Quando um imóvel preserva intacta a planta original da década de 1970, o desafio deixa de ser apenas estético. É preciso repensar a lógica do espaço desde a fundação, compreender como os moradores vivem hoje e, sobretudo, como pretendem viver nos próximos anos. Foi exatamente esse o ponto de partida do escritório Ju Bortolotto Arquitetura para a transformação deste apartamento de 240 m² no Morumbi, em São Paulo, entregue a um casal sênior que buscava uma morada mais ampla, funcional e verdadeiramente adaptada às suas necessidades atuais.
O imóvel chegou ao projeto sem qualquer atualização relevante. Décadas de uso haviam consolidado uma distribuição de cômodos que já não fazia sentido para o modo de vida do casal, e a solução passou por um retrofit completo, aquele tipo de intervenção que vai muito além do acabamento e toca na estrutura da planta.
Uma nova lógica para a planta
A reconfiguração do layout foi cirúrgica e, ao mesmo tempo, corajosa. Os quartos de serviço foram integrados à área social, liberando espaço para a criação de um atelier de artes manuais um cômodo que, para esta cliente, não era um luxo, mas uma necessidade real do cotidiano.

Essa decisão por si só diz muito sobre a qualidade do processo projetual: entender o que o morador de fato precisa antes de resolver o que parece óbvio.
A suíte master também foi ampliada, incorporando um antigo banheiro à planta do dormitório. O resultado é uma área íntima com proporções que dialogam melhor com o uso diário de um casal que passa boa parte do tempo em casa, Aliás, o que mais chama atenção no layout integrado é a fluidez entre os ambientes sociais.

Salas de estar, TV e jantar se conectam ao atelier de forma natural, mas com a possibilidade de isolamento total por meio de elegantes portas de correr em muxarabi, elemento que, além da função prática, adiciona uma camada de sofisticação visual ao projeto. O muxarabi, originário da arquitetura árabe e muito presente na arquitetura brasileira colonial, aqui aparece reinterpretado com refinamento contemporâneo, filtrando luz e delimitando espaços sem criar barreiras pesadas.
Ergonomia como critério de projeto
Um dos diferenciais mais técnicos desta reforma é o tratamento dado à marcenaria e aos estofados. Como os moradores são altos, o escritório Ju Bortolotto Arquitetura desenvolveu peças com alturas e densidades personalizadas, priorizando a ergonomia tanto para o uso cotidiano quanto para o recebimento de visitas. Esse é um cuidado que poucos projetos explicitam, mas que faz diferença concreta na experiência de habitar.

O grande erro em projetos para casais sêniores é replicar os padrões industriais sem questionar. Bancadas a 90 cm de altura, sofás com assentos baixos e demais padrões de mercado são definidos para uma média que raramente corresponde à realidade de quem vai morar ali. Aqui, cada móvel foi pensado como resposta ao corpo de quem o usa.
Esse raciocínio se estende ao quarto dos netos, planejado com marcenaria inteligente capaz de acomodar toda a família em momentos de visita. O cômodo funciona como um espaço versátil, compacto no dia a dia e generoso quando precisa ser.

Além disso, um escritório dedicado ao home office completa a área íntima, respondendo a uma demanda que, depois de 2020, se tornou permanente em grande parte dos lares brasileiros.
Cores, Feng Shui e a identidade visual do projeto
Esteticamente, o projeto do escritório Ju Bortolotto Arquitetura é guiado por uma paleta de tons suaves e alegres, definida com base nos preceitos do Feng Shui, técnica dominada pela própria cliente e que influenciou diretamente a escolha cromática de cada ambiente.

Não se trata de uma estética imposta pelo arquiteto, mas de uma linguagem compartilhada entre projeto e moradora, o que confere ao resultado uma coerência difícil de fabricar artificialmente.
Dessa forma, as cores não funcionam apenas como escolha decorativa, mas como intenção. Cada tonalidade carrega uma função energética dentro da filosofia do Feng Shui, e o escritório soube traduzir esse repertório em decisões concretas de acabamento sem transformar o apartamento em um cenário temático.

A cozinha em azul vibrante é o exemplo mais imediato dessa coragem cromática. Longe do cinza neutro que domina grande parte das cozinhas contemporâneas brasileiras, o azul escolhido aqui ancora o ambiente com personalidade sem comprometer a funcionalidade. Aliás, o nicho de granito embutido no móvel da TV é outra solução que equilibra o mesmo princípio: a beleza do material natural em diálogo direto com a marcenaria planejada, sem hierarquia entre os dois.






