Prédio giratório em Curitiba continua vazio após 20 anos e futuro segue indefinido

Marco arquitetônico global, o Suíte Vollard permanece desocupado e desperta debate sobre inovação, especulação e legado urbano

Prédio giratório em Curitiba continua vazio após 20 anos e futuro segue indefinido

Foto: Flickr/Radamés Manosso/Creative Commons

Na paisagem do bairro Mossunguê, em Curitiba (PR), um edifício silenciosamente gira sobre seu próprio eixo — mesmo sem moradores. Inaugurado em dezembro de 2004 com o ambicioso título de primeiro prédio residencial giratório do mundo, o Suíte Vollard simboliza tanto o auge da ousadia arquitetônica brasileira quanto os desafios de tornar a inovação viável em larga escala.

Na prática, cada um dos 11 andares do edifício de 15 pavimentos pode realizar uma rotação completa de 360° de forma independente. A estrutura, que conta com motores elétricos e rodas dentadas fixadas externamente às plataformas, gira lentamente em torno de um núcleo fixo onde ficam os banheiros, a cozinha e todas as tubulações. Uma volta inteira leva cerca de uma hora — tempo suficiente para que o imóvel “mude de vista” sem pressa.

Mas, passados 20 anos da inauguração, o prédio segue vazio. Nenhum dos apartamentos foi efetivamente ocupado como residência. O que era para ser um marco da moradia do futuro, hoje permanece como símbolo de uma promessa não concretizada.

Engenharia admirável, moradia inviável?

O nome Suíte Vollard homenageia a famosa série de gravuras de Pablo Picasso, mas é a engenharia por trás do projeto que atrai olhares e reportagens até hoje. Com apartamentos de aproximadamente 120 m² cada, dispostos sobre plataformas metálicas móveis de 90 m², o edifício utiliza um sistema sofisticado que chamou a atenção da mídia internacional em sua época.

Entretanto, o brilho da inovação esbarrou nas limitações do mercado imobiliário. O preço elevado das unidades, somado ao custo de manutenção do sistema giratório, contribuiu para afastar compradores. Além disso, disputas judiciais envolvendo a Construtora Moro, responsável pela obra, aprofundaram a insegurança jurídica do empreendimento.

Em entrevista concedida à imprensa local, o arquiteto e urbanista Carlos Eduardo Comas, professor da UFRGS, explicou que “a inovação construtiva precisa caminhar junto com a funcionalidade. O mercado ainda tem receio de ideias que fogem do convencional e não encontram respaldo em experiências anteriores consolidadas”.

Leilões, impasses e silêncio

Com a construtora em recuperação judicial, o edifício foi colocado em leilão em 2022. Dez das onze unidades foram ofertadas, mas nenhuma recebeu proposta. A exceção foi o 11º andar, que pertence a outro grupo empresarial e ficou fora da disputa judicial. No entanto, também não há confirmação de uso residencial dessa unidade — o prédio segue sem moradores registrados, mesmo após duas décadas.

Foto: Flickr/Radamés Manosso/Creative Commons

Em um movimento para tentar administrar o imóvel, a gestão chegou a ser transferida para a empresa Inepar Administração e Inovações, mas a mudança tampouco trouxe avanços práticos. Com o sistema estrutural ainda funcional e a construção bem preservada, o edifício permanece como um ícone abandonado: admirado por sua estética, porém ignorado como moradia. Segundo a arquiteta curitibana Luciane Schiozer, o Vollard representa um paradoxo urbano.

“É uma obra que elevou o padrão da engenharia nacional, mas caiu num limbo de uso. A cidade abraçou o edifício como símbolo visual, mas não como solução habitacional viável. Ele virou ponto turístico, não um lugar de se viver.”

Uma peça de museu no tecido urbano

Mesmo sem moradores, o Suíte Vollard se mantém em evidência. Constantemente citado em guias turísticos, estudos acadêmicos e reportagens especializadas, o edifício é um caso clássico de como a arquitetura pode transcender a funcionalidade e se transformar em símbolo — ainda que não cumpra a função para a qual foi projetado.

Além disso, ele levanta discussões importantes sobre patrimônio moderno, valorização simbólica da arquitetura experimental e o papel da cidade em preservar estruturas que, embora não tenham uso prático, fazem parte do imaginário urbano.

Não há, até o momento, qualquer definição clara sobre o futuro do edifício. Se será restaurado, ocupado, vendido ou transformado em espaço cultural, permanece uma incógnita. Mas uma coisa é certa: o Suíte Vollard continua girando — lenta e discretamente — como um lembrete de que inovação e realidade nem sempre giram na mesma direção.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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