Nem sempre ampliar um apartamento significa adicionar metros quadrados. Em muitos casos, o verdadeiro salto de qualidade está em rever a lógica da planta, libertar a circulação e permitir que os ambientes acompanhem o ritmo da vida contemporânea. Foi exatamente esse o ponto de partida da reforma de apartamento assinada pelo BRIC Arquitetura, que transformou uma tipologia antiga e compartimentada em um lar amplo, fluido e pensado para a convivência familiar.
Logo no início do projeto, a equipe optou por uma redistribuição radical dos espaços. A nova configuração permitiu a criação de três banheiros completos, uma cozinha integrada à sala e uma área de serviço generosa, que vai além da função prática ao incorporar soluções de “gatificação” e até um banheiro exclusivo para os felinos da casa. Assim, cada decisão reforça a ideia de que funcionalidade e afeto podem — e devem — coexistir.
Circulação livre como premissa de conforto
O conceito que guia toda a reforma é claro: a vida acontece nos vazios. Em vez de priorizar corredores rígidos ou divisões estanques, o projeto valoriza áreas abertas, contínuas e multifuncionais. O chão livre, por exemplo, torna-se palco das brincadeiras das crianças, reforçando a noção de que o conforto doméstico não está apenas nos móveis, mas na possibilidade de apropriação do espaço.

Dessa forma, a integração entre sala e cozinha não é apenas estética, mas comportamental. A ausência de barreiras visuais amplia a sensação de espaço e estimula a convivência cotidiana, permitindo que diferentes atividades aconteçam de forma simultânea, porém conectada.
Um lar que acompanha a infância — sem abrir mão da sofisticação

Pensado como o cenário de crescimento das filhas do casal, o apartamento equilibra delicadamente o lúdico e o sofisticado. No quarto infantil, o papel de parede petit bric (desenhado pelo próprio escritório) dialoga com as camas montessorianas, incentivando autonomia e liberdade desde cedo. Tudo é pensado para estimular a experiência das crianças sem recorrer a soluções óbvias ou excessivamente temáticas.

Já na suíte principal, a proposta muda de tom, mas não de intenção. Uma claraboia inunda de luz natural o espaço que abriga closet e biblioteca, criando um ambiente híbrido, silencioso e introspectivo. Aqui, a reforma de apartamento revela seu caráter mais sensível: adaptar-se aos diferentes momentos da vida sem perder unidade visual.
Materiais honestos e texturas que contam histórias
A escolha da paleta privilegia o branco e os materiais crus, criando uma base neutra que valoriza texturas e detalhes construtivos. Um dos elementos mais emblemáticos é o rodapé listrado, feito com tacos reaproveitados, que imprime identidade ao espaço ao mesmo tempo em que carrega memória e sustentabilidade.

Outro destaque é a divisória de tijolinhos entre sala e cozinha, que mimetiza um cobogó contemporâneo. Além de permitir a passagem de luz e ventilação, o elemento funciona como um filtro visual sutil, reforçando a fluidez sem eliminar a sensação de acolhimento.
Decoração como extensão da identidade dos moradores
A decoração surge como uma narrativa afetiva e profundamente brasileira. Redes, cadeiras de balanço e móveis de acervo convivem com peças de design assinado, criando um equilíbrio natural entre passado e presente. O ambiente ganha camadas com nomes consagrados do design nacional, sem perder a informalidade necessária a um lar pensado para ser vivido intensamente.

A curadoria artística arremata o projeto com precisão. Tapeçarias da Apara Studio, cerâmicas de Hanna Englund e Maria Alice Salgado, além de obras naïf e uma escultura metálica de girafa assinada por Marcos Scorzelli, reforçam a atmosfera autoral do apartamento. Mais do que decorar, essas peças contam histórias e ajudam a construir um espaço que reflete quem mora ali.
“Acreditamos que a casa deve oferecer vazios generosos, porque é neles que a vida realmente acontece”, destacam os arquitetos do escritório em relação ao conceito central do projeto.
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Uma reforma que traduz o morar contemporâneo
Ao final, esta reforma de apartamento demonstra que morar bem não está ligado ao excesso de elementos, mas à inteligência espacial, à fluidez e à capacidade do projeto de acolher diferentes rotinas. Ao transformar uma planta rígida em um lar aberto, afetivo e funcional, o escritório propõe uma nova leitura sobre conforto contemporâneo — mais livre, mais humano e profundamente conectado à vida real.

“Quando o espaço permite apropriação, ele deixa de ser apenas cenário e passa a ser parte ativa do cotidiano”, resume a equipe do BRIC Arquitetura, sintetizando a essência de um projeto que coloca as pessoas no centro do morar.





