Morar a poucos passos do trabalho, do mercado, do café preferido e do cinema deixou de ser um luxo para se tornar um projeto de vida. O Centro de Curitiba vem materializando essa mudança de comportamento ao atrair um perfil de morador que prioriza mobilidade, praticidade e integração urbana.
A rotina de Rafael Eugênio Domingues, 29 anos, sintetiza esse movimento. Ele trocou o deslocamento diário por caminhadas e resolveu concentrar a vida em um estúdio de 20 m². “Consigo resolver tudo morando aqui no Centro de Curitiba. Tenho todos os serviços e comércio próximos e faço tudo sem a necessidade de um veículo”, resume.
Essa lógica dialoga com uma tendência nacional de apartamentos compactos, mas, em Curitiba, ganha um elemento adicional: a combinação entre planejamento urbano histórico e revitalização estratégica.
Apartamentos compactos e o novo desenho do morar
O avanço dos estúdios e apartamentos menores no Centro não é casual. Há um claro processo de compactação das metragens, impulsionado por mudanças demográficas, novos formatos de trabalho e valorização do tempo.
“Hoje, os apartamentos compactos têm em média, entre 25 e 30 metros quadrados, no Centro de Curitiba. Há um claro processo de compactação das metragens, nos últimos anos, não só em Curitiba, mas no mercado brasileiro como um todo”, explica Guilherme Werner, sócio-consultor da Brain Inteligência Estratégia.

Os números confirmam o movimento: entre janeiro de 2023 e agosto de 2025, os 21 lançamentos residenciais na região central foram 100% compostos por unidades compactas, com mais de 4,5 mil apartamentos previstos para entrega nos próximos anos.
Não se trata apenas de reduzir espaço, mas de redesenhar prioridades. O apartamento deixa de ser o centro absoluto da vida para se tornar uma base funcional dentro de um bairro que oferece cultura, lazer, comércio, transporte e serviços públicos consolidados.
Fachada ativa: quando o prédio conversa com a rua
Outro conceito que vem marcando a transformação do Centro de Curitiba é a chamada fachada ativa. Empreendimentos como o Manhattan Tower incorporam lojas no térreo, ampliando o fluxo de pessoas e estimulando o comércio local.

Essa estratégia, defendida pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), cria uma relação direta entre o edifício e a cidade. A construção deixa de ser um bloco isolado e passa a contribuir para a vitalidade urbana, favorecendo a chamada “vigilância natural” e tornando o entorno mais dinâmico.
Na prática, isso significa mais iluminação, mais circulação e maior sensação de segurança — fatores decisivos para quem escolhe viver na região central.
Um mercado impulsionado por políticas públicas
O renascimento residencial do Centro não ocorre apenas pela iniciativa privada. O programa Curitiba de Volta ao Centro, lançado em 2025, passou a atuar diretamente na requalificação urbana, com medidas que incluem eventos culturais, revitalização de ruas, ampliação da segurança e incentivos ao retrofit.
O pacote aprovado prevê até R$ 163 milhões em investimentos até 2032, com estímulos fiscais, remissão de débitos e flexibilização de parâmetros urbanísticos. Além disso, a dispensa da exigência de vagas de estacionamento dialoga diretamente com o novo perfil de morador — jovens profissionais que utilizam transporte público e aplicativos de mobilidade.
Esse alinhamento entre planejamento urbano e mercado imobiliário reposiciona o Centro de Curitiba como território estratégico de desenvolvimento sustentável.
Primeira moradia, investimento e envelhecimento ativo
O movimento residencial no Centro reúne três perfis predominantes: investidores, jovens em busca da primeira moradia e pessoas acima de 60 anos que priorizam autonomia e mobilidade.

“A maioria dos empreendimentos é de apartamentos compactos e com três grupos de compradores: investidores, jovens que adquirem para a primeira moradia e pessoas com mais de 60 anos que preferem caminhar e viver o dia a dia do seu bairro”, avalia Carlos Eduardo Canto, presidente da Confraria Imobiliária de Curitiba.
A lógica é simples: morar perto de tudo reduz dependências, amplia convivência e valoriza o tempo. Para muitos, o bairro volta a cumprir seu papel original de comunidade.
Megaempreendimentos e nova escala urbana
Projetos como o futuro edifício de 32 andares da Hype Empreendimentos, com cerca de 750 unidades, simbolizam essa nova escala do mercado imobiliário no Centro de Curitiba. Com uso misto e galeria comercial conectando vias importantes, o empreendimento reforça o conceito de integração urbana.
“Identificamos uma oportunidade no bairro. Ou seja, uma brecha que nos permitiu criar um projeto que valoriza a história local e estabelece condições para o surgimento de uma nova dinâmica para moradores e frequentadores”, explica Nikolas Batista, diretor de incorporação da Hype.
A incorporação da história local ao desenho contemporâneo aponta para um Centro que não nega sua memória, mas a atualiza.
Morar perto de tudo como escolha consciente
Se durante décadas o ideal de moradia esteve associado a bairros afastados e condomínios fechados, o Centro de Curitiba mostra que a centralidade pode ser sinônimo de qualidade de vida.
Aliás, a infraestrutura já consolidada — museus, universidades, hospitais, comércio diversificado e transporte eficiente — reduz custos urbanos e encurta distâncias. O bairro passa a ser uma extensão da casa.
Assim, a cidade deixa de ser apenas cenário e se transforma em protagonista da experiência de morar.





