Nem sempre um espaço precisa de ampliação para se transformar. Às vezes, o que falta é direção. No antes e depois do Ap Maiorca, assinado pela arquiteta Camila D.C. Abdul-Hak, frente ao estúdio DC55 Arquitetura, o que se vê não é apenas uma mudança estética, mas uma reconfiguração da forma de viver e conviver.
O apartamento, que antes apresentava excesso de elementos, contrastes marcantes e pouca unidade visual, tinha ambientes funcionais, porém sem identidade clara. A área social existia, mas não convidava à permanência. Havia espaço, mas faltava intenção.
Do excesso à leveza visual
Na sala, o contraste entre mobiliário escuro, tapete volumoso e painéis pesados criava uma atmosfera visualmente carregada. As cortinas mais densas e a mistura de acabamentos reforçavam essa sensação de peso. O resultado era um ambiente que cumpria sua função, mas não transmitia harmonia.

Após a intervenção, a mudança é perceptível logo no primeiro olhar. A paleta migra para tons suaves, predominando off-whites, beges e madeira clara. A marcenaria em textura natural substitui o painel anterior, criando continuidade e acolhimento. O sofá claro, de linhas retas e proporções generosas, passa a dialogar com mesas orgânicas e tapete neutro, estabelecendo uma atmosfera de calma.
Unidade e coerência na área social
Em outro ponto do apartamento, a antiga área social revelava subaproveitamento. Havia metragem, mas a disposição não favorecia o encontro. A circulação era fragmentada e a composição carecia de narrativa visual.

No novo projeto, a integração se torna protagonista. A sala de jantar ganha centralidade com mesa de desenho orgânico e cadeiras em madeira clara, criando conexão com o restante da marcenaria. Ao fundo, estante com painel perfurado adiciona textura sem sobrecarregar, enquanto o buffet em palhinha reforça o repertório natural.
A iluminação também foi repensada. Pendentes lineares e trilhos discretos organizam o foco sem competir com o mobiliário. Essa decisão técnica impacta diretamente na percepção espacial, já que a luz passa a valorizar volumes e materiais, e não apenas cumprir função utilitária.
A cozinha como ponto de encontro
No antes, a cozinha aparecia como extensão isolada, quase desconectada do restante do apartamento. Embora estivesse presente, não se integrava à dinâmica social. Com a reforma, a nova ilha com bancada arredondada transforma completamente o uso do espaço. Banquetas altas, alinhadas de maneira estratégica, estimulam conversas informais e refeições rápidas.

A escolha por acabamentos claros e textura cimentícia cria contraste sutil com a madeira, mantendo coerência estética. Esse gesto arquitetônico muda a lógica da casa. A cozinha deixa de ser bastidor e passa a ser palco de encontros. A convivência deixa de acontecer apenas na sala e se espalha naturalmente pelos ambientes.
Harmonia que se sente, não apenas se vê
Um dos aspectos mais evidentes no antes era a presença de contrastes marcantes e elementos que competiam entre si. No depois, a unidade visual é construída por repetição de materiais e alinhamento cromático As cortinas claras ampliam a entrada de luz natural e criam sensação de continuidade nas paredes. A escolha por tecidos leves suaviza a atmosfera e reforça a ideia de descanso.

Até mesmo os objetos decorativos seguem uma curadoria contida, evitando excessos. O resultado é um apartamento que transmite harmonia, calma e descanso, sem abrir mão da funcionalidade. Não há ruptura drástica de layout estrutural, mas há uma transformação profunda na experiência cotidiana.
Uma nova forma de viver em casa
O que o Ap Maiorca revela é que arquitetura vai além de estética. Ao redesenhar cada ambiente de acordo com as necessidades reais dos moradores, a DC55 Arquitetura reprogramou a casa para a vida contemporânea — mais integrada, mais leve e mais voltada ao convívio.
Áreas antes pouco utilizadas ganharam propósito. Espaços que existiam apenas como passagem se tornaram pontos de encontro. E a casa, que antes era apenas funcional, passou a acolher.
A grande transformação, portanto, não está apenas nas cores claras ou na madeira natural, mas na maneira como o projeto organiza relações. Afinal, quando o espaço favorece a convivência, a arquitetura deixa de ser cenário e passa a ser parte ativa da rotina.





