O abuso psicológico em relacionamentos raramente começa com um gesto evidente. Ele se instala de forma lenta, quase imperceptível, por dentro das conversas cotidianas, das memórias que são reescritas, das certezas que vão sendo minadas. É exatamente assim que Mônica Fittipaldi, arquiteta e urbanista com 30 anos de carreira, descreve os sete anos que viveu ao lado de um parceiro que a submetia a uma forma de manipulação chamada gaslighting.
O relato faz parte da campanha CAU Mulher, iniciativa do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) que, ao longo do mês de março, abre espaço para que arquitetas e urbanistas compartilhem experiências sobre desigualdade de gênero, violência, silenciamento e superação. Mônica abriu a série de depoimentos. E o que ela conta merece atenção.
Quando tudo parecia perfeito
A relação começou bem. Mônica conta que os primeiros momentos eram agradáveis, quase sem arestas. Depois de três meses, o casal passou a morar junto, e o envolvimento foi se aprofundando. Foi nesse processo de aproximação que os primeiros padrões começaram a se revelar — ainda que ela não soubesse nomear o que estava acontecendo.
“Ele fazia muito parte da minha vida, mas eu não era incluída na dele”, recorda a arquiteta. Essa assimetria era encoberta por uma sutileza que tornava difícil qualquer questionamento direto. Nada acontecia de forma explícita. Tudo se dava nas bordas, no que era dito e depois negado, no que era prometido e depois ignorado.
Mônica é formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES/ES), mestre em desenvolvimento regional e meio ambiente pela rede PRODEMA – UESC/BA e sócia administrativa da MF Arquitetura. Uma trajetória construída com consistência, que passou por empresas, pelo setor público e pelo ensino superior. E ainda assim, dentro de casa, a solidez que marcava sua vida profissional foi sendo corroída.
O que é gaslighting e por que ele é tão difícil de perceber
O gaslighting é uma forma de manipulação psicológica que faz a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e até sanidade. O nome vem da peça teatral britânica Gas Light (1938), em que um marido manipula a esposa para fazê-la crer que está enlouquecendo. No cotidiano de quem vive esse tipo de abuso, o mecanismo funciona de modo mais silencioso — e por isso mesmo, mais destrutivo.
“Você fala uma coisa e a pessoa diz que você não falou. Isso faz você se questionar, porque você confia muito naquela pessoa”, explica Mônica. Com a repetição, a dúvida vai se instalando. O que começou como uma situação isolada torna-se um padrão. E a vítima, ao invés de questionar o abusador, passa a questionar a si mesma.
“Quando isso se torna constante, você passa a se questionar: ‘mas será que eu falei mesmo?’ Isso me deixava desesperada, até chegar ao ponto em que eu comecei a perder a calma. Eu perdi o meu limite de autocontrole”, lembra. Os efeitos físicos também apareceram. Mônica relata episódios em que sua pressão subia e ela chegava a desmaiar — o corpo respondendo ao que a mente tentava processar.
A traição que abriu os olhos
Foi durante esse período que Mônica descobriu uma traição. O parceiro tentava encobrir os fatos com mais manipulação e mentiras — uma camada adicional sobre um relacionamento já marcado pela distorção da realidade. Paradoxalmente, foi essa descoberta que começou a devolver a ela a clareza que havia perdido.
“Cada vez que eu ia descobrindo mais coisa, mais forças eu tinha para não querer voltar”, conta. A saída não foi imediata. A fragilidade acumulada nos sete anos de violência psicológica deixou marcas que exigiram tempo e cuidado. Mas a decisão estava tomada.
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A rede de apoio como proteção real
Depois da separação, um detalhe agrava o cenário: o ex-parceiro foi morar no apartamento em frente ao dela. Nesse momento, o papel das pessoas próximas tornou-se decisivo.
“Meus amigos e minha família fizeram um bloqueio, uma proteção, um cinturão protetivo para que ele não chegasse até mim. Eu consegui me libertar da influência dele”, recorda Mônica. Há três anos, ela trabalha seu processo de recuperação emocional, com cuidado e consistência — da mesma forma metódica com que conduz seus projetos de arquitetura.
A decisão de tornar sua história pública é, segundo ela, parte desse processo. Falar sobre o que viveu não é apenas um gesto pessoal. É uma forma de informar outras mulheres sobre sinais que, sem referência, passam despercebidos.
Por que falar sobre isso ainda é necessário
O abuso psicológico não deixa marcas visíveis, o que o torna ainda mais difícil de denunciar e de ser reconhecido — tanto pela vítima quanto pelo entorno. Mônica é direta ao nomear essa realidade:
“É assim que temos que lidar. Precisamos nos proteger e proteger outras mulheres, e, com isso, tentar minimizar o impacto de pessoas maléficas na sociedade”, destaca.
A campanha CAU Mulher surge exatamente nesse contexto, ao reconhecer que dar visibilidade ao tema dentro de uma categoria profissional como a arquitetura e o urbanismo amplia o alcance da discussão. Profissionais com formação, autonomia financeira e trajetória consolidada também passam por isso. E esse dado, por si só, já desmonta qualquer narrativa que reduza o abuso em relacionamentos a uma questão de vulnerabilidade econômica ou falta de informação.
O que protege, como mostra a experiência de Mônica, é a combinação entre autoconhecimento, rede de apoio e, sobretudo, a capacidade de nomear o que está acontecendo. Reconhecer o gaslighting pelo nome já é o primeiro passo para não deixar que ele reescreva a sua história.





