A fachada não entrega nada. Pedra moledo, reboco baiano de textura espessa e uma porta discreta de madeira peroba formam uma frente que deliberadamente se recusa a revelar o que há dentro. Essa contenção não é ausência de projeto, é a primeira decisão arquitetônica da Casa Berimbau, erguida no condomínio Outeiro das Brisas, entre Trancoso e Caraíva, no litoral sul da Bahia.
Ao atravessar a porta, o visitante encontra o oposto: generosidade espacial, luz natural abundante e uma piscina central que parece existir simultaneamente dentro da sala e fora da casa. Esse efeito não é acidental. É o resultado de uma planta organizada em formato de U pelo escritório W.A.M.V. Arquitetura, que converteu 199 m² de área interna em uma experiência de convívio contínuo entre arquitetura, vegetação e paisagem.
A lógica do U e o núcleo que organiza tudo
A escolha pelo formato em U define a personalidade inteira do projeto. Com todos os ambientes voltados para um grande núcleo central, a distribuição cria uma espécie de jardim habitado, rodeado pela construção em três lados. Nesse miolo, pergolado, piscina, vegetação nativa e luz natural funcionam como uma única paisagem.

“A residência nasce da ideia de criar um lugar de encontro, mas sem abdicar do resguardo. Por isso, ela se fecha para a rua e se abre completamente para o seu interior”, explica o arquiteto João Marcelo Oliveira, sócio do escritório W.A.M.V. Arquitetura.
A ala social ocupa a área principal, enquanto as três suítes se distribuem pelos braços laterais da construção. Essa separação garante privacidade para a área íntima sem que ela se desconecte do conjunto. Quem está em qualquer ponto da casa tem relação visual ou física com o núcleo central e é essa continuidade que define o caráter do projeto.
Piscina como elemento organizador, não como detalhe
O grande erro em projetos de casas de veraneio é tratar a piscina como peça independente, jogada no terreno depois que a arquitetura está resolvida. Aqui, a lógica é inversa. A piscina centralizada é o elemento que organiza a experiência espacial — e o cotidiano dos moradores.

Posicionada de forma a parecer ao mesmo tempo dentro da sala e fora da casa, ela é rodeada por deque de madeira teca de 40 m² que amplia as áreas de permanência e contemplação.
A piscina com borda infinita recebeu revestimento 10×10 cm e uma prainha para acomodar as espreguiçadeiras dos moradores, resolvendo a transição entre a água e o espaço de estar com naturalidade.

O pergolado de biribas de eucalipto, com 78 m² voltados para o pôr do sol, completa esse núcleo. Podendo ser fechado por esteiras de palha de dendê, o espaço permite controlar a incidência solar ao longo do dia e cria um jogo de sombras que reforça o caráter sensorial do projeto. É a solução que alguém que realmente usa a casa precisava.
Materiais que vêm do lugar
A paleta material da Casa Berimbau não foi montada em catálogos. Ela foi construída a partir do que a região oferece e do que faz sentido construtivo no clima baiano. Ladrilhão mineiro de barro queimado 40×40 cm no piso, reboco baiano carregado e rugoso nas paredes, madeira peroba em toda a caixilharia, teto de cedrinho e luminárias pendentes de fibra natural feitas por artesão local.

Esse conjunto de escolhas não é romantismo vernacular. É uma decisão técnica e econômica que reduz a dependência de materiais industrializados, valoriza fornecedores locais e produz superfícies com comportamento térmico adequado ao clima tropical. O cimento queimado na ilha da cozinha e no banheiro máster completa a paleta com um acabamento contemporâneo que não destoa do conjunto.
“A intenção foi dissolver os limites convencionais entre dentro e fora. A arquitetura se torna mais permeável e passa a dialogar diretamente com a paisagem, com o vento e com a luz”, afirma o arquiteto Matheos C. Schnyder, também sócio do W.A.M.V. Arquitetura.

As grandes portas de correr em madeira peroba materializam exatamente esse princípio. Quando abertas, elas desaparecem dentro das paredes e eliminam qualquer barreira entre os ambientes internos e externos. A cozinha aberta, conectada diretamente ao núcleo de convivência, segue a mesma lógica: quem cozinha participa dos encontros.
O telhado que virou calha e as quedas d’água que virou detalhe
A cobertura é onde o projeto entrega sua decisão mais precisa. Apesar da planta em U, o telhado tem uma única inclinação, convergindo para uma grande calha central de concreto aparente. Assumida como protagonista visual, ela percorre toda a extensão da casa e conduz a água das chuvas para duas extremidades da residência, onde surgem quedas d’água que lembram pequenas cachoeiras.

Isso resolve duas questões ao mesmo tempo: o escoamento pluvial de uma construção extensa em região de chuvas intensas, e a criação de um elemento visual e sonoro que reforça a conexão sensorial do projeto com o entorno.
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O banheiro que não tem paredes
Na suíte máster, a integração com a natureza vai além da vista. O banheiro foi projetado em uma área externa coberta, praticamente sem paredes. O chuveiro instalado em área de cimento queimado com nicho proporciona a sensação de banho ao ar livre, com esteiras de palha de dendê na cobertura e Heliconia bihai plantada atrás do banco.

A pintura terracota, misturada no próprio canteiro de obras, sem referência de catálogo, reforça a paleta de tons terrosos que percorre toda a casa. O dormitório se relaciona com jardins protegidos e áreas externas privativas, ampliando o contato com a natureza sem comprometer a privacidade da área íntima.
Vegetação nativa como decisão de projeto, não como paisagismo decorativo
No terreno de 5 mil m², a construção foi implantada de forma recuada para preservar integralmente a massa vegetal frontal do lote. Mangabeiras, biribas, bromélias e espécies rasteiras típicas da região permaneceram intocadas. Essa decisão define a relação da casa com a rua antes mesmo de qualquer detalhe construtivo.
A decoração segue a mesma coerência: autoral, concebida pelos próprios proprietários com peças de acervo pessoal e herança familiar. Móveis feitos por artesãos locais, quadros do acervo dos moradores e objetos com história familiar compõem os ambientes sem nenhuma peça de catálogo genérico de decoração de temporada.
“A Casa Berimbau sintetiza um tema que nos interessa muito: criar arquiteturas profundamente ligadas ao lugar, ao clima e ao modo de vida de quem vai habitá-las. Aqui, cada decisão nasceu dessa relação entre paisagem, construção e convivência”, conclui João Marcelo Oliveira.
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