Durante anos, testemunhamos moradas impecáveis, ambientes neutros, milimetricamente organizados, prontos para fotografia, mas nem sempre prontos para a vida real. Foi um período em que o branco e o cinza reinavam absolutos e a ideia de perfeição muitas vezes sobrepunha a personalidade. Em 2026, essa lógica muda, quando o morar assume de vez a fusão de memória, identidade, saúde e sensações.
Para o arquiteto Bruno Moraes, à frente do BMA Studio, a nova arquitetura não quer apenas performar nas redes sociais, ela quer abraçar, proteger, estimular, regenerar e refletir quem habita com toda sua história e sonhos. “Ninguém mais quer morar num ambiente perfeito de showroom, mas sim em uma casa que conte uma história, que tenha repertório, que tenha alma. A arquitetura está caminhando para um caminho muito mais humano, autoral e consciente”, reflete. É com essa visão de futuro que ele elenca as 8 tendências que devem guiar a arquitetura e os interiores nos próximos anos.
1. Estilo pessoal e mistura de épocas
A casa deixa de parecer catálogo e passa a parecer biografia. A mistura de peças contemporâneas com mobiliário vintage e objetos afetivos ganha força dentro do conceito que Bruno Moraes chama de ‘moderno nostálgico’, que mostra não se tratar de replicar estilos do passado, mas de incorporá-los com repertório e intenção.

“A decoração precisa ser construída como uma coleção ao longo do tempo. Não é sobre sair comprando tudo novo, mas sim misturar o contemporâneo com aquilo que carrega memória. Eu sempre trouxe peças afetivas para dentro dos projetos, pois entendo que a casa precisa ter repertório”, explica.
2. Materiais naturais e a beleza das imperfeições
A estética excessivamente polida dá espaço à verdade dos materiais, como madeiras com marcas do tempo, pedras com veios irregulares e metais que oxidam naturalmente. Tudo aquilo que antes poderia ser visto como ‘defeito’ e ‘imperfeito’, agora é valorizado como identidade.
“Por que esconder um risco que faz parte da história de um móvel?”, questiona o profissional que cita antiquários como Arnaldo Danemberg Collection, referência em São Paulo, onde marcas do tempo são celebradas como parte da narrativa da peça.

O movimento também resgata o uso de pedras brasileiras, pois durante anos, o mercado nacional priorizou mármores importados, como Carrara e Travertino, enquanto exportava suas próprias riquezas naturais. Agora, há uma valorização consciente do que é local e autêntico.
“Estávamos em uma era de simulação com o piso que imitava madeira e o mármore. Mas isso está perdendo força, uma vez que o natural de verdade e o que é da nossa cultura, mesmo com suas imperfeições, tem muito mais valor”, diz Bruno.
3. Formas curvas e volumes orgânicos
Já as linhas retas e rígidas cedem espaço às geometrias mais suaves, porém a tendência vai além do sofá arredondado ou da mesa oval. De acordo com o profissional, ela está na arquitetura do espaço, nas paredes curvas, nos encontros orgânicos entre forro e estrutura, nas sancas sinuosas e layouts fluídos.

“A curva está na planta, na arquitetura e na forma como a parede encontra o teto. Eu, particularmente, gosto muito dessa linguagem e utilizo nos projetos como meio de transformá-los em espaços muito mais acolhedores e sensoriais”, revela.
4. Paletas quentes
O reinado do off white e de tons neutros como o bege e o cinza nunca perderá seu posto, mas é fato que as cores quentes, terrosas e envolventes seguirão conquistando espaço nos projetos de interiores.

Cores como chocolate, oliva, musgo, azuis profundos e até nuances sofisticadas de rosa aparecem nas paredes, teto, marcenaria e portas, muitas vezes em propostas monocromáticas que evidenciam imersão e volume.
“Estamos vivenciando um período em que o desejo de sentir uma energia diferente em casa está muito pulsante. Sabemos que o excesso de neutralidade deixa ambientes frios e sem a vivacidade que precisamos sentir”, diz o arquiteto, reiterando que a ousadia nas cores transpassa o decorativo para um viés estratégico.
5. Espaços híbridos definitivos
Não parece algo novo, mas é: a lógica híbrida de trabalho, que promove uma mescla entre as atividades presenciais e os dias de home office deixou de ser improviso e passou a ser premissa.
E o que isso quer dizer? De acordo com Bruno, significa que as casas precisam abrigar escritórios permanentes e funcionais. “Não dá mais para ter um home office improvisado na ponta da mesa de jantar”, relativiza.

No mundo corporativo, a lógica é a mesma. Os escritórios precisam ser mais acolhedores e humanos para competir com o conforto do lar.
“Observo que as empresas estão em busca de ofertar ambientes mais informais e afetivos, aproximando o espaço de trabalho da atmosfera doméstica. O desafio é equilibrar produtividade e conforto sem perder identidade”.
6. Luxo silencioso
Nesse tópico, a ideia é simples: menos ostentação, mais qualidade. O chamado ‘luxo silencioso’ migrou da moda para a arquitetura de interiores em movimentos vistos por grandes marcas que consolidaram a ideia de sofisticação discreta com materiais impecáveis, mas sem logotipos evidentes. Assim, o reflexo é direto.

“Nos dias de hoje, o cliente de alto padrão quer o melhor tecido, o melhor acabamento, a melhor marcenaria. Porém, a intenção não é ostentar, mas sim desfrutar o conforto, sensação tátil e a durabilidade. Eu diria que é tudo menos instagramável e mais habitável”, elucida Bruno.
7. Novos materiais ecológicos
A inovação sustentável ganhou contornos surpreendentes nos últimos tempos. Bruno cita como exemplo os painéis acústicos feitos de micélio (fungos), couros produzidos a partir de cacto, abacaxi ou resíduos ecológicos, além da impressão 3D em argila para a confecção de elementos vazados e até estruturas construtivas.
Na última edição 2025 do Salão do Móvel, em Milão, os materiais alternativos dominaram discussões e lançamentos. “O mercado está muito fértil e venho conhecendo soluções que há poucos anos seriam impensáveis”, comenta Bruno.
8. Design regenerativo

Se a sustentabilidade já deveria ser princípio, o design regenerativo vai além, pois considera o impacto direto do espaço na saúde física e emocional dos usuários.
“Nesse ponto pensamos no morador antes mesmo do layout. Estamos falando de uma tomada perto da cabeceira que pode interferir no sono, um material com toxinas que podem evaporar com o calor e afetar a saúde ou até mesmo uma cor errada que interferirá no quadro emocional”, exemplifica.
O profissional indica a leitura de certificações, como a WELL Building Standard e HBC, que analisam questões sobre a qualidade do ar, conforto acústico, materiais e até campos eletromagnéticos. Iluminação adequada, ventilação bioclimática, biofilia, materiais que absorvem CO₂ e escolhas conscientes também compõem essa abordagem estratégica.
“Quando falamos de arquitetura, o principal é quem habita. A casa precisa ser reflexo da pessoa e precisa fazer bem a ela”, finaliza.





