Nandina: por que os japoneses plantam esse arbusto na porta de casa há séculos

O bambu celestial que muda de cor sozinho e carrega uma simbologia milenar e como ele chegou ao paisagismo brasileiro

Nandina: por que os japoneses plantam esse arbusto na porta de casa há séculos

Tem uma planta que, no Japão, ninguém planta por acidente. Ela é conhecida por nandina domestica (ou pelo também popular bambu celestial/bambu sagrado), e ocupa há séculos um lugar muito específico das casas, logo a entrada. Não é por acaso, muito menos por costume sem razão, e é exatamente o simbolismo/crença que existe por trás da planta que fez ela ser tão cobiçada no Brasil.

Visualmente, o arbusto já se justifica sozinho, com folhas compostas e pinadas, finamente recortadas, criam uma textura que poucos arbustos conseguem replicar. Mas o que realmente chama atenção são as brotações novas, que surgem em tom avermelhado intenso antes de amadurecerem para o verde, e os frutos vermelhos em cachos, que aparecem depois de uma pequena inflorescência discreta e transformam a planta em um ponto focal natural no jardim. É raro conseguir isso com tão pouco esforço.

“A Nandina vai muito bem aqui no Brasil, à meia-sombra ela gosta mais, ela é muito delicada. Ela começa na sua brotação com a folhinha vermelhinha até se transformar numa folhinha verde. É extremamente ornamental”, conta Mel Maria, dona da floricultura Mel Garden.

Sobre o especialista

Mel Maria, é jardineira e proprietária da floricultura Mel Garden, em Curitiba.

A planta que afasta o que não presta

Na cultura japonesa, a Nandina recebe o nome de nanten (南天), e a tradução livre carrega um significado bastante preciso: “problemas virados”. A crença é que ela tem o poder de transformar energias negativas em positivas, agindo como um filtro entre o mundo externo e o espaço doméstico. Por isso, a posição de escolha é sempre a entrada, a varanda ou os jardins frontais das casas.

Dentro dos princípios do Feng Shui, a planta é tratada como guardiã do lar, pois acredita-se que ela atrai prosperidade e equilibra o fluxo energético do ambiente. Mais do que misticismo, é uma tradição que atravessou gerações e hoje aparece em templos, residências e jardins orientais ao redor do mundo.

“A Nandina é uma planta de valor energético muito importante para eles. Se você usar na porta da sua casa, segundo a filosofia deles, ela afasta energias ruins e atrai energias positivas”, reforça Mel Maria.

O que faz a Nandina funcionar no paisagismo brasileiro

A Nandina domestica é originária da China e do Japão, pertence à família Berberidaceae e não, apesar do nome popular, ela não tem nenhuma relação botânica com o bambu. A semelhança está nos caules múltiplos e eretos que emergem diretamente do solo, criando uma silhueta que evoca o bambu sem trazer seus principais problemas, sobretudo o de invasividade.

No Brasil, ela se adaptou especialmente bem a regiões de clima mais ameno. Cresce entre 1,5 e 2,5 metros de altura, forma touceiras densas e exige pouquíssima manutenção depois de estabelecida. O grande erro que se comete com ela é colocar em sol pleno o dia todo em regiões quentes. Nesse caso, as folhas ficam queimadas, a cor se apaga e o arbusto perde justamente aquilo que o torna tão especial.

“A meia-sombra costuma deixá-la ainda mais bonita, com folhas menos queimadas e cores mais vibrantes”, explica Mel Maria. A preferência por locais com boa luminosidade, mas sem incidência solar direta nas horas mais quentes, é o ponto mais importante para quem quer aproveitar o máximo ornamental da planta.

Além disso, para prosperar o solo precisa ser fértil, rico em matéria orgânica e, sobretudo, bem drenado. O encharcamento é inimigo direto das raízes da Nandina. Regas regulares, sem exageros, e uma adubação leve a cada três meses são suficientes para mantê-la vigorosa. A poda, quando necessária, serve apenas para controlar o porte e estimular novas brotações.

Textura, cor e movimento

O grande diferencial da Nandina no paisagismo é a capacidade de entregar estímulos visuais constantes ao longo do ano. Na primavera e no verão, as folhas jovens surgem avermelhadas nas ponteiras, criando contraste dinâmico dentro da própria planta. Com o amadurecimento, elas transitam para o verde. No outono e inverno, especialmente em regiões mais frias do Sul e Sudeste, a folhagem inteira pode se tingir de tons que vão do vermelho vibrante ao púrpura-bronzeado.

Aliado a isso, há os frutos vermelhos em cachos que surgem após a floração discreta, como pequenas bolinhas que persistem por meses e tornam o arbusto ainda mais decorativo. É como ter dois espetáculos distintos em uma mesma planta: um de folhagem e outro de frutificação.

Importante: esses frutos são tóxicos para humanos e animais, por isso, o cuidado com a posição da planta em jardins onde há crianças pequenas ou pets é fundamental. Essa é uma informação que raramente aparece nas recomendações mais superficiais sobre a espécie.

Para composição, a Nandina funciona muito bem em maciços rente ao muro, como elemento de transição entre espécies de folhagem larga, ou como protagonista de um jardim oriental ou zen. “Gosto muito de usar nandina nos meus projetos porque ela traz textura, cor e simbolismo. Quando o paisagismo une estética, significado e funcionalidade, o resultado fica ainda mais especial”, afirma Mel Maria.

Nandina e espécies nativas

Um ponto que merece atenção quando se fala em Nandina no paisagismo brasileiro: por ser uma espécie exótica, ela deve ser usada com equilíbrio. O grande erro é construir jardins compostos exclusivamente por espécies ornamentais importadas, ignorando a riqueza da flora nativa.

A Nandina, quando posicionada com critério, se harmoniza bem com espécies brasileiras de folhagem contrastante, como as helicônias, samambaias, bromélias e outras plantas de textura mais densa, criam composições que equilibram o exótico e o local. O resultado é um jardim que tem sofisticação visual sem abrir mão da consciência ecológica.

Aliás, essa é uma tendência crescente no paisagismo contemporâneo: usar espécies exóticas de alto valor ornamental como pontuações dentro de projetos que priorizam o nativo. A Nandina se encaixa perfeitamente nesse papel — ela tem presença o suficiente para marcar um espaço sem dominar o conjunto.

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