Plástico reciclado na construção civil: tijolos modulares viram lojas para grandes marcas

Sem mão de obra especializada, sem entulho e até 90% mais rápida que a alvenaria convencional: a tecnologia por trás dos blocos que já atenderam mais de 50 marcas no Brasil

Plástico reciclado na construção civil: tijolos modulares viram lojas para grandes marcas

O Brasil ocupa uma posição pouco honrosa no ranking global: está entre os maiores produtores de lixo plástico do mundo. Mas foi exatamente essa estatística que motivou Lucas Lopes, 33 anos, a transformar um trabalho de conclusão de curso em uma das startups mais inovadoras do setor de construção modular no país. A Umbloco fabrica tijolos de plástico reciclado que dispensam mão de obra especializada, reduzem resíduos de obra e já vestiram espaços de marcas como Localiza, Havaianas, Fini e The Best Açaí.

A origem do negócio mistura herança familiar e inquietação ambiental. Lopes cresceu próximo ao setor de construção civil e conhecia de perto as ineficiências do mercado, desde o desperdício de materiais até a dependência de equipes especializadas para executar qualquer reforma ou nova edificação. “Eu entendia as dores do mercado e já olhava para a construção modular como o futuro. Vi que o Brasil é um dos maiores produtores de lixo plástico no mundo e reciclava apenas 1,2% naquela época”, lembra o empreendedor.

A referência criativa veio de um lugar inesperado: os blocos de Lego. A lógica de encaixe simples, que qualquer criança domina, virou a espinha dorsal de um sistema construtivo pensado para ser acessível, rápido e, acima de tudo, sustentável.

De protótipo universitário a produto industrial

A Umbloco não foi lançada às pressas. Após o TCC, Lopes apresentou a ideia a Fabio Iori, 33, que se tornou cofundador e embarcou no projeto em 2021. Os dois anos seguintes foram dedicados ao desenvolvimento técnico real, longe dos holofotes. “Ficamos cerca de dois anos criando o produto junto ao Sebrae e ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), procurando fornecedores para ajudar com a matéria-prima. Foram muitas iterações até chegar ao modelo atual”, conta Iori.

O processo de pesquisa resultou em um tijolo de plástico reciclado que vai além da estética modular. Internamente, uma estrutura metálica garante sustentação e segurança estrutural. O desenho dos blocos foi adaptado a partir dos tijolos convencionais de alvenaria e concreto, com canais internos pensados para passagem de instalações hidráulicas e elétricas, o que elimina a etapa de quebra de paredes, uma das mais custosas e demoradas em qualquer obra.

A matéria-prima chega até a startup por meio de cooperativas e indústrias parceiras. Em uma fábrica em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, o plástico é misturado com aditivos e processado. Depois, segue para uma segunda planta em Santo André, onde os blocos ganham forma definitiva.

O que muda na prática para projetos comerciais

Para quem trabalha com design de interiores comercial, arquitetura de varejo ou espaços modulares temporários, a proposta da Umbloco apresenta números que merecem atenção. Segundo os fundadores, uma construção com os blocos de plástico reciclado sai até 40% mais barata do que a alvenaria tradicional e pode ser concluída até 90% mais rápido. Além disso, o material pode ser desmontado e transportado conforme a necessidade, o que abre possibilidade para usos em feiras, eventos, pontos de venda sazonais e lojas pop-up.

“Não adianta ter uma solução incrível que não possam pagar. Sempre pensamos na democratização da tecnologia”, afirma Lopes. Essa lógica orientou também a decisão de migrar do público consumidor direto para o mercado B2B, onde a escalabilidade é maior e a receptividade à inovação construtiva cresce junto com a demanda por eficiência.

Economia circular aplicada ao varejo

Um dos projetos mais simbólicos da Umbloco é a parceria com a The Best Açaí. Nele, os próprios potes descartados pela rede se tornam a matéria-prima para construir novas unidades da marca, fechando um ciclo de economia circular que une identidade de marca, sustentabilidade e arquitetura.

O mesmo princípio guia o projeto desenvolvido com a 3 Corações, que nasceu de um encontro no Web Summit Rio, em 2025. As cápsulas de café da marca, fabricadas em plástico e alumínio, passam por um processo industrial que separa os dois materiais. O plástico resultante segue para a produção de novos blocos. É uma cadeia que começa no descarte do consumidor e termina nas paredes de uma construção.

Desde o lançamento oficial, em 2023, a Umbloco já executou cerca de 50 projetos e reaproveitou mais de 100 toneladas de plástico. Em 2024, a holding Moreco, especializada em soluções inovadoras para o varejo, investiu na startup em troca de 30% do negócio. A entrada nesse ecossistema abriu as portas para o universo de franquias, onde a agilidade de montagem e a identidade visual consistente entre unidades são demandas permanentes.

Construção modular como linguagem de marca

Há um ponto que passa despercebido em boa parte das análises sobre a Umbloco: o bloco de plástico reciclado não é apenas uma solução logística. Ele é, também, uma decisão estética e de posicionamento de marca. Marcas como Havaianas, Chili Beans e Fini não adotaram a tecnologia apenas pela velocidade de montagem, mas porque o design modular comunica inovação, leveza e compromisso ambiental no próprio ponto de venda.

Nesse sentido, a construção modular com materiais reciclados começa a ganhar espaço como linguagem visual dentro da arquitetura comercial brasileira, de forma parecida com o que o concreto aparente fez nos anos 1990 ou o que os painéis ripados de madeira fizeram na última década.

A startup estuda, para 2025 e 2026, a expansão para Portugal, onde já tem empresa aberta e negociações em andamento com parceiros locais, o que indica que o modelo tem apelo além das fronteiras brasileiras.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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