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Home Arquitetura e Projetos

Arquitetura modernista de Curitiba: o patrimônio que ultrapassa o Jardim Botânico

Marcos como o Palácio Avenida, o Marumby e o conjunto do Centro Cívico revelam uma capital que discutiu concreto, vidro e função décadas antes de virar sinônimo de urbanismo premiado

Escrito por: Cláudio Filla
8 de julho de 2026 - Atualizado em: 7 de outubro de 2026
em Arquitetura e Projetos, Projetos e Arquitetura
Museu Oscar Niemeyer

Curitiba costuma ser lembrada pelo Jardim Botânico e pela Ópera de Arame, mas o verdadeiro laboratório da identidade arquitetônica da cidade está em outro lugar: no centro histórico e no Centro Cívico, onde dezenas de edifícios contam a transição do ecletismo para o modernismo brasileiro com uma coerência rara no país.

O ponto de partida dessa história é o Palácio Avenida, na Rua XV de Novembro. Erguido entre 1927 e 1929 pelo empresário sírio-libanês Feres Merhy, o edifício representa o fim tardio do ecletismo curitibano, já contaminado por linhas geométricas de influência art déco. A fachada de 90 metros mistura pilastras decorativas, cornijas ornamentadas e grandes janelas em arco, elementos que dialogam com a tradição clássica sem abandonar certa economia de ornamento.

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É esse hibridismo, entre o antigo e o que estava por vir, que torna o Palácio Avenida uma peça-chave para entender como a cidade absorveu a modernidade sem romper de forma abrupta com seu passado. Décadas depois, o prédio quase foi demolido pelo banco que o adquiriu, e só sobreviveu graças ao tombamento da paisagem da Rua XV, que obrigou a preservação da fachada original mesmo durante a reforma que o transformou em sede bancária.

A verticalização que mudou a paisagem da cidade

Enquanto o Palácio Avenida ainda carregava resquícios do passado eclético, outros edifícios do centro assumiam de forma mais direta o vocabulário moderno. O Edifício Marumby, com 12 andares, é considerado o primeiro condomínio vertical e o primeiro arranha-céu da cidade, marco que abriu o processo de verticalização iniciado nos anos 1940. Seu estilo, categorizado como transição entre pré-modernismo e art déco, virou símbolo de uma Curitiba que começava a se enxergar como capital cosmopolita, capaz de dialogar com os grandes centros urbanos do país.

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Arquitetura modernista de Curitiba: o patrimônio que ultrapassa o Jardim Botânico
(Foto: André Nacli/Casa da Arquitetura de Curitiba)

Essa mesma lógica se repete em outros exemplares do calçadão, como o Edifício Brasilino Moura, conhecido popularmente pelo apelido “balança, mas não cai”, e nos prédios residenciais das imediações da Praça Osório, entre eles o Itália, o Provedor André de Barros e o Gemini. São construções que hoje passam quase despercebidas para quem caminha distraído pelo centro, mas que documentam, de forma silenciosa, o momento em que a arquitetura moderna deixou de ser exceção e virou linguagem corrente na cidade.

Nos halls desses edifícios, o repertório modernista aparece com clareza: pé-direito alto, mezaninos, revestimentos em mármore e o uso generoso de cobogós, elemento vazado que garante ventilação e um jogo particular de luz e sombra. O Edifício Maurício Thá, projetado por Elgson Ribeiro Gomes em 1969, preserva até hoje esse conjunto praticamente intacto, funcionando como um raro registro tridimensional de como se pensava a recepção de um edifício residencial havia mais de cinquenta anos.

Centro Cívico: a maior concentração modernista do país

Se o centro histórico revela a transição, o Centro Cívico mostra o modernismo consolidado e institucional. A concentração de órgãos públicos na região, a partir da década de 1950, reuniu num só bairro o que se tornou, segundo especialistas em patrimônio, a maior aglomeração de arquitetura moderna por metro quadrado do Brasil. O Palácio Iguaçu e o conjunto da Reitoria da Universidade Federal do Paraná seguem à risca os cinco pontos definidos por Le Corbusier: pilotis, estrutura independente da vedação, terraço-jardim, planta livre e fachada livre.

Arquitetura modernista de Curitiba: o patrimônio que ultrapassa o Jardim Botânico
Foto: Reprodução UFPR

Essa arquitetura oficial buscava comunicar, através do concreto armado, do vidro e do ferro, os valores de racionalidade, progresso e desenvolvimento técnico que o Paraná queria projetar naquele período. O Edifício da Caixa Econômica Federal, na Praça Carlos Gomes, e os prédios da antiga Secretaria de Segurança Pública seguem o mesmo raciocínio, aproximando-se do repertório Bauhaus, com estruturas metálicas e envidraçadas que reduzem ao mínimo qualquer ornamento supérfluo.

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Um precursor esquecido e uma cena que segue viva

Poucos sabem que Curitiba antecipou o modernismo residencial já na década de 1930, com a chamada casa sem telhado de Frederico Kirchgässner, um experimento arquitetônico raro para a época no Brasil. Esse pioneirismo ganharia força institucional em 1962, quando a Universidade Federal do Paraná criou seu curso de Arquitetura e Urbanismo, justamente no momento em que o modernismo vivia seu auge nacional.

O legado segue presente, mas vulnerável. Grande parte desses edifícios não possui tombamento, o que deixa a preservação de halls, fachadas e elementos originais quase inteiramente nas mãos de moradores e síndicos. A discussão sobre incluir essas construções na lei municipal de proteção ao patrimônio cultural avança devagar, enquanto reformas mal planejadas seguem apagando detalhes que não voltam mais.

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Entender essa camada da cidade muda a forma de olhar para Curitiba. O modernismo é a espinha dorsal que explica por que a capital paranaense, décadas antes de virar referência mundial em urbanismo, já discutia função, técnica e forma com uma maturidade rara entre as cidades brasileiras da mesma época.

  • Arquitetura modernista de Curitiba: o patrimônio que ultrapassa o Jardim Botânico

    Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor/Redator do Enfeite Decora
    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
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