À primeira vista, trata-se de uma casa de linhas puras, materiais naturais e estética minimalista. Contudo, é um gesto aparentemente simples que altera completamente a percepção do espaço: um jardim estreito de apenas 60 cm de largura. Em vez de ocupar o papel secundário de elemento decorativo, essa faixa verde assume função estrutural no projeto, influenciando circulação, iluminação, ventilação e até o modo de habitar.
Implantada em Uberlândia (MG) com a assinatura da Mida Arquitetura, a residência de 130 m² foi pensada para unir moradia e trabalho em um fluxo contínuo. O casal de moradores, que passou anos vivendo em apartamento, desejava mais luz natural, mais contato com o exterior e uma sensação de respiro no cotidiano. A resposta veio não por meio de grandes áreas verdes, mas por meio da precisão: um canteiro linear integrado à arquitetura. O resultado é um exemplo de como o paisagismo estratégico pode redefinir a experiência doméstica.
Um jardim mínimo em dimensão, máximo em impacto
Em projetos urbanos, a limitação de espaço costuma ser vista como obstáculo. Entretanto, aqui, ela se tornou ponto de partida. O jardim de 60 cm não funciona como borda ou fundo de cena; ele é parte da narrativa arquitetônica.
Ao longo da fachada interna e do pátio, a vegetação densa cria uma barreira natural que filtra a luz, suaviza o calor e introduz movimento visual constante. Assim, mesmo em uma metragem compacta, a casa ganha profundidade e dinamismo.

A escolha por uma faixa contínua de verde favorece o chamado efeito biofílico, conceito cada vez mais presente na arquitetura contemporânea. A proximidade com plantas não apenas melhora a percepção estética do ambiente, mas também contribui para o bem-estar psicológico e térmico.
O verde atua como regulador microclimático, ajudando a reduzir a incidência direta de calor nas superfícies internas. Dessa forma, o jardim deixa de ser complemento e passa a ser infraestrutura ambiental.
O pátio como coração da casa
No centro da residência, o pátio integrado organiza a planta e conecta os dois setores principais: a ala frontal, que abriga garagem e escritório, e a área íntima ao fundo. Mais do que circulação, o pátio se torna espaço de permanência. Uma pequena piscina elevada e mobiliário leve convidam à pausa. O verde acompanha visualmente sala e cozinha, dissolvendo limites físicos.

Segundo Michell Damascena, responsável pelo projeto, o maior desafio foi criar uma área de convivência generosa em um terreno com medidas restritivas. “Estabelecer uma área de convivência em contato direto com o jardim era essencial, mesmo em um lote compacto”, explica.
Ao optar por um jardim linear contínuo, o arquiteto amplia a sensação espacial sem comprometer a área construída. A casa se expande visualmente para o verde, mesmo quando o terreno impõe limites.
Fachada introspectiva, interior expansivo
A fachada adota postura contida. Materiais crus e poucos recortes criam uma barreira entre o espaço público e o universo íntimo da residência. Contudo, ao atravessar o limite, a percepção muda completamente.

A casa se fecha para fora, mas se abre integralmente para dentro. A estratégia garante privacidade sem abdicar de ventilação cruzada e iluminação natural abundante. Assim, a arquitetura minimalista ganha profundidade por meio da relação com o exterior interno — o jardim. Essa inversão de lógica é decisiva: em vez de janelas voltadas para a rua, as aberturas enquadram a vegetação.
Materiais naturais e continuidade visual
O projeto aposta em materiais naturais como extensão da paisagem. O piso em concreto lapidado percorre ambientes internos e externos, reforçando continuidade visual. Além disso, sua massa contribui para o conforto térmico, absorvendo calor durante o dia e liberando-o de forma gradual.
As paredes com acabamento rústico e pontos de textura em terra criam contraste sutil com o verde do jardim. Já o forro em madeira aparente adiciona calor e equilíbrio à composição. Essa combinação estabelece uma paleta neutra, que permite que a vegetação seja o principal elemento expressivo do projeto.
Sala e cozinha: integração como princípio

Na área social, o conceito de integração total é levado ao limite. Sala e cozinha se conectam ao pátio por meio de grandes aberturas. A mesa de jantar dialoga com a ilha central, enquanto o verde atua como pano de fundo constante.

A ventilação cruzada, favorecida pela posição estratégica das aberturas, melhora o desempenho térmico da casa. Assim, arquitetura e paisagismo trabalham em conjunto. Não há excesso de mobiliário. A simplicidade reforça a presença do jardim como protagonista visual.
O jasmim que dá identidade à casa
No jardim frontal, o jasmim-manga introduz perfume, sombra e identidade ao projeto. A escolha da espécie não é apenas estética; trata-se de uma árvore que se adapta bem a climas quentes e oferece copa generosa mesmo em áreas controladas.

O paisagismo, portanto, também atua como elemento simbólico. O nome da residência nasce da vegetação que a acolhe.
Escritório e quarto: paisagem como rotina
O escritório, localizado na ala frontal, foi implantado com mesas voltadas para a vegetação. Trabalhar diante do verde altera o ritmo e a qualidade da experiência profissional. Já no quarto, o jardim estreito acompanha a parede externa e cria sensação de profundidade.

Mesmo com largura reduzida, o canteiro suaviza a rigidez do concreto e equilibra a estética minimalista. Michell destaca que a intenção era permitir que luz e natureza participassem ativamente do cotidiano. O verde enquadrado pelas aberturas transforma o ambiente íntimo em refúgio silencioso.
Quando poucos centímetros mudam tudo
O que este projeto demonstra é que a transformação não depende necessariamente de grandes extensões de terreno. Um jardim de 60 cm pode redefinir circulação, conforto ambiental e atmosfera. Em tempos de adensamento urbano, soluções como essa apontam para um caminho possível: integrar arquitetura e paisagismo desde o início do processo, tratando o verde como parte da estrutura espacial, e não como adição posterior.
Aliás, talvez o maior ensinamento seja justamente este: o refúgio não nasce do tamanho do espaço, mas da qualidade da relação entre interior e natureza. E, às vezes, 60 centímetros são suficientes para mudar completamente a forma de morar.





