O lavabo ocupa, em média, entre 2 e 4 metros quadrados, sendo considerado o menor cômodo da área social. E, paradoxalmente, se tornou o espaço onde os projetos de arquitetura de interiores mais ousam. Pedras naturais que não aparecem em nenhum outro ambiente, metais dourados esculpidos, papéis de parede marcantes, cubas suspensas como peças de design, tudo isso concentrado em um único ponto.
“Adoro apostar em propostas mais ousadas para valorizar a arquitetura de interiores e impressionar quem o usar”, conta a arquiteta Ana Rozenblit, à frente do escritório Spaço Interior. Para ela, a lógica é direta: por ser um espaço de baixa permanência, o lavabo comporta escolhas que em outros ambientes poderiam ser excessivas. O impacto visual é imediato e não precisa ser sustentado por horas de convivência.
Sobre o especialista
Com mais de 30 anos de carreira, a arquiteta Ana Rozenblit desenvolveu mais de 10 mil projetos residenciais, corporativos e comerciais, mantendo um modelo de trabalho autoral, que funciona como um ateliê de arquitetura.
A função que justifica o investimento
Antes de falar em materiais e acabamentos, vale entender por que o lavabo nas áreas sociais se tornou presença quase obrigatória nos projetos contemporâneos. A resposta está em dois movimentos simultâneos: a valorização dos espaços de convivência e a preservação da intimidade dos moradores.

Salas de estar, salas de jantar e varandas gourmet foram redesenhadas nos últimos anos para funcionar como palco de encontros — jantares, celebrações, reuniões entre amigos. Nesse contexto, oferecer o banheiro privativo da suíte para os convidados deixou de fazer sentido. “Cada um tem o seu ritual, suas predileções, os produtos de higiene e o autocuidado que contam um pouco sobre cada um. Por isso, é muito elegante preservar esse senso de intimidade”, analisa Ana Rozenblit.
O lavabo, dessa forma, resolve duas questões ao mesmo tempo: serve com praticidade durante os encontros e protege a esfera mais pessoal da casa. É um gesto de hospitalidade que também é um gesto de elegância.
Pedra natural como elemento de identidade
Nos projetos de Ana Rozenblit, as pedras naturais aparecem com frequência como protagonistas do lavabo. A escolha não é apenas estética — é estrutural para a identidade do ambiente.

“Sem sombra de dúvidas, as diversas tipologias das rochas agregam uma identidade exclusiva e uma presença muito forte”, afirma a arquiteta.
O mármore ônix, por exemplo, foi trabalhado em formato de lavatório coluna com detalhes esculpidos ao redor da peça. O resultado é um objeto que não precisa de nenhum outro elemento para justificar o projeto.
Quando combinadas com metais dourados em torneiras, suportes e arandelas, as pedras reforçam um vocabulário que remete ao requinte sem precisar recorrer ao excesso decorativo. O dourado, que Ana descreve como atemporal, aparece nos acessórios do lavabo com uma coerência que une os elementos sem uniformizá-los.

Um detalhe técnico que a arquiteta destaca: projetos com torneira de piso exigem planejamento hidráulico anterior ao revestimento. “A hidráulica, que comumente passa pela parede, precisa ser transferida para o piso e só depois o revestimento pode ser instalado”, orienta. O grande erro aqui é deixar essa decisão para a fase de acabamento, o recuo é caro e compromete o cronograma da obra.
Madeira, boiserie e a linguagem do clássico revisitado
Nem todo projeto de lavabo precisa de pedra para ter presença. A madeira cumpre um papel igualmente expressivo quando usada com intenção. Em um dos projetos do Spaço Interior, o material toma forro, paredes e porta mimetizada — uma base densa e acolhedora que serve para evidenciar a cuba esculpida suspensa e a iluminação indireta.

“O conceito de acolhimento e refinamento são muito presentes no material”, contextualiza a arquiteta.
Em outro projeto, a referência ao clássico é ainda mais direta. Ana Rozenblit construiu uma estrutura com ideia de pórtico suspenso — uma “caixa” de pedra emoldurada com madeira pau-ferro — completada por boiseries nas paredes e uma torneira retrô dourada. A composição transita entre períodos sem soar anacrônica, justamente porque cada elemento foi escolhido para dialogar com o conjunto, não para competir com ele.
Arte, decoração e a atenção que o anfitrião dedica ao espaço
Um lavabo bem projetado comunica algo sobre quem mora na casa antes mesmo de qualquer conversa. Ana Rozenblit reforça que a decoração do lavabo e os produtos dispostos no ambiente são uma extensão da atenção que o anfitrião dedica aos seus convidados.

“Vasos com arranjos de flores naturais e bandejas para acomodar os dispensers de sabonete líquido, creme para as mãos e difusor de ambientes mostram a atenção que o morador dedica ao lavabo”, finaliza a arquiteta.
A arte também tem lugar garantido nesse cômodo. Em um dos projetos, um quadro de fine art compõe junto com o papel de parede e a cuba esculpida em forma de coluna — tudo dentro de uma paleta de cinza que atravessa o apartamento inteiro. A coerência cromática entre o lavabo e a área social é o que garante que o ambiente se sinta parte do projeto, não um apêndice decorativo.
O que esses projetos têm em comum é uma compreensão precisa de escala. Em poucos metros quadrados, cada decisão tem peso máximo. Não há espaço para o elemento neutro ou para a escolha segura. O lavabo contemporâneo exige comprometimento com o ponto de vista do projeto e é exatamente por isso que ele se tornou o ambiente mais revelador de um bom trabalho de arquitetura de interiores.
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