Há um tipo de design que não nasce em escritório. Não começa em software, não passa por renderizações e não depende de tendências sazonais para existir. O artesanato alagoano funciona dessa forma: parte das mãos, atravessa gerações e carrega consigo a memória de comunidades inteiras. E é exatamente esse tipo de criação que, entre os dias 20 e 26 de abril de 2026, vai ocupar um dos endereços mais simbólicos da Milan Design Week — o maior evento de design contemporâneo do mundo.
A exposição ALAGOAS PLURAL desembarca no Fuorisalone 2026 com mais de 100 criações artesanais assinadas por 46 criadores do estado. A mostra acontece no Le Cavallerizze, edifício histórico do século XIX que integra o complexo do Museu de Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci, localizado no distrito 5Vie Art+Design — um dos bairros mais antigos e valorizados de Milão, reconhecido internacionalmente por sua vocação para o design colecionável e o artesanato de alto padrão.
Um programa que começou em 2015 e hoje se apresenta ao mundo
O Programa Alagoas Feita à Mão, criado em 2015 pelo Governo de Alagoas por meio do SERFI, nasceu com um propósito claro: estruturar, fortalecer e projetar a produção artesanal popular do estado para além das fronteiras regionais. O que começou como uma iniciativa de valorização interna foi ganhando escala, passando por cidades como Nova Iorque, Miami, Paris e Lisboa, até chegar a uma das apresentações mais ambiciosas de sua história.
A participação na Semana de Design de Milão representa não apenas visibilidade internacional, mas o reconhecimento de que o artesanato alagoano tem, de fato, algo inédito a dizer dentro do contexto global do design. A curadoria e a direção de arte ficam a cargo de Marco Aurélio Pulchério, galerista à frente da Marco500, com coordenação e produção da Marco500/Caboco e apoio institucional do Consulado-Geral do Brasil em Milão.
Cerâmica, entalhe em madeira e bordado
A ALAGOAS PLURAL não é uma exposição temática no sentido convencional. Ela não parte de um conceito abstrato para depois encaixar as peças. Parte das peças em si — da cerâmica popular, do entalhe em madeira e dos bordados artesanais — para revelar o quanto esses três pilares constroem, juntos, uma identidade visual que não encontra equivalente em nenhuma outra produção do Brasil.
A cerâmica alagoana, em especial, carrega uma densidade estética que vai muito além da forma. As superfícies brutas, os volumes irregulares e as escolhas cromáticas não são limitações técnicas — são opções expressivas. O mesmo vale para o entalhe em madeira: cada peça produzida pelos mestres do sertão alagoano revela um domínio técnico apurado que coexiste com uma liberdade criativa raramente encontrada no design industrial. Já os bordados, assinados coletivamente pelas artesãs da Associação Mimos de Dona Peró, de Capela, traduzem afeto, memória e pertencimento em cada ponto.
Dessa forma, o que a exposição apresenta não é artesanato como objeto decorativo isolado. É artesanato como linguagem de design — com coerência visual, profundidade técnica e força narrativa.
46 criadores, 11 localidades, do Sertão ao Litoral
A seleção que integra a ALAGOAS PLURAL é criteriosa e geograficamente diversa. São 26 artesãos individuais e 20 artesãs bordadeiras da Associação Mimos de Dona Peró, distribuídos por 11 localidades de cinco regiões do estado — da Ilha do Ferro, no Sertão, até a Zona da Mata e o Litoral.
Entre os criadores estão mestres com trajetórias consolidadas, como Mestra Irineia (União dos Palmares), Mestre Petrônio (Ilha do Ferro), Mestre Zezinho de Arapiraca (Campo Alegre) e Mestre Chico Cigano (Batalha), ao lado de nomes como Boioiô, Eraldo, Salvinho e Veroneide Laurentino — cada um representando um recorte específico da cultura material alagoana.
Essa diversidade territorial é justamente um dos aspectos mais relevantes da mostra. Não se trata de uma curadoria que uniformiza o artesanato alagoano em torno de uma única estética. Pelo contrário: a força da ALAGOAS PLURAL está na convivência entre estilos, técnicas e referências distintos, que se unem pela mesma origem e pelo mesmo compromisso com a preservação cultural e com o respeito ao meio ambiente.
“Be the Project”: quando o tema da Milan Design Week encontra o artesanato ancestral
O tema central do Fuorisalone 2026, “Be the Project”, propõe uma reflexão sobre os processos que nos transformam em quem somos — um convite para reconhecer que projetar é, antes de tudo, uma afirmação de existência. Em tempos de inteligência artificial e automação criativa, o tema ganha uma camada extra de significado.
A ALAGOAS PLURAL dialoga com essa proposta de forma direta e sem forçar interpretações. As peças expostas em Milão são, por definição, projetos humanos na acepção mais completa do termo: processos de criação que partem do corpo, da memória e da técnica aprendida de geração em geração. Nenhum algoritmo replica o gesto de um entalhador de Ilha do Ferro ou o ponto específico de uma bordadeira de Capela. Isso é, justamente, o que torna essa produção tão relevante dentro do debate contemporâneo sobre design autoral e identidade cultural.
Aliás, o distrito 5Vie, onde a exposição acontece, é reconhecido por privilegiar exatamente esse tipo de produção: o design colecionável, o artesanato de alto rigor técnico e as expressões culturais que resistem à padronização. A escolha do local não é casual — reforça o posicionamento da mostra dentro de um circuito que valoriza a singularidade como critério estético.
Le Cavallerizze: um edifício do século XIX como cenário para uma produção viva
O espaço que receberá a ALAGOAS PLURAL tem história própria. O Le Cavallerizze é parte do complexo do Museu de Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, e sua arquitetura do século XIX cria um contraste visual poderoso com as peças artesanais alagoanas. Paredes históricas, pé-direito elevado e uma atmosfera de galeria que equilibra o monumental com o humano — esse é o tipo de cenário que potencializa qualquer objeto com densidade visual e cultural.
Para o artesanato de Alagoas, essa é a condição ideal. Peças que já carregam em si uma camada histórica e identitária ganham ainda mais profundidade quando colocadas em diálogo com um espaço que também tem memória. Não é uma exposição que precisa criar contexto artificial. O contexto já existe — tanto nas paredes do Le Cavallerizze quanto no interior de cada peça exposta.
Serviço
ALAGOAS PLURAL Fuorisalone – Milan Design Week 2026 Le Cavallerizze – Museu de Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci Via Olona 4 – 5Vie – Milão – Itália 20 a 26 de abril de 2026
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