A maior parte dos hotéis boutique no Brasil ainda resolve sustentabilidade com captação de água da chuva e algumas placas solares no telhado. A Casa Daia foi além disso. O empreendimento, inaugurado em 2025 na Barra dos Remédios, no litoral oeste do Ceará, trata a construção industrializada de madeira como ferramenta central de preservação, não como detalhe decorativo de um projeto que poderia ter sido resolvido em concreto.
A região onde o hotel foi implantado é um mosaico ambiental raro. Manguezais, dunas, rios e caatinga convivem em uma antiga fazenda de 220 hectares, hoje convertida em território de turismo regenerativo. Esse conceito vai além de simplesmente reduzir danos: a proposta é que a operação do hotel devolva ao ecossistema mais do que retira dele, fortalecendo a vegetação nativa e os ciclos hídricos da área ao longo do tempo.
Implantação respeita o terreno em vez de moldá-lo
Os quatro bangalôs de 90 m² que compõem a hospedagem não foram posicionados de forma arbitrária. A equipe responsável buscou clareiras já existentes na vegetação, evitando a supressão de árvores e arbustos nativos. O grande erro em projetos litorâneos costuma ser tratar o terreno como uma folha em branco. Aqui, a lógica foi inversa: a vegetação ditou onde cada módulo poderia ser instalado.
As fundações são rasas e os decks ficam elevados do solo. Essa escolha técnica preserva a permeabilidade do terreno, mantendo a capacidade natural de infiltração de água e reduzindo a compactação do solo que normalmente acompanha obras convencionais com fundações profundas e radiers de concreto.
O desenho bioclimático dos bangalôs aproveita a orientação solar e os ventos predominantes da região para criar ventilação cruzada constante. O resultado é conforto térmico sem depender de ar-condicionado ou qualquer sistema mecânico de climatização, uma decisão que reduz drasticamente o consumo energético do empreendimento em uma área onde a manutenção de equipamentos seria complexa e custosa.
Sistema Modular BV: madeira pré-fabricada como solução logística
A viabilidade técnica do projeto está no sistema Modular BV, desenvolvido pelo escritório UNA barbara e valentim em parceria com a fabricante Crosslam. O sistema utiliza módulos pré-fabricados em CLT (Cross Laminated Timber) de eucalipto reflorestado, montados a seco diretamente no canteiro de obras.
A escolha por construção modular em madeira resolve um problema recorrente em regiões remotas: a complexidade logística de levar materiais e mão de obra especializada até locais de difícil acesso. Quando a fabricação acontece em ambiente controlado e a montagem em campo é feita a seco, boa parte da imprevisibilidade que normalmente assola obras em áreas isoladas deixa de existir.
Essa lógica construtiva traz três vantagens diretas. Primeiro, os prazos de execução se tornam previsíveis, já que os módulos chegam praticamente prontos ao terreno. Segundo, o volume de resíduos gerados na obra cai significativamente, pois o corte e o encaixe das peças acontecem em fábrica, não no canteiro. Terceiro, os custos ganham previsibilidade, um fator decisivo em projetos onde o transporte de materiais convencionais até a região representaria um gargalo financeiro relevante.
A execução em campo ficou a cargo da construtora Abaeté, responsável por garantir que a montagem a seco dos módulos de CLT atendesse às especificações técnicas do projeto original sem comprometer a integridade estrutural em uma área sujeita à maresia e à umidade constante do litoral cearense.
- Veja também: UFPR e Tecpar se unem para desenvolver certificação inédita em madeira engenheirada no Brasil
Vínculo com o território vai além da arquitetura
A relação da Casa Daia com o entorno não se limita às escolhas construtivas. O empreendimento mantém diálogo ativo com as comunidades de Pescada Nova e Praia Nova, priorizando a contratação de mão de obra local e apoiando iniciativas sociais na região. Essa integração econômica é parte essencial do conceito de turismo regenerativo. Um hotel que preserva o ambiente físico mas ignora o tecido social ao redor cumpre apenas metade da proposta.
As práticas sustentáveis se estendem à operação diária do hotel. Energia fotovoltaica abastece boa parte da demanda elétrica do empreendimento, enquanto a captação pluvial reduz a dependência de fontes externas de água em uma região onde a gestão hídrica exige planejamento rigoroso. O projeto também conta com sistema de agrofloresta, integrando produção alimentar à recomposição da vegetação nativa, além de manejo criterioso de resíduos sólidos gerados pela operação hoteleira.
A Casa Daia demonstra que a combinação entre madeira engenheirada, implantação criteriosa e respeito ao território não é incompatível com hospitalidade de alto padrão. É justamente essa coerência entre forma construtiva e contexto ambiental que transforma o empreendimento em referência para projetos futuros em áreas costeiras sensíveis no Brasil.
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