Existe uma ordem lógica em projetos compactos que muitos ignoram: antes de definir cores, marcenaria ou iluminação, é preciso entender o que o espaço pode oferecer de fato. Neste studio de 27 m² localizado no bairro Perdizes, em São Paulo, o escritório ResiliArt Arquitetura partiu exatamente desse princípio.
O apartamento foi planejado para funcionar dentro do sistema de locação de curto prazo, o que impõe uma camada extra de exigência ao projeto: o espaço precisa ser confortável o suficiente para uma moradia prolongada e, ao mesmo tempo, funcional e visualmente limpo para atrair locatários. Atender às duas condições em menos de 30 metros quadrados não é tarefa simples.
A primeira decisão e a mais impactante, foi a retirada da esquadria que separava o interior da sacada. “A decisão de conectar a sacada com o restante do estúdio mudou completamente a leitura do espaço e resultou no fechamento de vidro na varanda”, explica a arquiteta Natália de Souza, diretora do escritório. Com isso, o apartamento passou a respirar de outra forma: a luz natural avançou para dentro, o perímetro visual se ampliou e a sacada deixou de ser um apêndice para se tornar parte da circulação diária.
“O apartamento deixou de ter limites tão marcados para funcionar de uma forma mais contínua, leve e eficiente”, complementa Natália.
A paleta que trabalha a favor do espaço, não contra ele
Com a integração resolvida, a definição cromática seguiu uma lógica direta. Em ambientes compactos, cores intensas nas paredes competem com o mobiliário, reduzem a percepção de profundidade e tornam o espaço visualmente mais pesado ao longo do dia. O projeto optou por uma base neutra com o Ouro Branco da Suvinil e o Cinza Fumaça da Coral, dois tons que captam bem a luz natural e funcionam como pano de fundo para os materiais aplicados.
A marcenaria acompanhou essa escolha: o carvalho Batur e o off-white suave, ambos da Duratex, dialogam com os acabamentos entregues pela construtora, o granito branco Itaúnas na bancada e o piso de porcelanato amadeirado. O resultado é uma leitura contínua, sem quebras visuais desnecessárias entre os elementos fixos e o mobiliário.
O único contraste foi aplicado com precisão. A parede em formato de “L” no setor do dormitório recebeu pintura em azul acinzentado, que delimita visualmente a área de descanso sem precisar de divisórias físicas. Em um studio, essa separação psicológica entre os ambientes é tão importante quanto a separação funcional.
“Sem contar o match com cores de baixa saturação como azul, cinza, verde e amarelo, entre outras possibilidades”, destaca Natália sobre a versatilidade da base neutra escolhida.
Marcenaria contínua: o que realmente garante conforto em 27 m²
O grande erro em studios compactos é tentar resolver o mobiliário com peças soltas ou planejadas de catálogo. A arquiteta Gabrielle Ravaneli, também responsável pelo projeto, é direta sobre o assunto: “Em studios como esse, de 27 m², fica complicadíssimo pensar em um mobiliário solto ou planejado. Para que uma pessoa more confortavelmente, é preciso entregar comodidade e espaço para acomodar suas coisas.”
A marcenaria sob medida resolveu simultaneamente a cozinha, o guarda-roupa e o espaço de home office. A mesa com dois lugares, integrada ao conjunto, serve tanto para refeições quanto para trabalho — sem ocupar área adicional. Essa execução contínua, sem interrupções visuais entre os módulos, é o que mantém a atmosfera de leveza mesmo quando o ambiente está em uso pleno.
Aliás, o banheiro seguiu a mesma lógica: a marcenaria se tornou o elemento de cor do ambiente, introduzindo personalidade sem recorrer a revestimentos complexos.
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Iluminação de trilhos: a solução que dispensou obra civil
A iluminação de um studio compacto tem duas funções simultâneas: criar atmosfera e garantir funcionalidade para atividades distintas no mesmo ambiente. Neste projeto, a resposta foi a iluminação de trilhos aparentes, que percorre desde a entrada do studio e eliminou a necessidade de um forro rebaixado.
“Além de não demandar obra civil, ainda preservamos o pé-direito”, argumenta Gabrielle Ravaneli. Em apartamentos com altura padrão, essa preservação faz diferença concreta na sensação de amplitude.
Na cozinha, a luz indireta sobre a bancada resolve um detalhe que projetos compactos costumam negligenciar: a iluminação de trabalho. “A luz indireta propicia um plano luminoso contínuo sobre a bancada, facilitando o uso no dia a dia e destacando texturas e acabamentos com sutileza”, detalha a arquiteta, que aplicou o mesmo recurso na prateleira acima da TV.
No hall de entrada, um dos pontos mais ignorados em studios, um espelho orgânico posicionado ao lado da porta do banheiro cumpre dupla função: amplia visualmente o corredor e oferece ao morador um ponto de checagem antes de sair. É o tipo de detalhe que não aparece no projeto executivo, mas que define a experiência de quem vive no espaço.
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