Nem sempre o aprendizado mais transformador acontece dentro de uma sala de aula convencional. Na Fundação CASA Tamoios, em São José dos Campos, dez adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa descobriram isso ao trabalhar com MDF, tintas, texturas e colagem durante uma oficina de artesanato em madeira realizada no dia 17 de fevereiro. O resultado foram quadrinhos decorativos produzidos com as próprias mãos, entregues às famílias nas visitas semanais. Mas o que ficou de verdade foi muito mais do que a peça finalizada.
A iniciativa integrou as ações formativas do centro e foi realizada por meio do Programa de Assistência Religiosa (PAR), com a colaboração voluntária de membros da Igreja Universal do Reino de Deus. Os artesãos Elisângela Damásio Soares de Andrade, Ilton Ramos de Andrade Júnior e Roxana Cunha Torres conduziram a atividade compartilhando não apenas técnicas, mas também experiências profissionais reais, o que conferiu à oficina um caráter genuinamente formativo.
Do planejamento ao acabamento: o processo como método
Antes de qualquer pincel tocar o MDF, os adolescentes receberam orientações sobre organização do espaço de trabalho, uso correto dos materiais e etapas de finalização das peças. Essa sequência não é detalhe. No artesanato, a ordem das etapas define o resultado final, e aprender a respeitá-la é, em essência, aprender a planejar.
Ao longo das duas horas de atividade, os jovens foram introduzidos a conceitos como combinação de cores, proporção, composição estética e acabamento superficial, elementos que fazem parte do vocabulário do design de interiores e das artes visuais. Para muitos, foi o primeiro contato direto com o artesanato, o que tornou a experiência ainda mais significativa como oportunidade de descoberta de habilidades que, até então, não tinham sido exploradas.
As peças incluíram ainda mensagens de caráter reflexivo, produzidas pelos próprios participantes, incentivando uma elaboração pessoal sobre escolhas, responsabilidade e projetos de vida. Essa camada de conteúdo simbólico transforma o objeto artesanal em algo além da decoração: ele se torna um registro de um momento de construção interna.
O que o trabalho manual desenvolve que o discurso não consegue
Concentração, paciência, disciplina e trabalho em equipe são competências que dificilmente se ensinam de forma abstrata. Elas aparecem quando existe um processo real a ser concluído, com etapas, erros, correções e um produto final tangível. O artesanato em madeira oferece exatamente esse ambiente, onde cada decisão, desde a escolha da cor até a pressão do pincel, tem consequência direta no resultado.
“Atividades como essa ampliam horizontes e mostram aos adolescentes que eles são capazes de aprender, criar e concluir um projeto. Isso fortalece a autoestima e contribui diretamente para o processo socioeducativo”, destacou Evandro Lauro de Oliveira, diretor do CASA Tamoios.
Essa percepção é central. O ato de começar, executar e finalizar uma peça do zero desenvolve uma noção de protagonismo que vai além do ambiente da oficina. O jovem que conclui um quadro decorativo em MDF com técnica e cuidado experencia, de forma concreta, que é capaz de entregar algo bem feito, e esse é um aprendizado que se transfere para outras áreas da vida.
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Arte, MDF e reintegração: uma equação que funciona
O uso do MDF como suporte artístico não é uma escolha aleatória. O material é acessível, versátil, fácil de cortar e lixar, além de aceitar bem técnicas de pintura, colagem e aplicação de texturas. No mercado do artesanato decorativo, peças em MDF com acabamento cuidadoso têm espaço garantido, o que abre uma perspectiva profissional real para quem desenvolve essa habilidade.
Aliás, a produção de quadrinhos decorativos personalizados é um dos segmentos que mais cresce dentro do artesanato brasileiro, especialmente com a valorização de peças autorais e a demanda crescente por decoração com identidade. Nesse contexto, aprender a trabalhar com o material ainda durante a adolescência é uma vantagem concreta.
“Nosso papel é oferecer oportunidades reais de formação e reflexão. Trabalhamos para reintegrar adolescentes à sociedade, preparando-os para reconstruir seus projetos de vida e contribuir para uma sociedade mais segura. Cada ação que promove valores, responsabilidade e desenvolvimento pessoal fortalece esse caminho”, declarou Claudia Carletto, presidente da Fundação CASA.
Sobre a Fundação CASA
A Fundação CASA, vinculada à Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania, aplica medidas socioeducativas conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). Atendendo jovens de 12 a 21 anos incompletos em São Paulo, a Fundação executa medidas de privação de liberdade e semiliberdade, determinadas pelo Poder Judiciário, garantindo os direitos previstos em lei, pautando-se na humanização, e contribuindo para o retorno do adolescente ao convívio social. Mais informações em: https://fundacaocasa.sp.gov.br/





