Existe um tipo de perda que não cabe só no luto pessoal. Quando um edifício desaparece — especialmente aquele que carrega décadas de história arquitetônica, política e humana — o vazio que fica é da cidade inteira. É exatamente esse peso que o documentário Pele de Vidro carrega desde sua estreia internacional em 2023 e que, a partir desta quinta-feira, 19 de março de 2026, passa a ser sentido também nas salas de cinema brasileiras.
O filme é dirigido por Denise Zmekhol, cineasta e jornalista que cresceu sob a sombra criativa do pai, o arquiteto modernista Roger Zmekhol (1928–1976). O projeto que norteou a produção nasceu de uma busca pessoal: ao retornar ao Brasil após anos no exterior, Denise queria reconectar-se com a memória do pai por meio de sua obra mais emblemática, o edifício Wilton Paes de Almeida, localizado no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo. O que ela encontrou, porém, foi um prédio em processo de ocupação por famílias em situação de vulnerabilidade — e uma história muito maior do que havia imaginado.
“Quando descobri que o prédio estava ocupado, fiquei em choque e curiosa para entender o que estava acontecendo. Foi nesse momento que decidi voltar ao Brasil”, conta Denise.
Um edifício à frente do seu tempo
O Wilton Paes de Almeida não era uma construção comum. Projetado por Roger Zmekhol quando o arquiteto tinha apenas 32 anos, o edifício foi concebido entre 1961 e concluído em 1968 para abrigar a sede da Cia. Comercial Vidros do Brasil. Erguido sobre um terreno de 650 m², o projeto alcançou 24 pavimentos e área construída de 12 mil m², com planta livre, estrutura em concreto armado e uso pioneiro de estrutura metálica — uma escolha técnica que reduzia o tempo de execução e otimizava a eficiência construtiva, algo incomum para a época no Brasil.
O elemento mais marcante, aliás, era sua fachada inteiramente em vidro. Esquadrias metálicas preenchidas com painéis de vidro importado da Bélgica — escolhido pela transparência e pelo conforto térmico mesmo sob intensa incidência solar — criavam uma superfície contínua e espelhada que eliminou os elementos visíveis de metal na face externa. Esse acabamento rendeu ao edifício o apelido que batizou o documentário: “pele de vidro”.
“Os vidros vieram da Bélgica, pois sua tecnologia garantia transparência e conforto mesmo com a incidência da luz solar. Já o mármore do interior foi trazido da Grécia”, explica Denise.
O interior do prédio também era tecnologicamente avançado: a iluminação integrada ao forro, os elevadores de última geração e os sistemas de maquinário instalados colocavam o edifício em sintonia com um momento de otimismo no país. Como analisam os arquitetos Regina Meyer e Guilherme Wisnik ao longo do filme, o Wilton Paes de Almeida era um edifício genuinamente inovador — não apenas pela arquitetura modernista que o orientava, mas pela visão de transparência moral e física que o vidro representava naquele contexto.
“O material traz essa ideia de transparência não apenas física, mas moral, translúcida. Era possível ver tudo o que acontecia dentro do prédio e quem o utilizava”, reflete Denise sobre o simbolismo da escolha de Roger.
Da modernidade à repressão: como o prédio perdeu seu destino
O golpe civil-militar de 1964 não destruiu apenas vidas — deformou cidades. A família Paes de Almeida, que havia encomendado e financiado o projeto com ampla liberdade criativa ao arquiteto, viu seu patrimônio enfraquecer durante a ditadura. Em 1977, o edifício passou para a posse da Caixa Econômica Federal e teve sua função radicalmente alterada: de sede empresarial moderna, passou a abrigar escritórios da Polícia Federal. O prédio que simbolizava abertura e transparência tornou-se, com ironia cruel, sede da repressão — e, segundo registros do período, chegou a receber presos políticos.
Com a saída da Polícia Federal em 2003 e a chegada do INSS em 2009, o edifício acumulou anos de uso inadequado e ausência de manutenção. Mesmo tendo sido reconhecido como patrimônio histórico tombado pelo CONPRESP em 1992, o prédio entrou em um espiral de abandono que expôs a fragilidade da política de preservação urbana no país.
A ocupação e o olhar de fora para dentro
Quando Denise chegou ao Largo do Paissandu em 2017 com câmera em mãos, o edifício estava ocupado por cerca de 140 a 300 famílias organizadas pelo Movimento Social de Luta por Moradia (MSLM). A crise habitacional de São Paulo havia encontrado um endereço concreto — e ela não conseguia entrar.
Durante três meses, tentou estabelecer contato com os moradores sem sucesso. A solução foi subir em prédios vizinhos para registrar, através da própria transparência da fachada de vidro, a vida que acontecia no interior. Dessa inversão — observar de fora o que deveria ser visto de dentro — nasceu parte da linguagem visual do documentário.
“Subimos em diferentes prédios em torno do Pele de Vidro para tentar gravar, já que não conseguíamos acessar o seu interior. Começamos a ver a vida acontecendo e o dia a dia dos moradores da ocupação pelas janelas”, lembra a diretora.
O incêndio que apagou o prédio e reacendeu o filme
Em 1º de maio de 2018, o edifício Wilton Paes de Almeida foi destruído por um incêndio que durou cerca de 90 minutos. A hipótese mais aceita aponta para um curto-circuito. O colapso deixou sete mortos, dois desaparecidos e cerca de 300 famílias sem teto. Do prédio, restaram escombros.
Foi somente após a tragédia que Denise conseguiu se aproximar dos moradores. Aqueles que ela só via pelas janelas passaram a conversar com a câmera — e revelaram que os chamados “coordenadores” da ocupação nunca haviam informado os residentes sobre a existência do documentário, e que as condições de segurança no interior do prédio eram precárias.
“Foi muito difícil, mais uma vez perdi a chance de me reconectar com meu pai. Foi como se ele morresse outra vez para mim”, diz Denise sobre o momento em que recebeu a notícia do incêndio.
Ao longo de cerca de um mês, a cineasta acompanhou de perto a mobilização dos desabrigados. As gravações foram concluídas no início de 2019.
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O que Pele de Vidro diz sobre cidades e memória
Ao longo de 90 minutos, o documentário costura depoimentos de arquitetos, colegas e familiares de Roger Zmekhol com o testemunho dos moradores da ocupação e de integrantes de outros movimentos de moradia popular em São Paulo. A estrutura narrativa não separa o pessoal do coletivo — os dois planos se sustentam e se explicam mutuamente.
Para além da história do prédio, o filme abre uma discussão que vai diretamente ao cerne do planejamento urbano contemporâneo: o que fazemos com edificações tombadas que o poder público abandona? Quem são as pessoas que vivem nos vazios das cidades? E o que a queda de um edifício modernista revela sobre as escolhas — e as omissões — de uma sociedade?
“Acredito que abre espaço para que as pessoas escutem a história dos sem-teto, inclusive aquelas que, a princípio, não se interessariam por esse tema, especialmente em um mundo tão polarizado”, afirma Denise.
A estreia no Brasil, para a diretora, tem um significado que transcende o circuito cultural. O filme chega em um momento em que o debate sobre memória arquitetônica, patrimônio histórico e direito à moradia nunca foi tão necessário nas cidades brasileiras. “É preciso pensar nas cidades do futuro e em como podemos construir espaços mais inclusivos e igualitários”, reforça.
O edifício Wilton Paes de Almeida não existe mais. Mas a arquitetura modernista brasileira que ele representou, as famílias que o habitaram e as perguntas que ele deixou continuam de pé — e o documentário Pele de Vidro é, até agora, o registro mais completo de tudo isso.
