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Home Arquitetura e Projetos

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana

Concreto branco, móveis de Tenreiro e Sergio Rodrigues e verde tropical marcam reforma radical no Rio de Janeiro

Autor: Cláudio Filla
1 de maio de 2026
in Arquitetura e Projetos
Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana

A decisão mais radical veio antes mesmo do primeiro traço no papel. Caio Oliveira, executivo de tecnologia, queria transformar sua cobertura linear de 97 m² em Copacabana numa grande varanda. Não era uma metáfora, era um pedido literal. Mariana Maria Portillo e Pedro Pantoja, do escritório Bric Arquitetura, entenderam o recado e fizeram o que poucos ousam: derrubaram todas as paredes internas.

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O resultado é um espaço onde a linha que separa dentro e fora simplesmente desaparece. As portas de vidro se recolhem nas laterais, o piso de cimento branco atravessa terraço e sala sem interrupção, e o verde do paisagismo tropical de Pedro Rabelais invade todos os cantos. Essa é uma cobertura que respira, literalmente.

Sobre o especialista

Pedro Pantoja, suas obras costumam destacar a luz natural, o uso de materiais como madeira (especialmente o freijó), concreto e um mix de design brasileiro com peças vintage e faz parte do elenco da CASACOR Rio de Janeiro

Cimento branco como statement arquitetônico

Quanto ao uso do concreto branco, Pedro Pantoja conta que tem experiência com esse material e decidiu explorar seu potencial máximo. A bancada da cozinha integrada foi executada em cimento branco, assim como todo o piso do apartamento, que ganhou inserções retangulares de mármore Navona criando um padrão geométrico sutil.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
Foto: Fran Parente/Divulgação | Projeto do escritório Bric Arquitetura

“Gostamos de reverenciar grandes mestres que vieram antes de nós”, diz Pantoja ao explicar a referência ao arquiteto italiano Carlo Scarpa, conhecido por suas composições em concreto e pedra que dialogam com a passagem do tempo e a textura dos materiais.

O cimento branco reflete a luz carioca de forma única, amplifica a sensação de amplitude e mantém os ambientes frescos mesmo nos dias mais quentes. Essa decisão de material cria uma base neutra sofisticada, mas exige cuidado na manutenção. O cimento, mesmo quando bem selado, pode manchar se exposto a líquidos ácidos. Aliás, a limpeza deve ser feita apenas com produtos neutros e pano úmido, nada de produtos abrasivos que comprometam a impermeabilização.

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Planta livre como escolha de vida

Derrubar paredes não é novidade na arquitetura contemporânea, mas fazer isso em 97 m² e conseguir funcionalidade total é outro nível. A dupla do Bric Arquitetura desenhou uma nova configuração que manteve apenas dois quartos e abriu todo o restante. A cozinha se integra à sala sem nenhuma barreira física, e o terraço funciona como extensão natural desse estar.

“Derrubamos todas as paredes e demos uma nova configuração ao apartamento, que exibe elementos diferenciados”, resume Pedro Pantoja. Mas o grande truque está nas portas de vidro de correr que, quando abertas e recolhidas, somem completamente da vista. Esse recurso transforma o apartamento em um único volume, onde a ventilação cruzada flui livremente e a vista para o verde do paisagismo se torna permanente.

Para quem tem medo de perder privacidade acústica, vale lembrar que a cobertura conta com sistema de sonorização integrada em todos os ambientes. Caio pode ouvir sua playlist de MPB, jazz e soul sem precisar de caixas aparentes, mantendo a estética limpa.

Paisagismo tropical que invade os espaços

O trabalho de Pedro Rabelais no terraço não é apenas decorativo, ele é estrutural para o conceito da cobertura. Espécies tropicais de diferentes alturas criam camadas de verde que chegam até as janelas redondas do banheiro, onde uma sauna foi instalada dentro do boxe.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
 Foto: Fran Parente/Divulgação

Essa janela circular não é só charme, é um recurso de conexão visual que traz o exterior para dentro de um dos ambientes mais privados do imóvel. No terraço, além da vegetação exuberante, há uma bancada de apoio com churrasqueira e uma banheira de hidromassagem estrategicamente posicionada para a vista.

A escolha das plantas levou em conta a exposição solar intensa de Copacabana e a necessidade de espécies que criassem sombra sem bloquear a ventilação.

Mobiliário modernista como pontuação visual

Com uma base tão neutra, variando entre tons de branco, off-white e cimento, o mobiliário assume o papel de trazer personalidade. Caio apostou em clássicos do design modernista brasileiro: peças de Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e até uma criação do suíço Willy Guhl, conhecido por suas cadeiras de fibrocimento que dialogam perfeitamente com a materialidade do projeto.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana

O grande sofá da sala quebra a clareza geral com seu tom terroso. Foi uma exigência do morador, que não queria um ambiente completamente monocromático. “De certo modo, a paleta usada no apartamento é a mesma do meu guarda-roupa nesse momento, em que busco paz”, revela Caio. Essa sinceridade entre estilo de vida e decoração é rara — e quando acontece, o resultado é um lar que parece ter sido habitado desde sempre.

Os móveis de madeira maciça trazem peso visual suficiente para equilibrar a leveza do cimento e do vidro. Além disso, peças assinadas mantêm valor ao longo do tempo, tanto financeiro quanto emocional.

Banheiro com sauna e conexão visual

O banheiro da suíte principal merece atenção especial e dentro do boxe, foi instalada uma sauna, algo que Caio usa regularmente. A janela redonda posicionada na altura dos olhos cria uma moldura para o paisagismo externo, transformando o banho em uma experiência contemplativa.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
 Foto: Fran Parente/Divulgação

Essa solução resolve um problema comum em apartamentos urbanos: a falta de conexão com o exterior nos ambientes molhados. Aqui, mesmo no momento mais privado, o verde continua presente. O vidro é resistente à umidade e ao calor da sauna, mas exige limpeza frequente para evitar acúmulo de calcário.

Terraço que funciona como sala extra

A bancada de apoio no terraço concentra a churrasqueira e serve como ponto de apoio para receber, enquanto a banheira de hidromassagem ocupa o canto oposto. Essa distribuição cria dois momentos distintos no mesmo espaço: um social, voltado para a churrasqueira, e outro contemplativo, onde a banheira permite observar o céu carioca.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
 Foto: Fran Parente/Divulgação

O paisagismo tropical de Pedro Rabelais fecha o terraço visualmente, criando privacidade natural sem precisar de muros altos ou painéis. Espécies como helicônias, palmeiras e filodendros formam um jardim vertical que filtra a luz e traz movimento com o vento.

  • Veja também: A arquitetura que copia o fundo do mar para crescer sem pesar

Paleta de cores que traduz um momento de vida

Caio é direto ao explicar a escolha cromática: busca por paz. Os tons neutros, do branco puro ao off-white, passando pelos terrosos discretos, não são tendência passageira. São uma resposta consciente a um estilo de vida que valoriza a desaceleração.

Essa paleta funciona porque não compete com a vista, não cansa visualmente e permite mudanças pontuais nos têxteis e objetos decorativos sem precisar reformar. É uma base sofisticada que amadurece bem, ao contrário de apostas cromáticas mais ousadas que podem enjoar rapidamente.

Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
 Foto: Fran Parente/Divulgação

O piso de cimento branco funciona como um grande espelho horizontal, refletindo a luz natural e ampliando visualmente os 97 m². As peças de mármore Navona inseridas criam ritmo sem exagero, um recurso que remete ao trabalho de Carlo Scarpa nas intervenções em Veneza.

Quando a reforma reflete uma virada de vida

Caio está entrando em um período sabático, momento em que viagens pelo mundo devem marcar sua rotina. A cobertura, portanto, foi pensada também para funcionar como ponto de partida e chegada, um lugar onde é possível recarregar energias entre uma jornada e outra.

Essa ideia de refúgio urbano só funciona quando a arquitetura apoia o estilo de vida, não o contradiz. Aqui, tudo foi desenhado para facilitar: a planta livre permite reorganizar móveis rapidamente, o sistema de som integrado elimina cabos e caixas aparentes, e a manutenção foi pensada para ser mínima.

O grande acerto do projeto está em não tentar ser muitas coisas ao mesmo tempo. É uma cobertura-varanda, simples assim. E justamente por assumir essa identidade única, consegue entregar uma experiência espacial que 97 m² raramente oferecem.

  • Quando 97 m² parecem muito mais: a cobertura sem paredes que respira Copacabana
    Cláudio Filla

    Claudio Filla é publicitário, gestor de mídias sociais e redator especializado em decoração e design de interiores. Usa o próprio apartamento como "ambiente de testes" — cada reforma é uma oportunidade de testar na prática o que escreve.

    Destaques
    Mais de 10 anos de experiência como editor e curador de conteúdo digital.Como editor/curador do Enfeite Decora, lidera um conselho editorial de arquitetos, designers e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo rigor técnico e normativo a cada artigo. Sua missão é traduzir as tendências de arquitetura e design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis para o morar contemporâneo.

    Experiência
    Claudio atua há mais de uma década como editor e curador de conteúdo, com foco em decoração de interiores, design e estilo de vida. Com formação em Publicidade e experiência em gestão de mídias sociais, desenvolve textos que equilibram informação técnica e inspiração.

    Formação acadêmica 
    Publicidade e Propaganda, Gestão em Mídias Sociais

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