Todos nós, em algum momento da vida (ou mesmo agora) já sentimos um cansaço inexplicável ao passar muito tempo em determinado ambiente, mesmo sendo agradável esteticamente. Isso acontece porque nem sempre o desconforto é perceptível aos olhos.
Para a arquiteta Mariana Meneghisso, à frente da Meneghisso & Pasquotto Arquitetura ao lado de Alexandre Pasquotto, as razões para esse mal estar pode estar, justamente, nos detalhes que não são percebidos e esse essa compreensão é o ponto de partida para compreender o que é a Geobiologia.
“A casa conversa com o corpo o tempo todo e, mesmo quando não percebemos conscientemente, ela é capaz de nutrir ou drenar nossa energia”, afirma.
É a partir desse olhar que a profissional apresenta a temática que engloba forças invisíveis do solo, radiações naturais e campos eletromagnéticos para que a arquitetura possa focar diretamente na saúde e no comodidade, antes mesmo da construção física.
O terreno não é neutro
A Geobiologia parte de um princípio fundamental: o local onde se constrói carrega histórias, registros e fenômenos naturais que influenciam diretamente a vida humana. “Um terreno apresenta veios de água subterrâneos, cruzamentos telúricos e diferentes tipos de radiações naturais. Essas forças interagem com o organismo e moldam a experiência de habitar”, explica Mariana.
Ainda pouco difundida no Brasil, a área investiga as interações entre os seres vivos e as forças sutis da Terra. Quando aplicada à arquitetura, transforma o processo projetual em uma investigação de origem, ou seja, antes mesmo do primeiro traço de desenho, o olhar geobiológico observa o solo, identifica interferências e busca compreender como a construção pode dialogar com aquele campo energético específico.
“A casa deixa de ser apenas um exercício estético ou funcional e passa a ser uma morada viva, alinhada ao corpo humano”, diz.
Quando a casa está desalinhada
Ao integrar os princípios da Geobiologia ao repertório da Neuroarquitetura, campo que estuda como luz, cores, formas e proporções influenciam comportamento e as emoções, surge um novo paradigma, pois se o visível já impacta emoções e ações, o invisível também atua de forma profunda e contínua. Mas como isso se manifesta no dia a dia?
Segundo Mariana, os sinais podem ser sutis, mas cumulativos, como o aparecimento daquela insônia persistente mesmo em um quarto confortável, sensação de exaustão ao acordar, dificuldade de concentração no home office, irritabilidade sem causa aparente, dores de cabeça frequentes em determinados ambientes da casa ou até resistência inconsciente em permanecer em um espaço específico.
“Às vezes o morador evita naturalmente ficar na sala, sente que o quarto não acolhe ou que a cozinha gera tensão. São indícios de que algo ali está desalinhado seja por distúrbios telúricos, sobreposição de campos eletromagnéticos ou pelo uso de materiais inadequados”, esclarece.
As causas podem ser camas posicionadas sobre veios de água subterrâneos, berços instalados em pontos de cruzamento energético, mesas de trabalho sob vigas com forte interferência eletromagnética ou áreas de descanso próximas a quadros elétricos. Esses são exemplos recorrentes encontrados em avaliações geobiológicas.
Nesse contexto, surge a chamada ‘acupuntura do habitat’, que nada mais é que intervenções pontuais, como o uso estratégico de cristais e minerais para reorganizar fluxos energéticos e neutralizar radiações nocivas. Esses pequenos ajustes podem provocar mudanças significativas na qualidade do sono e na vitalidade dos moradores.
Materiais que respiram X Materiais que intoxicam
Com todo esse novo olhar, o design de interiores também passa a ser visto sob outra perspectiva. Os materiais e acabamentos passam a ser escolhidos sob uma lógica de saúde ambiental.
“Evitamos pisos que impeçam a respiração do solo, superfícies que concentram radioatividade natural e tintas ou móveis que liberam compostos tóxicos silenciosamente no organismo”, alerta a profissional que faz dupla com o arquiteto Alexandre Pasquotto no escritório Meneghisso & Pasquotto.
Entre os materiais considerados problemáticos estão tintas com alto teor de VOC (compostos orgânicos voláteis), móveis com excesso de formaldeído, MDF de baixa qualidade, carpetes sintéticos que acumulam ácaros e eletricidade estática, pisos vinílicos com plastificantes tóxicos e revestimentos que criam barreiras impermeáveis sobre o solo.
Em contrapartida, ganham destaques tintas minerais ou sem compostos voláteis, madeira maciça certificada, mobiliário com colas atóxicas, tecidos naturais como linho e algodão, argamassas à base de cal, cerâmicas naturais e pisos mais permeáveis que permitem trocas equilibradas com o terreno.
“É simples: o que envolve o corpo diariamente precisa colaborar com ele e não sobrecarregar”, resume.
Ajustes possíveis
Outro ponto de atenção são os campos eletromagnéticos artificiais como roteadores, televisores, cabeceiras com tomadas embutidas, extensões sob a cama e quadros elétricos próximos a áreas de descanso e eletrodomésticos, sempre concentrados em determinados pontos. Quando somados às radiações naturais do solo, esses elementos intensificam a sobrecarga do organismo.
“Reorganizar aparelhos, evitar sua presença em áreas de descanso e, sempre que possível, desligá-los à noite, já gera mudanças perceptíveis no bem-estar”, sugere Mariana.
Outras medidas incluem priorizar conexões cabeadas em vez de Wi-Fi em áreas de trabalho, afastar a cabeceira da cama de paredes com grande carga elétrica, revisar aterramentos, redistribuir circuitos e evitar o acúmulo de equipamentos eletrônicos no quarto.
Dentro da casa, ajustes simples costumam provocar mudanças profundas. O reposicionamento da cama é frequentemente o primeiro passo, enquanto que na cozinha, equilibrar o fluxo entre água, fogo e circulação melhora não apenas a funcionalidade, mas a sensação de harmonia. Na sala, liberar o centro e garantir fluidez nos acessos favorece encontros mais leves e convivência mais orgânica.
Harmonizar é respeitar o lugar
Para Mariana Meneghisso, toda harmonização começa no reconhecimento das forças do terreno. “A arquitetura deve minimizar impactos e criar alinhamento entre construção, lugar e moradores”.
Mais do que tendência, trata-se de resgatar uma escuta. Assim como os povos antigos observavam a vitalidade do solo antes de erguer suas casas e hoje, mesmo com as novas tecnologias, a sensibilidade ao lugar nem sempre acompanhou esse ritmo.
“Não se trata de misticismo, trata-se de saúde. Projetar é mediar forças e quando essa mediação é consciente, a casa deixa de ser apenas cenário e passa a ser aliada ativa da vida”, finaliza.
