Projetar para si mesmo é, talvez, o maior teste de coerência que um arquiteto pode enfrentar. Sem cliente para convencer, sem briefing a ser negociado, o profissional fica diante de uma folha em branco que revela, com precisão, o que ele realmente acredita sobre arquitetura. A Chácara FL, assinada pelo arquiteto Maicon Liv, nasce exatamente desse exercício: um projeto sem intermediários, onde cada decisão é puro reflexo de intenção.
O resultado é direto e consistente. Uma residência térrea de volume único, branco e monolítico, implantada sobre um terreno com desnível natural e organizada para que campo e construção coexistam sem disputa. Não há elementos decorativos que busquem chamar atenção para si. O que existe aqui é precisão formal a serviço do habitar, e esse é o ponto de partida de tudo.
Um volume que parece flutuar
A primeira decisão que define o caráter da Chácara FL é estrutural, e ao mesmo tempo visual. A casa é sutilmente elevada 50 centímetros do solo, apoiada em vigas recuadas, com balanço de três metros sobre o talude. Esse gesto quase imperceptível para quem não olha com atenção é o responsável por uma sensação nítida: a de que a construção paira sobre o terreno, leve, sem se impor à topografia existente.

Essa relação com o desnível natural do lote é uma das marcas do minimalismo contemporâneo bem resolvido. Em projetos assim, o terreno não é um obstáculo a ser vencido ou ocultado. Ele é parte ativa da composição. A implantação inteligente aproveita o caimento para criar profundidade visual e, ao mesmo tempo, liberar o horizonte que se abre a partir do interior da casa.
O volume branco reforça esse jogo. Cores neutras em grandes superfícies funcionam como tela, permitindo que a paisagem ao redor assuma protagonismo. A ausência de ornamentação na fachada não é pobreza de linguagem, é escolha calculada.
Planta fluida, sem rupturas

A planta da Chácara FL se organiza em três setores claros: social, íntimo e serviço. Essa setorização, comum em projetos residenciais de qualidade, aqui ganha outro nível de execução pela forma como os espaços dialogam entre si, sem se sobrepor ou criar barreiras desnecessárias.
A área social reúne estar, TV e cozinha gourmet em continuidade direta com as varandas e o pátio com piscina. A fluidez não é apenas espacial, é visual. O uso de mobiliário baixo ao longo de toda a área social é uma decisão técnica relevante: ele preserva o horizonte livre, permitindo que o olhar alcance a paisagem sem interrupções a partir de qualquer ponto do ambiente.

Esse conceito, bastante explorado na arquitetura japonesa contemporânea e incorporado ao estilo minimalista, parte do entendimento de que o maior elemento decorativo de uma casa pode ser a própria natureza vista através dela. Nesse sentido, janelas bem posicionadas e mobiliário discreto funcionam como curadores da paisagem.
A materialidade que aquece o essencial
Na ala íntima, a Chácara FL introduz calor onde o branco monolítico poderia criar frieza. A marcenaria em freijó e o piso em madeira tauari são os materiais escolhidos para revestir suítes e demi-suítes, e essa seleção não é aleatória. Ambas as madeiras brasileiras têm tonalidade clara e veio discreto, características que mantêm a leveza visual do conjunto sem abrir mão do acolhimento que um dormitório precisa oferecer.

O freijó é um material frequentemente usado em projetos de arquitetura contemporânea brasileira justamente por essa capacidade de equilibrar refinamento e calor. O tauari no piso, por sua vez, garante continuidade de paleta entre marcenaria e revestimento, criando a sensação de que o espaço foi desenhado por inteiro, e não montado por partes.
Essa coerência de materiais é o que separa um projeto executado com cuidado de um que apenas copia referências. Quando madeira, concreto e branco aparecem no mesmo ambiente com proporção e intenção, o resultado é uma decoração de interiores que parece natural, quase inevitável.
Arquitetura como estilo de vida
Existe um elemento na Chácara FL que vai além da técnica construtiva ou da escolha de materiais. O projeto foi pensado para desacelerar, para reunir família e para transformar a contemplação em parte da rotina diária. Essa intenção muda a forma como cada espaço é resolvido.

A piscina integrada ao pátio, as varandas em continuidade com a sala, a relação visual permanente com o campo ao redor, tudo foi desenhado para que o morador sinta o entorno como extensão natural da casa. Não há uma separação clara entre estar dentro e estar fora, e essa dissolução de fronteiras é o que dá ao projeto seu caráter mais particular.
Em projetos de casas de campo e chácaras contemporâneas, essa integração com a paisagem costuma ser tratada como item de lista, algo a ser cumprido. Na Chácara FL, ela é o partido. A arquitetura existe para servir essa relação, não o contrário.




