Apartamento de 85 m² em Curitiba ganha profundidade com branco, pedra e luz estudada

A arquiteta Diane Justus reorganiza planta, elimina dormitório e cria atmosfera sensorial para um casal em residência médica

Apartamento de 85 m² em Curitiba ganha profundidade com branco, pedra e luz estudada

Fotos: Bia Nauiack

Traduzir o conforto de uma casa de 800 m² para um apartamento de 85 m² não é só uma questão de metragem. É uma questão de decisões. Essa foi a premissa que guiou a arquiteta Diane Justus ao receber o briefing de um jovem casal de médicos que deixou Palmas, no Tocantins, para cumprir quatro anos de residência médica em Curitiba, no Hospital de Clínicas. A mudança era temporária, mas a demanda por conforto e identidade era permanente.

O apartamento, localizado na capital paranaense, chegou à Diane como uma planta convencional, com dormitórios divididos e sala fechada para a sacada. O que saiu do projeto foi algo diferente: um ambiente contínuo, com paleta neutra e tátil, onde branco total, pedra natural e luz estudada criam a sensação de um espaço muito maior do que os metros quadrados registrados em planta.

A planta que precisava ser repensada

O grande erro em projetos temporários é preservar a planta original por comodidade. Aqui, a arquiteta fez o oposto. Uma das paredes foi redefinida e um dos dormitórios foi eliminado para ampliar a suíte principal, uma decisão que pode parecer radical, mas que reflete com precisão o uso real do casal.

Com o dormitório extra fora do programa, o espaço ganhou proporção e o dormitório principal passou a funcionar de forma completa, com área de boudoir integrada.

Foto: Bia Nauiack

Na área social, a remoção de uma esquadria conectou o living à sacada, eliminando a barreira física entre os dois ambientes. O resultado direto é a entrada de mais luz natural, que percorre o piso e as superfícies claras ao longo do dia, ampliando a percepção de profundidade sem nenhum recurso ilusório.

O fio condutor: mimetismo e pedra

“Como fio condutor, o projeto adota o mimetismo visual e a presença marcante da pedra, compondo uma atmosfera contínua, sensorial e atemporal, capaz de transformar um endereço provisório em um verdadeiro lar”, explica Diane Justus.

Foto: Bia Nauiack

O conceito de mimetismo visual é mais técnico do que parece. Trata-se de fazer com que diferentes superfícies como o piso, parede e marcenaria conversem em tonalidade e temperatura, criando a ilusão de continuidade. Quando o olho não encontra pontos de ruptura brusca entre materiais, o espaço parece expandir. A pedra natural, com sua variação de veios e texturas, entra justamente para romper a monotonia que uma paleta total white poderia gerar, entregando profundidade sem cor.

Foto: Bia Nauiack

Aliás, a escolha do revestimento de piso passou por um critério que vai além do estético: Romeu, o golden retriever do casal, tem displasia coxofemoral, uma condição ortopédica que exige superfícies com aderência adequada e baixo impacto nas articulações. A seleção do piso considerou tanto a segurança do animal quanto a leitura monolítica que o projeto demandava — dois requisitos que, neste caso, foram atendidos em uma única escolha.

Iluminação que segue o volume, não a régua

A iluminação técnica é onde projetos de paleta neutra costumam se perder. Sem cor nas paredes para criar interesse visual, o projeto precisa que a luz faça esse trabalho, valorizando texturas e volumes que, de outra forma, passariam despercebidos.

Foto: Bia Nauiack

No apartamento, spots em frame e invisível seguem as linhas orgânicas dos ambientes, direcionando luz para superfícies de pedra e relevos da marcenaria. Essa decisão cria zonas de luz e sombra que dão tridimensionalidade ao espaço ao longo do dia. Na suíte, uma tela tensionada no teto, posicionada sobre o boudoir, funciona como fonte de luz difusa, sem ofuscamento direto — o tipo de iluminação que torna qualquer ambiente mais acolhedor ao amanhecer e ao entardecer.

Os acabamentos elétricos também foram tratados como elemento de projeto. Interruptores e tomadas da linha Tés, em inox escovado, substituem os acabamentos convencionais e se integram à materialidade geral do apartamento. É um detalhe que passa despercebido para quem não sabe procurar, mas que faz diferença no acabamento final da composição.

Objetos que ampliam o diálogo

A decoração neste apartamento não é acessória. Ela é argumento. Esculturas em pó de mármore inspiradas na Vênus de Milo e na Vitória da Samotrácia, trazidas de viagens pelo casal, ocupam pontos estratégicos do espaço como esculturas de galeria — não como enfeites de prateleira.

Foto: Bia Nauiack

A escolha do material não é casual: o pó de mármore ecoa a presença da pedra natural já estabelecida no projeto, criando coerência entre os elementos decorativos e a base arquitetônica.

Foto: Bia Nauiack

Bolsas da coleção especial da Louis Vuitton integram o cenário como objetos de design, posicionadas de forma exposta e intencional. Esse gesto — tratar moda como arte dentro do espaço doméstico amplia o diálogo entre arquitetura, design e cultura visual, e diz muito sobre quem mora ali.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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