.
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