Uma cozinha pode seguir todas as tendências do momento e, ainda assim, sair pesada, poluída e sem aquele ar atemporal que todo projeto bem resolvido busca.
A arquiteta Clarice Maggi reuniu cinco escolhas que costumam aparecer em referências de decoração, mas que ela evita nos próprios projetos, e explicou o motivo técnico por trás de cada uma.
Armários todos em vidro sobrecarregam o visual
O vidro reflecta e o vidro leitoso branco ganharam espaço nas cozinhas contemporâneas, mas usar esse material em todos os armários tende a competir com os outros elementos do ambiente.

“Eu acho que essa história do vidro na cozinha dá uma pesada. É um material brilhoso que chama muita atenção, é um material a mais no meio de vários outros que a gente já tem numa cozinha, como MDF, como as pedras da bancada, como o revestimento da parede. Então é mais um material somado a todos os outros que já tem chamando atenção, e a gente perde a oportunidade de usar as portas todas lisas tendo um ar mais leve e contemporâneo”, explica a arquiteta.
A cozinha já reúne naturalmente muitos materiais em um espaço relativamente pequeno. Pedra na bancada, MDF nos armários, revestimento na parede. Somar um vidro brilhante a essa combinação cria mais um ponto de atenção visual, e o resultado costuma ser um ambiente mais carregado do que o pretendido.
O cinza perdeu força como cor de destaque
Depois de anos dominando projetos de cozinha, o cinza começa a sair de cena.

“Eu absolutamente não faria a cozinha toda cinza, porque eu acho que o cinza já deu. Além de o cinza ser pesado e triste, ele também deixa a cozinha mais pesada. Dependendo se for um tom mais escuro, também é mais difícil de limpar, aparece qualquer risquinho, qualquer sujeirinha. E essa moda do cinza já deu, né? Deixa o ambiente muito triste, muito pra baixo, sendo que a gente pode usar cores muito mais leves. O cinza não é uma cor leve, nem neutra e nem moderna”, explica a arquiteta.
Além da questão estética, existe um problema prático: tons mais escuros de cinza evidenciam manchas e marcas de uso no dia a dia, o que exige uma limpeza muito mais frequente para manter o acabamento impecável.
Cozinha sem madeira perde o aconchego
Para a arquiteta, a madeira cumpre uma função que nenhum outro material substitui completamente dentro da cozinha, mesmo em doses pequenas.

“Eu não faria cozinha sem madeira. Isso não quer dizer que a gente precise ter madeira em tudo. Às vezes uma prateleirinha, um detalhe já é suficiente. Até um adorno trazendo um detalhe de madeira também. Então não é que você não possa ter uma cozinha toda branca, por exemplo, com algum detalhe de madeira, mas eu acho que não ter madeira nenhuma deixa a desejar no quesito aconchego que só a madeira pode trazer”, diz Clarice.
Isso significa que uma cozinha totalmente branca ou em tons claros continua funcionando bem no projeto, desde que receba pelo menos um ponto de madeira, seja em uma prateleira, um puxador ou um objeto decorativo.
Armários em dois níveis quebram a unidade do desenho
Um erro recorrente em projetos de marcenaria está na estrutura dos armários superiores, quando o móvel é dividido em duas alturas e duas profundidades diferentes.

“Eu não faria armários em dois níveis, sabe quando tem duas alturas e duas profundidades? A gente tem essa quebra no desenho do móvel, sendo que a gente poderia ter armários inteiros, uma porta só de cima a baixo, inteira, única, trazendo mais unidade e mais elegância pro desenho do móvel. Quando a gente tem aquele aéreo em duas alturas, duas profundidades, a gente acrescenta mais informação no móvel, a gente acrescenta mais poluição visual e isso vai trazendo mais peso, vai deixando todo o desenho da cozinha mais pesado e mais poluído”, detalha a arquiteta.
Uma porta única, do topo à base do móvel, cria uma linha limpa e contínua na marcenaria, resultado difícil de alcançar quando o desenho é fragmentado em níveis distintos.
- Veja também: Cozinha americana integrada à sala: o que diferencia um ambiente aberto que funciona de um que só parece maior?
O ripado na frente da bancada já cumpriu seu ciclo
O ripado se tornou praticamente sinônimo de acabamento moderno em cozinhas, principalmente na parte frontal das bancadas ilha. Mas Clarice enxerga esse recurso como uma solução repetitiva e, muitas vezes, usada sem necessidade real de projeto.
“E eu não faria ripado na frente da bancada. Sim, eu sei que muita gente ama, mas geralmente a gente não sabe o que fazer com essa frente da bancada da cozinha e taca ripado lá. Eu acho que é um elemento já muito batido, que já deu dele. O ripado, em diversas situações, não é indicado só pra tapar a parede que não se sabe o que fazer, tem várias outras opções. Eu prefiro, por exemplo, usar um painel amadeirado liso do que usar um ripado na frente da bancada”, conclui.
Um painel amadeirado liso entrega o mesmo aconchego visual que o ripado promete, sem repetir uma solução que já apareceu em praticamente todos os perfis de decoração nos últimos anos.
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