Dez anos sem reforma deixam marcas que vão além do desgaste visível. Um casal sem filhos, morador de um apartamento de 360 m² no Alto de Pinheiros, chegou a esse ponto com um problema específico: o imóvel não tinha paredes suficientes para acomodar o acervo de arte reunido em viagens e décadas de colecionismo. A solução não passava por demolir nada. Passava por repensar onde cada superfície poderia, de fato, sustentar uma tela.
O projeto de arquitetura assinado pelo Estúdio Glik de Interiores (@estudioglikdeinteriores) partiu dessa restrição para desenhar uma nova lógica de circulação e exposição dentro do apê. A seguir, os detalhes de como a equipe uniu dois pisos distintos, recuperou um ambiente esquecido e organizou a marcenaria planejada para que obras de nomes como Tomie Ohtake e Di Cavalcanti ganhassem o protagonismo que mereciam.
Paredes livres sem tocar na alvenaria
Trabalhar com arte em grande escala exige continuidade visual. Paredes recortadas por vãos, nichos e marcenaria fragmentada competem com as obras em vez de valorizá-las.

Por isso, o escritório optou por manter a estrutura original do apartamento intacta e resolver o problema puramente através do desenho de interiores, sem qualquer alteração na alvenaria.
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A marcenaria recortada do layout anterior deu lugar a elementos alinhados e contínuos revestidos em lâmina de Louro Preto. Na parede principal do living, um painel linear concentra portas que ocultam a televisão quando fechadas e, nesse estado, funcionam como superfície expositiva para os quadros do casal.

O mesmo desenho em Louro Preto segue até o hall interno e chega ao buffet de apoio junto à sala de jantar, criando um fio condutor que atravessa os ambientes sociais sem interrupções visuais.
Da varanda esquecida ao home office da moradora
A antiga varanda interna do apartamento tinha um deck e chaises que praticamente não eram usados. Em vez de manter esse espaço como um resquício decorativo sem função, o estúdio o converteu em um ambiente de estar com home office dedicado à moradora.

A mudança devolveu um cômodo inteiro à rotina do casal, algo que dez anos de uso esporádico não tinham conseguido. Essa reconfiguração também evidencia um princípio recorrente em projetos de decoração de interiores bem resolvidos: o metro quadrado ocioso custa tanto quanto o metro quadrado em uso, só que sem entregar nada em troca.
Transformar a varanda em espaço funcional foi, nesse sentido, tão relevante para o resultado final quanto qualquer intervenção estética aplicada ao living.
Mármore e madeira cumaru sob a mesma régua
O living do apartamento reunia dois pisos existentes que não dialogavam entre si: o mármore Crema Marfil e a madeira cumaru.

Integrar materialidades tão distintas, uma fria e reflexiva, outra quente e com veios irregulares, pedia um elemento de transição capaz de organizar essa passagem sem criar uma linha de corte abrupta. Foi justamente a marcenaria em Louro Preto que assumiu esse papel de costura.

Ao se repetir em pontos estratégicos da planta, ela cria uma referência visual constante que acompanha o olhar de um piso a outro, suavizando a mudança de material e dando ao conjunto uma sensação de continuidade que a alvenaria original, por si, não oferecia.
Acervo de arte como protagonista absoluto
A base da decoração segue uma paleta neutra, atemporal e eclética. Tons claros no mobiliário cumprem função de coadjuvante, reservando o papel principal para as telas e esculturas espalhadas pelo imóvel, entre elas trabalhos de Tomie Ohtake, Amelia de Toledo, Nina Pandolfo, Di Cavalcanti e gravuras de Miró.

Essa escolha cromática discreta é o que permite que peças de forte presença visual, como as obras do acervo, não precisem competir com estofados ou revestimentos chamativos para serem notadas.
Na sala de jantar, a mesa assinada por Norman Foster e o pendente da Louis Poulsen foram protegidos e mantidos no mesmo local durante toda a obra, preservando a composição original que o casal já havia consolidado ao longo dos anos de convivência com o imóvel.

Manter essas peças intocadas, em vez de redesenhar o ambiente do zero, reforça que a reforma não buscava reinventar a identidade da casa, e sim dar a ela as condições certas para abrigar melhor o que já existia.
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