Depois de 20 anos de carreira, Melina Romano decidiu que o projeto arquitetônico, por si só, já não dava conta de tudo o que queria investigar. A resposta veio na forma de um laboratório — e não poderia estar em lugar mais simbólico: o 31º andar do Edifício Itália, um dos marcos mais reconhecíveis da arquitetura moderna no centro de São Paulo.
O LAB MR abriu suas portas com a proposta de ser um campo permanente de pesquisa, crítica e documentação nas intersecções entre arte, arquitetura e design de interiores. Não se trata de mais uma galeria. A própria arquiteta define o espaço de forma direta: “Um laboratório de experimentação, onde o processo é tão importante quanto o resultado — um espaço onde arquitetura, arte e design deixam de operar de forma isolada e passam a coexistir.”
A escolha pelo Edifício Itália não foi por acaso. Melina mantém seu escritório no prédio há cinco anos, e a conexão com a história do lugar foi determinante.
“Estamos falando de um dos marcos mais emblemáticos da arquitetura moderna em São Paulo. Inserir o LAB nesse contexto é criar um diálogo entre o legado moderno e as investigações contemporâneas que propomos”, conta a arquiteta.
Corpo-Território: a exposição que inaugura o LAB
A estreia do espaço ficou por conta da exposição “Corpo-Território”, com curadoria de Ana Carolina Ralston, aberta ao público desde 28 de março e com visitação até 23 de maio de 2026. A mostra reúne obras de Tamikuã Txihi, Rodrigo Silveira, Gustavo Utrabo, Hugo Fortes e Henrique Sur — artistas cujos trabalhos partem de um conceito ligado aos movimentos feministas indígenas de Abya Yala, que compreendem o corpo como primeira instância territorial de vivências, memórias e lutas.
As obras transitam por diferentes linguagens e tocam em temas como identidade, ancestralidade e território. O que une todas elas é uma qualidade silenciosa, quase íntima, que a própria curadoria parece ter construído com intenção.
“Existe uma construção espacial pensada para desacelerar o olhar, permitindo que cada pessoa estabeleça sua própria relação com as obras”, descreve Melina.
O tema guarda-chuva que orienta o LAB em sua fase inicial é o afeto, entendido aqui não de forma sentimental, mas como postura crítica diante do tempo acelerado.
“O afeto aparece como uma forma de resistência. Não somente no sentido dos seus afetos em si, mas de se afetar. Dentro do LAB, o afeto não é tratado de forma literal ou romântica, mas naquilo que atravessa processos, relações e experiências”, aponta a arquiteta.
Programação aberta ao longo do ano
Além das exposições, o LAB MR está programado para receber residências artísticas, encontros com criativos de diferentes áreas, visitas guiadas e experiências imersivas. Para o meio do ano, Melina já antecipa cursos voltados a arquitetos, designers, artistas e entusiastas dessas áreas.
O espaço é de entrada gratuita, com visitação de terça a sábado, das 11h às 17h, no Edifício Itália (Av. Ipiranga, 344, conj. 311C — 31º andar, São Paulo).
