O apartamento contemporâneo já não é desenhado apenas para pessoas. Ele é pensado para rotinas compartilhadas, que incluem patas, pelos, brinquedos espalhados e horários de passeio que estruturam o dia. A chamada vida imobiliária passa por uma transformação silenciosa, mas profunda: o pet deixou de ser tolerado para se tornar variável decisiva na escolha do imóvel.
Durante muito tempo, viver em apartamento era visto como limitação para ter animal. Elevador pequeno, ausência de quintal, regras rígidas de condomínio. Entretanto, a urbanização acelerada e a mudança nos modelos familiares alteraram essa equação. Hoje, o animal não entra “apesar” do imóvel; ele entra “por causa” dele.
O pet como parte da decisão imobiliária
Os números confirmam o que arquitetos e incorporadoras já percebem na prática. O Brasil abriga mais de 160 milhões de animais de estimação, superando com folga o número de crianças até 13 anos. Não se trata apenas de afeto — trata-se de comportamento urbano e de consumo estruturado.
Segundo dados do setor, o mercado pet movimentou mais de R$ 75 bilhões em 2024, com a alimentação representando mais da metade do faturamento. Para efeito de comparação, o mercado de lançamentos imobiliários ultrapassou R$ 300 bilhões em 2025. São duas cadeias econômicas robustas que, cada vez mais, se cruzam.
De acordo com levantamento da Brain Inteligência Estratégica, 26% dos compradores já priorizam infraestrutura adequada para animais na escolha do imóvel. Esse percentual não é trivial. Ele indica que a moradia pet-friendly deixou de ser diferencial para se tornar critério.
O economista e especialista em gestão urbana Fábio Tadeu Araújo observa que a presença do pet já influencia a lógica de decisão do comprador: “O animal não é mais um acessório da casa. Ele entra no cálculo do imóvel, na escolha da planta e até na disposição dos espaços.” A fala revela algo maior: o pet se tornou parte da equação de valor.
Plantas que conversam com a rotina animal
A arquitetura acompanha essa mudança. Não se trata apenas de incluir um “espaço pet” no lazer do condomínio. O impacto é mais sutil e mais estrutural.
Plantas com circulação mais fluida, varandas generosas, áreas técnicas adaptáveis para banho e pequenos nichos para armazenamento de ração e acessórios começam a aparecer com mais frequência. Além disso, pisos resistentes a riscos e de fácil limpeza — como porcelanatos acetinados e vinílicos de alta performance — ganham protagonismo.

O grande erro aqui é pensar que adaptar o apartamento ao pet significa abrir mão de estética. Pelo contrário. O que realmente faz a diferença é integrar funcionalidade ao design, sem transformar o ambiente em área improvisada.
Arquitetos têm recomendado, por exemplo, cantos de descanso integrados à marcenaria, com ventilação cruzada e iluminação natural indireta. Aliás, a incidência de sol em determinados horários deve ser analisada com cuidado, pois interfere diretamente no conforto térmico do animal.
Condomínios e a infraestrutura pet-friendly
Se antes o condomínio oferecia apenas salão de festas e piscina, agora surgem playgrounds pet, áreas de agility e estações de banho compartilhadas. Ainda assim, menos de 1% dos condomínios prontos possuem espaço formalizado para animais. Em contrapartida, 43% dos novos lançamentos já incluem essa infraestrutura.
Esse movimento revela pressão de demanda. Ele também indica que incorporadoras compreenderam algo essencial: o pet agrega valor percebido.
Além disso, a composição demográfica reforça essa tendência. Entre 2010 e 2022, os lares unipessoais cresceram significativamente, assim como casais sem filhos. Nessas configurações, o animal assume papel central na rotina afetiva. Ele é companhia, estrutura emocional e motivo de socialização urbana.
Estudos internacionais apontam benefícios emocionais associados à convivência com animais, especialmente para crianças e idosos. Embora não substituam relações humanas, os pets ajudam a estruturar rotina, estimular atividade física e reduzir sensação de solidão — fatores que influenciam diretamente a escolha da moradia urbana.
Apartamento pequeno, pet grande: mito ou erro de projeto?
Existe um equívoco recorrente de que apenas imóveis amplos comportam animais com qualidade. O problema raramente está na metragem, mas na falta de planejamento.

Um apartamento compacto pode funcionar muito bem para cães e gatos, desde que haja estímulo ambiental e rotina estruturada. Nichos verticais para gatos, varandas seguras e enriquecimento sensorial fazem mais diferença do que metros quadrados extras.
Por outro lado, é preciso responsabilidade. Espécies que demandam grande área de deslocamento exigem análise cuidadosa. Não se trata apenas de caber no espaço físico, mas de garantir qualidade de vida.
O fator emocional que ninguém calcula
Há algo que planilhas não medem: vínculo.
Fábio Tadeu Araújo resume essa transformação de forma direta: “Quando o pet entra na equação da moradia, ele altera prioridades e redefine o que é essencial no lar.” Essa redefinição é cultural. Ela fala sobre pertencimento, constância e cuidado.
Não é coincidência que histórias de espera silenciosa na porta de casa toquem tanto as pessoas. O animal não exige espetáculo, apenas presença. E talvez seja exatamente essa constância que faz com que tantos compradores considerem o pet antes de assinar contrato.
O novo perfil de lar urbano
O apartamento pet-friendly não é mais nicho. Ele representa um novo perfil de morador: urbano, conectado, muitas vezes solo ou em casal, que valoriza afeto e funcionalidade.
A vida imobiliária contemporânea não gira apenas em torno de metragem, localização e acabamento. Ela envolve rotina, circulação, acústica, ventilação e adaptação à dinâmica real da casa.
Diante disso, ignorar o pet na escolha do imóvel é ignorar parte fundamental da vida cotidiana. Portanto, a decisão de compra já não é apenas racional ou financeira — ela é também afetiva e estrutural.
No fim, o apartamento ideal não é o que parece maior. É o que funciona melhor para quem vive ali — e isso inclui, inevitavelmente, quem late, mia ou nada em silêncio no aquário da sala.





