Acompanho esse assunto de perto, discutindo com frequência qualidade de vida, décor e patrimônio, e reparo num padrão que se repete: quem viaja mais, quase sempre, mora na casa mais gostosa de estar. Contudo, não acho que isso seja coincidência. Pra mim, é prova de que casa própria parou de ser sinônimo automático de vida bem-sucedida.
Defendo que dá para contar essa virada em três gerações, e vou te mostrar por quê. Cada geração respondeu ao medo do seu próprio tempo, e entender esse caminho muda a forma como eu olho para o tamanho do imóvel que faz sentido comprar hoje.
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Os boomers tinham razão em priorizar a construção
Entendo perfeitamente por que os boomers construíram em cima da instabilidade. Eles viveram num país em que a poupança derretia da noite para o dia, e a parede do imóvel ficava de pé enquanto o dinheiro guardado no banco evaporava.
Não vejo ganância nessa escolha, mas sim uma resposta racional a um medo concreto, e por isso acho injusto quem trata essa geração como obsessiva por imóvel.
A casa própria funcionou como a única forma de segurança palpável disponível naquele momento. Essa geração acertou dentro das regras do jogo que recebeu, e isso merece reconhecimento antes de qualquer crítica.
A geração X transformou segurança em status, e aí o problema começa
Já com a geração X, discordo do caminho que tomaram. Herdaram a cartilha dos pais, mas trocaram o sentido original “da coisa” e, assim, a casa deixou de ser proteção e virou prova pública de sucesso. Comprar o imóvel se tornou troféu, e eu acho esse desvio o verdadeiro início do problema que a gente carrega até hoje.
Vejo o resultado desse raciocínio em décadas de projetos residenciais inflados além do necessário. Quarto de hóspede vazio, sala de jantar formal para seis numa casa de três. Pra mim, metragem grande sem função real é desperdício de dinheiro e de vida, não conquista.
Millennials fizeram a correção certa, mas exageraram na dose
Admiro a atitude dos millennial, onde a maioria fez questão de trocar o passaporte pelo lugar que antes era só da escritura. Acho essa inversão corajosa e necessária, porque romper com uma geração inteira de adiamento exige coragem. Não concordo, porém, com a forma como parte dessa geração executou a mudança.
Guardar dinheiro virou coisa do passado para muita gente, e isso criou um problema espelhado ao da geração X. Apostar que sempre haverá tempo de recuperar o terreno financeiro depois é ingenuidade, e a conta chegou rápido.
A pandemia provou que eu estava certo em desconfiar dos dois extremos
A pandemia encerrou essa discussão, e acho que ela fez isso de forma brutal e necessária. Quem não guardou nada passou aperto sério quando a renda travou. Quem passou a vida inteira guardando para viver bem só no futuro descobriu que esse futuro não é garantido para ninguém.
Esse choque simultâneo confirma o que eu já pensava antes dele acontecer. Acumular patrimônio sem viver o presente é tão arriscado quanto viver o presente sem construir base nenhuma, e ninguém devia ter precisado de uma pandemia para aprender isso.
A geração Z finalmente acertou o equilíbrio
Olho para quem está comprando o primeiro imóvel agora, geração Z e millennials mais maduros, e vejo a síntese que eu esperava há anos. O patrimônio não morreu como valor. Mudou de função. Deixou de ser a finalidade de uma vida inteira e passou a ser apenas a base sobre a qual o resto se constrói, e defendo que essa é a ordem correta das coisas.
A régua de vida boa dessa geração deixou de ser o tamanho da casa e virou o tamanho do repertório. Concordo com essa mudança de critério. A casa boa não precisa ser a maior que o crédito aprova. Precisa custar o suficiente para sobrar orçamento para viver fora dela também.
O que isso muda no projeto da casa°
Defendo que quem viu mundo lá fora escolhe menos peça dentro de casa, e escolhe melhor cada uma delas. O repertório se constrói viajando. O aconchego se constrói dentro de casa. Essas duas coisas deixaram de competir pelo mesmo orçamento do jeito que competiam antes, e isso é a melhor notícia que vejo no comportamento dessa geração.
Acho que essa mudança já aparece na metragem e no programa dos projetos atuais. Casas menores, plantas mais integradas, menos cômodo decorativo que existe só para impressionar visita. Para mim, cada metro quadrado precisa justificar sua existência no dia a dia real de quem mora ali, e não na foto que a visita vê uma vez por ano.
Nenhuma dessas gerações estava completamente errada, mas também nenhuma acertou por inteiro sozinha. A diferença da geração atual, na minha leitura, é a vantagem de observar as três respostas anteriores antes de escolher a própria.
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