Há apartamentos que nascem para serem apenas moradia. Outros, no entanto, são concebidos como palco de encontros. Neste projeto nos Jardins, em São Paulo, um apartamento dedicado à convivência ganhou forma a partir do desejo de acolher. Mais do que reformar uma planta, o objetivo foi reconfigurar a maneira como os ambientes se relacionam — entre si e com as pessoas.
A proprietária, que vive em Portugal, buscava no Brasil um endereço que funcionasse como porto seguro sempre que retornasse ao país. O bairro, carregado de memórias afetivas, era parte essencial da escolha. Assim, o desafio foi claro desde o início: transformar 178 m² originalmente compartimentados em um espaço social amplo, fluido e generoso, capaz de receber amigos e familiares com conforto e naturalidade.
Integração como ponto de partida
O imóvel, adquirido ainda na planta, apresentava uma configuração tradicional: cozinha fechada, varanda isolada e ambientes bem delimitados. Contudo, a proposta caminhava em direção oposta. Sala, varanda e cozinha foram integradas, formando um grande living integrado contínuo, onde cozinhar, conversar e relaxar acontecem sem barreiras visuais.

Essa reorganização exigiu intervenções estruturais importantes. A antiga área de serviço foi redimensionada para abrir espaço à nova sala de jantar, agora delimitada por uma divisória leve em drywall que preserva a amplitude sem comprometer a funcionalidade.
“O grande desafio foi transformar um apartamento originalmente compartimentado em um espaço fluido e acolhedor”, explica a arquiteta Paula Neder, a frente do escritório PN+ | Arquitetos. “Era preciso equilibrar conforto e amplitude, o que exigiu modificações estruturais importantes para integrar os ambientes.”

Dessa forma, o projeto consolida uma tendência cada vez mais presente na arquitetura contemporânea: plantas flexíveis que privilegiam o convívio e eliminam excessos.
Um programa redesenhado para viver e receber
A reconfiguração também atingiu a área íntima. Um dos três dormitórios foi incorporado à suíte principal, transformando-se em closet. O resultado é um layout com duas suítes — sendo a principal mais generosa — e uma segunda de uso flexível, que pode funcionar como escritório, quarto de hóspedes ou sala de TV.

Essa multifuncionalidade responde a uma nova lógica residencial, na qual o morar não é estático. Ambientes precisam se adaptar às demandas do dia a dia, sobretudo em um apartamento pensado para receber.
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Paleta terrosa e continuidade visual
A base cromática percorre tons crus e terrosos, criando uma atmosfera sofisticada e acolhedora. O contraste com o cinza do piso e da ilha da cozinha em quartzito fosco traz equilíbrio e contemporaneidade.
O sofá, adquirido antes mesmo da definição completa do projeto, tornou-se o ponto de partida da composição.

“O sofá foi adquirido antes, e sua cor serviu como ponto de partida para a criação da parede de destaque”, conta Paula Neder. “A escolha do tom terracota nasceu do desejo de trazer presença cromática, mas sem pesar.”
Essa estratégia reforça um princípio importante no design de interiores: quando há uma peça afetiva relevante, o projeto se constrói ao redor dela. O resultado é um espaço coerente, onde cada elemento parece ter encontrado seu lugar natural.
O piso único em porcelanato de grande formato, em tom cinza-claro, percorre toda a área social. Assim, garante continuidade visual e sensação de amplitude — além de atender ao pedido da cliente por praticidade.
Marcenaria como arquitetura
Se a integração define o fluxo, a marcenaria organiza o espaço. Um grande painel revestido em folha natural de carvalho americano estrutura o living e disfarça com elegância o acesso à área íntima. Prateleiras metálicas criam um jogo delicado entre cheios e vazios, permitindo que obras de arte e objetos pessoais sejam exibidos sem sobrecarregar o ambiente.

Aliás, o projeto parte justamente dessa premissa: preservar memórias. Peças do acervo pessoal foram reintegradas ao novo layout, como as poltronas Redondo, de Patricia Urquiola, e Grand Repos, de Antonio Citterio, além da mesa de centro Teca, assinada por Jader Almeida. Essas escolhas reforçam a ideia de que um apartamento dedicado à convivência também é um espaço de identidade.
Design autoral e conforto como prioridade
Na curadoria das novas peças, o conforto orientou todas as decisões. O sofá Lona, de Baba Vacaro, a mesa de jantar Litoral, com tampo oval em pedra verde, e as cadeiras Omar ajudam a compor uma área pensada para encontros prolongados.

A mesa oval, em especial, elimina hierarquias. Diferentemente das versões retangulares, convida ao diálogo mais próximo e democrático — detalhe que, embora sutil, transforma a experiência de receber.

Na cozinha, o laminado melamínico em tom fendi reforça a neutralidade atemporal, enquanto a ilha em quartzito fosco atua como elemento de transição entre preparo e convivência. Tudo se conecta visualmente, sem rupturas bruscas.
Arte, sustentabilidade e afeto
A área social abriga ainda um tapete Eco Pad, produzido na Índia a partir de garrafas PET recicladas, além de uma composição com seis obras do artista Patrick Tomas e uma peça de Heloisa Crocco.

A presença da arte não é meramente decorativa. Ela estabelece narrativas e cria pontos de contemplação, equilibrando o desenho limpo da arquitetura com camadas de significado.
Assim, o projeto demonstra que convivência e sofisticação não são conceitos opostos. Pelo contrário: quando bem articulados, resultam em ambientes que acolhem sem abrir mão da elegância.
Um espaço pensado para permanecer
Com estilo contemporâneo e atemporal, o projeto levou cerca de um ano entre concepção, obra e finalização. Mais do que uma reforma, trata-se de uma mudança de paradigma.

Integrar, ampliar, reorganizar e dar protagonismo às memórias pessoais foram movimentos fundamentais para consolidar este apartamento transformado em espaço de convivência.
Ao final, o que se vê não é apenas um living integrado ou uma paleta harmoniosa. É uma casa preparada para encontros, conversas demoradas e retornos emocionais — exatamente como a moradora desejava.
E talvez seja esse o verdadeiro luxo da arquitetura atual: criar lugares que fazem as pessoas quererem ficar.





