Teresópolis tem um tipo de luz particular no fim da tarde — aquela que raspa pelas cumeadas e pinta a vegetação de um verde quase impossível. Não é à toa que muita gente que constrói na Região Serrana do Rio de Janeiro sonha com um jardim à altura desse entorno. O desafio, entretanto, está justamente aí: criar um paisagismo residencial que dialogue com a exuberância da montanha sem competir com ela.
Foi exatamente essa equação que o biólogo e paisagista Julio Sousa precisou resolver em uma casa de campo particular na cidade. O resultado é um projeto que vai além do embelezamento do entorno: ele transforma o terreno em um grande jardim de permanência, desenhado para ser vivido em diferentes momentos do dia, em diferentes climas, em diferentes humores.
Caminhos que ensinam o ritmo do jardim
O primeiro gesto do projeto foi estrutural. Em vez de criar áreas isoladas sem conexão entre si, Julio Sousa organizou a propriedade a partir de caminhos orgânicos que percorrem o terreno de forma fluida, conduzindo o olhar — e o corpo — de um ponto a outro sem que o jardim revele tudo de uma vez. Esse recurso, muito presente na tradição dos jardins toscanos que inspiraram a proposta, cria uma experiência de descoberta. Cada curva do caminho oferece uma paisagem diferente, um aroma novo, uma textura inesperada.

“A circulação bem planejada determina se um jardim será usado no dia a dia ou ficará apenas bonito nas fotos,” afirma Julio Sousa. “Em Teresópolis, com o clima fresco e os dias com garoa, os caminhos precisavam ser convidativos, seguros e com vegetação que criasse proteção lateral sem fechar demais o espaço.”
Essa lógica de percurso estrutura toda a narrativa do projeto, onde o jardim é um destino em si mesmo, e a casa, o ponto de partida.
Microcenários: cada canto com sua própria atmosfera
O grande diferencial do projeto está na criação de microcenários com funções e atmosferas distintas, interligados por percursos de transição. O projeto entrega um lounge do fogo, uma área da piscina com tratamento paisagístico próprio, trilhas verdes que cortam o terreno e, como ponto de chegada quase cinematográfico, uma ponte ornamental que conduz a uma ilha no lago.

O lounge do fogo é talvez o ambiente mais bem resolvido do conjunto. Envolvido por capins-do-Texas — gramíneas de porte médio que formam barreiras vivas densas —, o espaço ganha proteção visual e térmica natural, criando uma sensação de aconchego que nenhuma parede construída entregaria da mesma forma. Nos dias frios da serra, que são muitos ao longo do ano, esse canto se torna o coração da propriedade.
A área da piscina recebeu uma paginação de piso que cria continuidade visual até o fogo de chão, costurando duas áreas em um único fluxo espacial. Esse tipo de detalhe é o que diferencia um projeto de paisagismo bem executado de um jardim simplesmente bem plantado.
Botânica serrana: beleza que não exige batalha diária
A seleção de espécies foi guiada por dois critérios inegociáveis: adaptação ao clima montanhoso e baixa manutenção. Hortênsias, lavandas, alecrins, gardênias, dionelas e oliveiras compõem o repertório principal — plantas que se comportam bem na altitude e na variação térmica da região, sem exigir intervenções constantes para manter o desenho.

“O erro mais comum em casas de campo é escolher espécies por impulso, sem considerar o microclima local,” observa Julio Sousa. “Na serra, a umidade, a temperatura e a incidência de sol são completamente diferentes do litoral ou da capital. Uma planta que floresce no Rio pode definhar em Teresópolis em questão de semanas.”
Os maciços floridos cumprem função dupla no projeto: emolduram caminhos e acessos, criando bordas suaves que guiam o percurso, e introduzem cor em pontos estratégicos, sem que o jardim dependa de florações contínuas para manter seu apelo visual.
Próximas à residência, ilhas sensoriais ampliam a experiência por meio de aromas e texturas. Lavanda e alecrim plantados em quantidade suficiente para liberar perfume ao menor toque no ar, superfícies de folhagens com texturas contrastantes, pedras naturais que aquecem com o sol da tarde. Esses detalhes não aparecem nas fotos com facilidade, mas são os que fazem a diferença entre um jardim que se admira e um jardim que se sente.
A integração entre arquitetura colonial e paisagem
A casa tem arquitetura de traço colonial, com linhas robustas e materiais que remetem à construção tradicional da região serrana. O paisagismo naturalista escolhido por Julio Sousa conversa com essa identidade. A inspiração toscana, presente na forma como os maciços foram agrupados e nos caminhos de pedra que cruzam o jardim, reforça um vocabulário estético que o estilo colonial já conhece bem.
A montanha entra no projeto como personagem ativa: a vegetação serrana ao fundo serve de pano de fundo, e o jardim funciona como uma transição cuidadosamente desenhada entre a casa e a paisagem natural.

Essa coerência entre arquitetura e jardim é um dos pontos mais difíceis de acertar em projetos residenciais. É comum ver casas de campo cercadas por paisagismos que poderiam estar em qualquer lugar do Brasil, sem nenhuma leitura do entorno imediato. Aqui, a montanha entra no projeto como personagem ativa: a vegetação serrana ao fundo serve de pano de fundo, e o jardim funciona como uma espécie de transição cuidadosamente desenhada entre a casa e a paisagem natural.
30 dias, ciclos trimestrais e a lógica da longevidade
O projeto foi executado em 30 dias — um prazo apertado para um trabalho de tamanha complexidade, o que exigiu planejamento rigoroso de logística, transplante e plantio. A manutenção foi pensada em ciclos trimestrais, respeitando o ritmo natural das espécies escolhidas e evitando intervenções desnecessárias que poderiam comprometer o caráter espontâneo do jardim.
Esse dado importa porque um dos maiores erros em jardins de casa de campo é subestimar o custo e a complexidade da manutenção. Um projeto bonito que exige atenção semanal constante tende a se deteriorar rapidamente quando os proprietários não estão presentes — situação comum em residências de veraneio. A escolha por espécies resilientes e o planejamento de ciclos de cuidado mais espaçados garantem que o jardim mantenha sua integridade mesmo com menor frequência de visitas.
O resultado final é um refúgio naturalista que integra ambientes internos e externos de maneira consistente, traduzindo em forma, vegetação e atmosfera algo que vai além da estética: a sensação de que, ali, a natureza e a vida doméstica encontraram um ponto de equilíbrio real.





