A integração deixou de ser apenas uma solução espacial para se tornar estratégia de estilo de vida. Neste apartamento contemporâneo, projetado pelo escritório Consuelo Jorge Arquitetos, a planta foi redesenhada para priorizar convivência, fluidez e permanência — três premissas que, quando bem resolvidas, transformam o morar em experiência.
O pedido era claro: criar um ambiente amplo, preparado para receber amigos com frequência, mas sem abrir mão do aconchego cotidiano. Assim, living, cozinha integrada e home theater passaram a dialogar como um único grande espaço social. Contudo, integração não significa ausência de hierarquia; o que realmente faz a diferença é como cada setor ganha identidade própria dentro do conjunto.
Integração como linguagem arquitetônica
A conexão visual entre os ambientes acontece sem rupturas bruscas. A base neutra estabelece equilíbrio, enquanto a combinação de madeira, couro e tons como grafite, mostarda e terracota constrói profundidade. Aliás, o grande erro em projetos integrados é apostar apenas no branco e no cinza frio; aqui, a escolha de tons quentes evita que o espaço se torne impessoal.

O sofá modular em bouclé cru organiza o living e, ao mesmo tempo, permite múltiplas configurações para encontros maiores. Ao redor, mesas de apoio de design brasileiro e a poltrona em bouclé mostarda acrescentam textura e reforçam a curadoria de peças autorais. Não se trata apenas de preencher o espaço, mas de construir repertório.
Freijó: a espinha dorsal do projeto
A madeira freijó é o elemento central da narrativa arquitetônica. No hall e no lavabo, ela reveste superfícies de maneira quase contínua, criando uma chegada imersiva. Essa decisão não é apenas estética; madeira em tom natural suaviza a transição entre exterior e interior, além de trazer conforto sensorial imediato.

No home theater, o painel em freijó abriga duas obras de Livia Frigo, entre elas “Partículas – Composição Cinética” (2021), em corte e colagem de madeira Ébano. A escolha do suporte em madeira reforça o diálogo entre arte e arquitetura.

Nesse sentido, a estante minimalista não compete com as obras, mas as enquadra, valorizando tanto a coleção quanto o desenho do painel. Há uma inteligência sutil aqui: a marcenaria não é pano de fundo, ela é protagonista silenciosa.
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Cozinha grafite e unidade visual
Na cozinha integrada, o grafite domina a marcenaria e se estende até as portas de serviço, garantindo continuidade visual. Essa decisão elimina ruídos e reforça a unidade do projeto. A ilha central cumpre dupla função: organiza o fluxo do dia a dia e se transforma em ponto de encontro informal durante as reuniões com amigos.

Dessa forma, a cozinha deixa de ser bastidor e assume papel social. O contraste entre o grafite e os detalhes em madeira aquece o ambiente e evita a estética excessivamente industrial que muitas vezes surge quando se aposta apenas em tons escuros.
Jantar com identidade e equilíbrio
A sala de jantar é marcada pela mesa FIO, em carvalho ebanizado, acompanhada por cadeiras em couro caramelo. O couro, aliás, cumpre papel importante: introduz textura natural e quebra a rigidez da madeira escura. O resultado é um ambiente que equilibra descontração e refinamento, sem cair no formalismo.

Aqui, a arte novamente aparece como elemento estruturante, não decorativo. Ela cria pontos de pausa visual e reforça a identidade do casal, que valoriza curadoria tanto quanto funcionalidade.
Suíte como refúgio contemporâneo
Se a área social é expansiva, a suíte do casal foi pensada como recolhimento. O painel frisado em freijó integra cama e mesas de cabeceira em tom fendi, criando continuidade visual e sensação de abraço arquitetônico. Tecidos texturizados e tapetes ampliam o conforto térmico e acústico — detalhe que muitas vezes passa despercebido, mas que impacta diretamente na qualidade do descanso.

As obras de Livia Frigo, em óleo sobre papel algodão, dialogam com a composição da cama, mantendo a coerência estética do apartamento. Além disso, o home office integrado foi cuidadosamente incorporado ao dormitório, sem que o ambiente assumisse caráter corporativo. O segredo está na paleta neutra e na marcenaria sob medida, que camufla equipamentos e organiza a rotina.
Curadoria, convivência e permanência
O resultado é um projeto de interiores que entende a integração como ferramenta de conexão humana. Cada material, cada peça de design e cada obra de arte contribuem para a construção de um cenário que equilibra estética e uso real.
Não há excessos, tampouco soluções óbvias. Há, sim, uma narrativa coesa em que madeira freijó, design brasileiro, arte contemporânea e integração de ambientes se entrelaçam para traduzir o estilo de vida de um casal jovem, urbano e atento aos detalhes.
E é justamente esse cuidado — na escolha dos materiais, na proporção do mobiliário e na relação entre arte e arquitetura — que transforma um simples apartamento em experiência de morar.





