O fotógrafo peruano Musuk Nolte é o vencedor da edição inaugural do prêmio “Through Southern Lenses: Science in Focus”, lançado pela Fundação Conrado Wessel (FCW) em parceria com a Academia Mundial de Ciências (TWAS). O anúncio encerra uma competição que reuniu trabalhos de 26 países, distribuídos por quatro continentes — e que desde o início deixou claro que sua ambição ia além do reconhecimento estético. A premiação busca unir fotografia documental e ciência, com foco nos países do Sul Global.
Nolte foi escolhido por um júri internacional pelo ensaio “Planting Water” — expressão que, traduzida literalmente, significa “plantar água”. O prêmio inclui US$ 20 mil e uma cerimônia prevista para maio, na Embaixada do Brasil em Roma.
Um projeto de longo prazo sobre água e território
O trabalho de Nolte não nasceu para um concurso. É parte de um projeto fotográfico de longo prazo dedicado aos sistemas hídricos da América do Sul e à crise da água impulsionada pelas mudanças climáticas, com foco específico nos Andes e na Amazônia. Ao longo dos anos, ele vem documentando os impactos de secas e enchentes severas sobre comunidades locais — populações que vivem na linha de frente das transformações climáticas, mas raramente ocupam o centro das narrativas visuais globais.
É exatamente esse deslocamento de perspectiva que torna o ensaio relevante. Não se trata de registrar o desastre à distância. Trata-se de mostrar o que as próprias comunidades fazem diante dele.
O que significa “plantar água”
Durante a estação chuvosa nos Andes peruanos, comunidades da região de Cusco revitalizaram uma prática ancestral que existe há séculos: a técnica de “plantar água”, que consiste em coletar a chuva em poços estrategicamente posicionados para que a água infiltre no subsolo lentamente — e possa ser recuperada e utilizada durante os meses de estação seca, quando os recursos hídricos escasseiam.
A prática, que sobreviveu ao tempo por sua eficiência, hoje é complementada pelo plantio do queñual, arbusto nativo da região andina com capacidade comprovada de melhorar a infiltração de água nos solos de altitude. Além disso, incorpora técnicas contemporâneas de adaptação de sementes, criando uma ponte entre o conhecimento milenar das comunidades locais e a ciência moderna de gestão hídrica.
Essa combinação, de ancestralidade e contemporaneidade funcionando em paralelo, não em oposição — é o coração do ensaio. E é também o que o coloca em diálogo direto com debates atuais sobre paisagismo sustentável, biofilia, gestão de águas pluviais em projetos e a crescente valorização de soluções baseadas na natureza dentro da arquitetura e do urbanismo.
A cerimônia de entrega do prêmio acontece em maio, em Roma. O ensaio “Planting Water” segue disponível para consulta e já circula entre festivais e espaços dedicados à fotografia documental e ambiental.






