Planejar uma reforma é, também, planejar o futuro. Por isso, cada escolha feita hoje, desde o revestimento da parede, do tecido do sofá, ao tipo de iluminação, vai continuar ali por anos. E é justamente nesse ponto que muita gente erra: deixa o Pinterest, o Instagram ou outras referências decidir e esquece de perguntar se aquela referência vai continuar bonita em uma década.
A diferença entre um elemento atemporal e uma modinha na decoração não está no preço, nem no estilo, mas sim na origem da escolha. O mercado de decoração tem um mecanismo bem claro: ele precisa que você continue consumindo. Assim, a cada temporada, surgem novos materiais, novos acabamentos, novas paletas. Alguns resistem, já outros somem tão rápido quanto chegaram.
A designer de interiores e especialista em gerenciamento de obras Ândrea Fricks tem uma visão muito direta sobre esse assunto, e é ela quem guia essa análise.
Sobre o especialista
Ândrea Fricks, é designer de interiores e conhecida por seu trabalho voltado para o gerenciamento de obras e decorações inteligentes.
Tecido buclê
O tecido buclê, aquele com textura aveludada e aparência atoalhada, tomou conta dos sofás, poltronas de varanda e cabeceiras de cama nos últimos anos. É um material com apelo visual real, sem dúvida. Mas, segundo Ândrea Fricks, ele entra diretamente na lista das modinhas.

“Tecido buclê, no sofá, na poltrona da varanda, na cabeceira da cama… Daqui a cinco anos ninguém mais vai falar, vai comprar, não vai tá caro do jeito que está nesse momento, porque, na verdade, dentro da arquitetura, o ideal pro mercado é que o seu desejo não acabe nunca, pra te manter um consumidor, pra te manter sempre querendo uma coisa diferente. Então, na hora de escolher um tecido, se eu fosse você, não escolhia um tecido modinha.”
O grande erro aqui é aplicar uma textura de tendência em peças estruturais do ambiente (aquelas que custam caro, são difíceis de trocar e ficam em evidência o tempo todo). Um sofá em linho, veludo ou couro natural dura muito mais como escolha estética. Se quiser experimentar o buclê, faça isso em peças de apoio, como almofadas ou uma poltrona secundária. Assim, quando a moda passar, a troca é simples e o custo, controlado.
Cimento queimado
O cimento queimado é um dos exemplos mais interessantes quando se fala em atemporalidade na decoração. Surgiu como tendência, foi adotado em massa e, mesmo assim, não envelheceu. Contudo, Ândrea classifica sem hesitar: é atemporal!

“Cimento queimado é atemporal, apesar de ele ter surgido numa onda de tendência. A gente faz cimento queimado há quinze anos. O que o mercado trouxe? Facilidades pra esse cimento queimado: tintas prontas que parecem cimento queimado. Se você fizer um apartamento, sua casa, com as paredes ou algumas paredes ou uma parede daqui a dez anos, você ainda vai tá feliz.”
O cimento queimado funciona porque tem uma estética que dialoga com diferentes estilos, do industrial ao contemporâneo, do minimalista ao rústico. Além disso, o mercado evoluiu e hoje oferece versões em tinta e microcimento, que facilitam a aplicação e ampliam as possibilidades de uso, inclusive em paredes e bancadas. Ele não é uma aposta arriscada.
Painel ripado
Poucos elementos estiveram tão presentes nos projetos residenciais brasileiros nos últimos anos quanto o painel ripado. Salas, quartos, cozinhas e lavabos, as ripas de madeira apareceram em praticamente todos os ambientes. Isso criou uma percepção de esgotamento, mas Ândrea defende que o ripado ainda tem muito a oferecer, com uma condição importante.

“Painéis ripados se tornaram tão corriqueiros, tão comuns, a gente vê o tempo todo em todas as casas, em todas as referências, que a gente podia chamar de modinha. Mas, contrariando muitos de vocês, eu vou colocar ele na casinha do atemporal. Se você souber dosar, se você souber entregar equilíbrio, se não tiver em todas as suas paredes da casa, o painel ripado vai continuar sendo um elemento bacana, utilizável, bonito, por muitos e muitos anos. Veio pra ficar.”
O que realmente faz a diferença é a contenção. Um único painel ripado como elemento de destaque, seja na parede da TV, na cabeceira da cama ou separando ambientes, funciona com elegância. O problema surge quando ele domina o projeto inteiro. Nesse caso, o efeito é de excesso, e o ambiente envelhece muito mais rápido. A madeira em formato de ripa tem uma relação orgânica com o interior que justifica sua permanência — desde que aplicada com critério.
LED em tudo
O LED é, sem discussão, uma das maiores revoluções na iluminação residencial. Custo acessível, eficiência energética, variedade de temperaturas de cor, tudo isso faz dele um recurso legítimo e funcional. O erro não é usar LED. O erro é usar LED em todo lugar, ao mesmo tempo, sem propósito.

“Leds na tabica, rodapé, LED atrás do armário, LED dentro da cristaleira, LED atrás das prateleiras… O LED é uma revolução, sem dúvida nenhuma. O LED é um grande parceiro na reforma, ele tem um custo baixo hoje, ele hoje já tem 110, ou seja, não precisando daquele transformador, e dá um charme mesmo pra casa, porém não dá pra gente colocar LED em tudo quanto é buraco que a gente vê, em tudo que é espaço que a gente tem. Então, eu vou colocar ele na modinha, mas entendam que é o excesso de LED que é modinha, porque o LED óbvio, ele é um recurso atemporal.”
A iluminação em camadas, que combina pontos de luz focais, iluminação indireta e luz ambiente, é a abordagem certa. O LED é um recurso dentro dessa estratégia, não a estratégia em si. Aplicado em nichos específicos, dentro de cristaleiras para valorizar louças ou em prateleiras de leitura para criar profundidade, ele funciona muito bem. Quando se transforma em fita decorativa colada em todo rodapé e atrás de todo móvel, o resultado é um ambiente que parece cenário de festa, e não um lar.
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Cozinha aberta
A cozinha aberta, com ou sem ilha, é talvez o elemento mais consolidado desta lista. A integração de ambientes deixou de ser tendência há anos e ela é, hoje, um partido arquitetônico que reflete uma mudança real no modo de viver. Cozinhar com a família, receber amigos sem isolamento, ampliar a percepção de espaço: tudo isso justifica a escolha de forma funcional, não apenas estética.

“Cozinha aberta com ou sem ilha… Atemporal. Isso não vai acabar. Daqui a quinhentos mil anos, a sua casa ainda vai estar numa tendência que é da integração dos espaços, que é de menos paredes, de cômodos menos isolados.”, complementar Ândrea.
A planta aberta também valoriza o imóvel. Do ponto de vista do mercado imobiliário, ambientes integrados são percebidos como mais amplos e modernos, independentemente do período em que forem avaliados. O investimento em demolição de paredes, nivelamento de pisos e integração de sala e cozinha é, portanto, uma das apostas mais seguras que uma reforma pode oferecer.
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