Nem toda experiência de hospedagem nasce da construção de uma nova casa. Às vezes, ela surge justamente do reaproveitamento inteligente de estruturas já existentes — e é essa lógica que transforma o ônibus estacionado no Sítio Pura Vida, na Praia dos Arandis, em Maraú (BA), em algo muito além de uma acomodação turística. O projeto revela como arquitetura, design de interiores e decoração podem redefinir completamente a percepção de espaço, conforto e conexão com a natureza.
Reformado em 2025, o veículo deixou de carregar passageiros para assumir um papel mais silencioso: o de refúgio contemporâneo inserido em um terreno de 5.000 m² cercado por vegetação preservada. O resultado não tenta esconder a origem do ônibus; ao contrário, utiliza sua estrutura linear como ponto de partida para uma narrativa espacial fluida e acolhedora.
Um layout que transforma limitações em estratégia de projeto
O maior desafio em espaços compactos não está apenas em acomodar funções, mas em construir continuidade visual. No ônibus-casa, o corredor longitudinal típico do veículo foi reinterpretado como eixo organizador, conectando áreas de descanso, cozinha e banheiro de maneira natural, sem interrupções visuais bruscas.

As grandes janelas laterais, preservadas da estrutura original, tornam-se protagonistas do projeto. Elas ampliam a percepção espacial e enquadram constantemente a paisagem externa, fazendo com que o verde ao redor funcione como extensão do interior. A entrada generosa de luz natural reduz a necessidade de divisões sólidas e contribui para que o ambiente pareça mais amplo e leve.
Madeira e elementos naturais criam sensação de acolhimento
Ao observar os interiores, percebe-se uma escolha consciente por materiais que transmitam conforto visual. As paredes claras funcionam como base neutra, enquanto a madeira assume protagonismo na marcenaria, nos painéis e nos elementos verticais que organizam os ambientes.

Os ripados em madeira cumprem dupla função. Ao mesmo tempo em que delimitam áreas, especialmente próximas ao dormitório, mantêm a permeabilidade visual e permitem que a luz circule livremente. O recurso substitui paredes convencionais por divisões mais leves, evitando a sensação de confinamento comum em projetos reduzidos.
Os estofados verdes com acabamento acolchoado dialogam diretamente com a paisagem tropical vista pelas janelas, reforçados por almofadas em tons quentes e estampas botânicas. Já as persianas de fibra natural suavizam a luminosidade e acrescentam textura artesanal ao ambiente, criando um equilíbrio entre rusticidade e conforto contemporâneo.
- Veja também: Chalés de madeira industrializados surgem como alternativa rápida e sustentável na construção civil brasileira
Cozinha compacta com linguagem funcional e integrada
A cozinha revela um dos pontos mais interessantes do projeto. A bancada em madeira ocupa posição central e integra pia e cooktop em um único volume contínuo, criando uma leitura semelhante à de cozinhas abertas em apartamentos modernos.

A ausência de armários superiores mantém o campo visual desobstruído, estratégia fundamental em espaços estreitos. A marcenaria clara evita peso visual, enquanto o acabamento natural reforça a sensação de aconchego. Mesmo em dimensões reduzidas, o ambiente oferece estrutura completa, com água quente e fria, eletrodomésticos embutidos e organização funcional.
O resultado mostra que eficiência espacial não depende de excesso de elementos, mas de escolhas bem proporcionadas.
Dormitório e banheiro pensados para leveza visual
Na área de descanso, a cama posicionada próxima às janelas transforma a paisagem em parte da experiência cotidiana. A iluminação natural valoriza tecidos em tons suaves e contribui para uma atmosfera tranquila, reforçando a ideia de refúgio.

O banheiro segue uma abordagem minimalista. A bancada suspensa em madeira e a cuba de apoio mantêm leveza visual, enquanto o box em vidro transparente evita fragmentar o espaço. O espelho circular introduz suavidade às linhas predominantemente horizontais do interior, equilibrando o conjunto.

Essas escolhas revelam um cuidado claro em preservar a sensação de amplitude mesmo dentro de uma estrutura originalmente limitada.
Arquitetura que prioriza experiência, não metragem
Mais do que acomodar até quatro hóspedes, o ônibus-casa propõe uma experiência sensorial baseada na desaceleração. A natureza ao redor não atua apenas como cenário, mas como parte ativa do projeto, presente em cada enquadramento das janelas e na ventilação natural que percorre o interior.
A área externa com churrasqueira amplia o uso do espaço e cria uma dinâmica semelhante à das casas de praia tradicionais, onde a convivência acontece entre interior e exterior de forma contínua.
Disponível para locação com estadia mínima de cinco dias, o projeto reforça uma tendência crescente: o turismo que valoriza arquitetura autoral e experiências imersivas, em vez de hospedagens padronizadas.





